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Capa do romance A Irmã Desprezada por Ele, Agora Adorada

A Irmã Desprezada por Ele, Agora Adorada

Clara dedicou dezesseis anos de devoção ao meio-irmão, Heitor Lobo, mas sua confissão artística foi brutalmente rejeitada. Após um episódio traumático de abuso e ser falsamente acusada pela própria mãe de seduzi-lo, ela percebe que o amor dele é uma jaula. Determinada a escapar dessa humilhação, Clara muda radicalmente o visual e foge para São Paulo para estudar design. Ao aceitar o apoio de um tio, ela abandona o passado para reconstruir sua própria vida.
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Capítulo 2

Ponto de Vista de Clara Matos:

As palavras que eu não disse pairavam no ar, pesadas e não ditas, como um sudário cobrindo o fantasma do nosso relacionamento. Passei pela sala de estar novamente, uma dor fantasma no peito. Heitor ainda estava grudado na transmissão ao vivo de Kaila, alheio. Sua risada, leve e despreocupada, flutuou atrás de mim, um contraponto cruel à turbulência que se agitava dentro de mim.

Ele nem notaria que eu tinha ido embora. Não de verdade. Não até que minha ausência deixasse uma lacuna grande demais para ele ignorar, e mesmo assim, eu duvidava que ele a conectasse a algo além de inconveniência. Eu era um acessório, uma sombra na periferia de sua vida. Nunca o evento principal. Nunca a protagonista.

O pensamento se solidificou em mim, frio e duro: ele não saberia quando eu saísse. Ele não saberia para onde eu fui. E ele não saberia por quê.

Meu voo era em três dias. Três dias para desmontar uma vida inteira.

Retirei-me para o meu quarto, o santuário que também fora minha prisão. As paredes estavam cobertas de esboços, amostras de tecido, painéis de inspiração - todas relíquias de um sonho que um dia se entrelaçou com ele. Comecei com as roupas. Cada item que eu embalava era uma escolha deliberada, trocando a pele da antiga Clara. Os vestidos que ele elogiou, os suéteres que cheiravam vagamente ao seu perfume por causa de um abraço acidental - esses foram para uma pilha de doação. Apenas as peças que pareciam comigo, ou com a nova eu, entraram na mala.

Depois veio a parte mais difícil. As lembranças. O canhoto do ingresso do primeiro show que ele me levou. A rosa seca da minha formatura do ensino médio, que ele colocou atrás da minha orelha com um toque raro e gentil. A foto desbotada de nós na praia, ambos rindo, jovens e totalmente inconscientes da dor que estava por vir.

Cada item era um pequeno caco, cutucando a casca do meu coração mal cicatrizado. Segurei a foto, meu polegar traçando seu rosto sorridente. Uma lágrima, quente e indesejada, escapou e borrou sua imagem. Por um momento, o vazio dentro de mim pareceu cavernoso, um vácuo ecoante onde antes sua presença preenchia todos os cantos.

Então, no fundo de uma velha caixa empoeirada, eu o encontrei. Meu diário de infância. Um livrinho gasto com uma fechadura frágil que havia quebrado anos atrás. Eu não o via desde os quinze anos.

Folheando as páginas amareladas, minha respiração falhou. Cada entrada, cada rabisco infantil, cada desejo fervoroso, era sobre Heitor.

"Heitor me ensinou a tocar violão hoje. Seus dedos são tão fortes. Eu queria que ele segurasse minha mão daquele jeito."

"Ele me disse que meus desenhos eram incríveis. Ele disse que eu poderia ser uma designer famosa. Ele acredita em mim. Ele é meu herói."

"Kaila é tão bonita. Heitor passou o dia todo conversando com ela. Meu coração parece que está se partindo em um milhão de pedaços."

As palavras eram um eco brutal e não filtrado da minha devoção ingênua. Um testamento a um amor tão consumidor, tão unilateral, que era quase embaraçoso de ler. Lembrei-me de como ele me protegeu dos valentões, como ele pacientemente me deu aulas de matemática, como ele foi a única presença constante e gentil em uma casa fraturada pelo novo casamento da minha mãe. Ele era minha âncora.

Lágrimas escorriam pelo meu rosto, quentes e ardentes. Não apenas pelo amor perdido, mas pela garota perdida que havia derramado todo o seu ser nele. A garota que não sabia que merecia mais.

Chega, uma voz dentro de mim sussurrou, afiada e clara.

Minhas mãos tremiam, mas minha resolução era firme. Arranquei as páginas, rasgando-as em pedaços cada vez menores. O ingresso do show, a rosa seca, a foto - todos tiveram o mesmo destino. Cada rasgo era uma liberação física, um rompimento de um laço. O som do papel rasgando era ensurdecedor no quarto silencioso. Quando terminei, a pilha de memórias trituradas parecia neve caída, cobrindo o chão.

Varri tudo para um grande saco de lixo, amarrei-o e o empurrei para o fundo do meu armário. Longe da vista, longe da mente. Uma lousa em branco.

Uma porta de carro bateu lá embaixo. Depois outra. Passos no cascalho.

Meu coração martelava contra minhas costelas. Heitor. E Kaila.

Ouvi a voz brilhante e arejada de Kaila flutuar pela janela aberta. "Hê, querido, você contou à sua irmãzinha sobre nossos lindos centros de mesa? Ouvi dizer que ela tem um ótimo gosto para flores."

Eu estremeci. Irmãzinha. As palavras pousaram como pequenos dardos envenenados.

Então, a voz de Kaila, mais perto desta vez, do lado de fora da minha porta. Uma batida leve. "Clara? Você está em casa? Hê e eu acabamos de voltar da floricultura. Escolhemos as orquídeas mais requintadas para a festa de noivado. Heitor disse que você adora orquídeas, então pensei em pedir sua opinião de especialista!"

Ela soava doce, mas havia uma corrente subterrânea de outra coisa. Um triunfo sutil. Um sorriso de escárnio em sua voz.

Abri a porta, uma expressão neutra estampada no rosto. Kaila estava lá, uma pequena caixa elegantemente embrulhada na mão. Seu sorriso perfeito não alcançava seus olhos. Heitor estava logo atrás dela, rolando o feed no celular, mal olhando para mim.

"Kaila", eu disse, minha voz plana. "O que foi?"

"Ah, só uma coisinha para minha futura cunhada!", ela chilreou, estendendo a caixa. "Um pequeno agradecimento por ser tão solidária com nosso noivado."

Peguei a caixa. Era leve. Dentro, aninhada em uma cama de papel de seda, havia uma delicada pulseira de prata. Um pequeno e intrincado pingente pendia dela - uma orquídea perfeitamente esculpida.

Minha respiração falhou. Orquídeas. Minha flor favorita. A que Heitor me dava todo Dia das Mães, dizendo que elas o lembravam da minha força. A que ele sabia que eu amava.

Uma onda de náusea me atingiu. O gosto metálico na minha boca se intensificou. Senti um suor frio brotar na minha testa.

Heitor ergueu os olhos do celular, uma carranca vincando sua testa. "Clara, o que há de errado? Você está pálida."

O sorriso de Kaila se apertou. "Oh, ela é alérgica a prata, Hê? Achei tão bonita."

Meu estômago se revirou. Não era a prata. Era a orquídea. A lembrança constante de seu suposto afeto, agora usada como arma por sua noiva. O descaso casual que ele tinha por meus verdadeiros sentimentos, compartilhando algo tão pessoal com Kaila.

"Estou bem", engasguei, uma sensação vertiginosa me invadindo. "Só um pouco... sobrecarregada."

Heitor revirou os olhos. "Sinceramente, Clara. Você é sempre tão dramática. Apenas diga obrigada."

Kaila deu um tapinha no braço dele. "Está tudo bem, Hê. Ela é apenas sensível. Algumas pessoas não estão acostumadas a presentes tão atenciosos." Seu olhar piscou para mim, um brilho de malícia em seus olhos castanhos. "Será que é porque você não recebe muitos presentes, querida?"

Minha cabeça girou. O mundo inclinou. Heitor nem percebeu. Ele já estava de volta ao celular, rolando o feed.

"Kaila, já chega", ele murmurou, mas seu tom carecia de convicção. Ele nem mesmo ergueu os olhos para encontrar os meus.

O nojo era uma bile subindo em minha garganta. Ele a estava defendendo. De novo. Ele sempre a defendia. Mesmo quando ela era abertamente cruel.

Agarrei a pulseira de orquídea, sua beleza delicada parecendo uma cobra venenosa em minha mão. Isso não era um presente. Era uma declaração de guerra. Um sinal final e inegável de que não havia lugar para mim em sua vida, nem mesmo como uma "irmãzinha".

O vazio tinha sido doloroso. Mas isso. Essa crueldade total e desdenhosa. Isso era raiva. Fria, clara e totalmente libertadora.

Minha decisão de partir não era apenas certa. Era uma questão de sobrevivência.

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