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Capa do romance A Irmã Desprezada por Ele, Agora Adorada

A Irmã Desprezada por Ele, Agora Adorada

Clara dedicou dezesseis anos de devoção ao meio-irmão, Heitor Lobo, mas sua confissão artística foi brutalmente rejeitada. Após um episódio traumático de abuso e ser falsamente acusada pela própria mãe de seduzi-lo, ela percebe que o amor dele é uma jaula. Determinada a escapar dessa humilhação, Clara muda radicalmente o visual e foge para São Paulo para estudar design. Ao aceitar o apoio de um tio, ela abandona o passado para reconstruir sua própria vida.
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Capítulo 3

Ponto de Vista de Clara Matos:

Naquela noite, a pulseira de orquídea parecia um ferro em brasa contra minha pele, mesmo depois de eu a ter arrancado e jogado na minha cômoda. As palavras doces e venenosas de Kaila ecoavam na minha cabeça. *Algumas pessoas não estão acostumadas a presentes tão atenciosos.* A acusação não dita pairava pesada: *Você não é digna de amor, nem mesmo do meu.*

A risada de Heitor, abafada mas distinta, vinha de seu quarto. Kaila ia passar a noite lá. De novo. Os sons da vida deles, tão vibrantes e cheios, se infiltravam pelas paredes, um lembrete constante de tudo do que eu não fazia parte. Minha cama parecia fria, grande demais só para mim. O sono era uma miragem distante.

Eu me revirava, os lençóis macios se enrolando em minhas pernas como correntes. O ar no meu quarto parecia denso, sufocante. Eu precisava respirar. Precisava escapar.

Me vi na sala de estar, atraída pelo piano de cauda, uma relíquia do primeiro casamento do meu padrasto. Ele brilhava ao luar, um monumento silencioso a uma vida que eu estava prestes a deixar para trás. Eu não tocava há anos. Heitor foi quem me ensinou, suas mãos grandes guiando as minhas sobre as teclas. Ele adorava me ouvir tocar.

Meus dedos, rígidos e trêmulos, tocaram hesitantemente as teclas de marfim. Uma nota suave e dissonante quebrou o silêncio. Recuei como se estivesse queimada. Não. Não esta noite. Não com o fantasma dele pairando sobre cada melodia.

Em vez disso, decidi fazer algo produtivo. Meu voo era amanhã. Minha mente acelerou, listando as tarefas finais: pegar meu novo RG, fechar minha conta bancária antiga, doar o resto dos meus pertences indesejados. Eu tinha que ser forte. Por mim mesma.

Na manhã seguinte, o cansaço se agarrou a mim como uma segunda pele. Minha cabeça latejava, uma dor surda e insistente atrás dos meus olhos. Eu me sentia esvaziada, drenada. Mas havia também uma estranha e frágil sensação de paz. Como a calmaria depois de uma tempestade. O pior já havia passado.

Desci as escadas cambaleando, o aroma de café e pães recém-assados agredindo meus sentidos. Kaila, de olhos brilhantes e irritantemente alegre, estava pondo a mesa. Heitor já estava sentado, rolando o feed no celular, um leve sorriso brincando em seus lábios.

"Bom dia, dorminhoca!", Kaila chilreou, sua voz um pouco alta demais para minha cabeça latejante. "Dormiu bem? Você parecia um pouco abatida ontem à noite. Talvez esteja pegando um resfriado."

Ela me serviu uma xícara de café, seus movimentos graciosos. "Heitor estava me contando sobre seu lugar favorito para o café da manhã. Sabe, aquele com as incríveis panquecas de ricota com limão? Ele disse que vocês dois costumavam ir lá o tempo todo." Seu tom era leve, mas seus olhos, quando encontraram os meus, eram afiados e avaliadores.

Agarrei a caneca de café, o calor se infiltrando em minhas mãos frias. "Íamos", eu disse, minha voz plana. "Ele amava as panquecas, e eu sempre pedia os crepes de mirtilo."

Heitor ergueu os olhos, um brilho de algo indecifrável em seus olhos. Ele não disse nada.

Kaila deu uma risadinha. "Ah, Hê, você nunca me contou isso! Eu sou mais do tipo salgado. Mas sabe, eu estava pensando, para nosso primeiro brunch como casal, nós definitivamente deveríamos ir lá. Parece tão romântico." Ela se virou para mim, seu sorriso inabalável. "O que você acha, Clara? Não seria adorável?"

Meu estômago se contraiu. Lembrei-me daqueles brunches. As conversas tranquilas, seu interesse genuíno em meus designs, a maneira como ele ouvia atentamente, seu olhar caloroso e reconfortante. Nós até falamos sobre abrir uma pequena boutique juntos, anos atrás. Um sonho distante e tolo.

"Eu acho", eu disse, minha voz mal um sussurro, "que parece... apropriado." Forcei um sorriso pequeno e tenso. "Vocês dois merecem todo o romance do mundo."

Heitor finalmente largou o celular, seu olhar se estreitando em mim. "Você está bem, Clara? Você parece... estranha."

"Estou perfeitamente bem", eu disse, projetando uma confiança que não sentia. "Apenas um dia agitado pela frente. Preciso resolver algumas coisas."

Levantei-me, a cadeira raspando ruidosamente no chão. Eu precisava escapar dessa domesticidade sufocante.

"Resolver coisas?", Heitor perguntou, uma nota de suspeita em sua voz. "Onde você vai? Você geralmente me conta seus planos."

O velho Heitor. O Heitor controlador. Aquele que tinha que saber cada movimento meu, disfarçado de cuidado fraterno. Meu maxilar se apertou.

"Só ao banco. E depois para doar algumas roupas velhas", menti suavemente. "Nada emocionante."

"Ao banco? Para quê?" Seus olhos estavam afiados agora, perscrutadores.

Kaila, que observava nossa troca com grande interesse, interveio. "Ah, Hê, não seja tão curioso! Clara é uma moça crescida. Ela não precisa te reportar cada movimento." Ela me deu um olhar simpático, mas sutilmente condescendente. "A menos, é claro, que ela esteja planejando algo... escandaloso."

Um rubor subiu pelo meu pescoço. A implicação era clara: eu estava tentando agir às escondidas, para causar problemas.

"Estou apenas organizando minhas finanças", eu disse, minha voz perigosamente uniforme. "E não, Kaila, nada escandaloso. Apenas tentando ser uma 'moça crescida', como você diz."

Heitor se levantou, sua alta estatura projetando uma sombra sobre mim. "Clara, estou falando sério. Não vá fazer nenhuma besteira. Você sabe como se mete em confusão facilmente. Especialmente com dinheiro." Seu tom era paternalista, desdenhoso. "Eu ainda sou seu guardião, tecnicamente. Preciso saber que você não vai torrar todas as suas economias em alguma bobagem frívola."

Suas palavras me atingiram como um golpe físico. Ele não era meu guardião. Não mais. Eu tinha dezoito anos. Uma adulta. E ele ainda me tratava como uma criança, um fardo.

Kaila deu uma risadinha, cobrindo a boca com uma mão perfeitamente manicure. "Ah, Hê, você é tão protetor! É fofo, de verdade. Mas a Clara não faria nada para comprometer seu futuro, faria, querida? Especialmente não com suas novas... aspirações." Seus olhos brilharam com um brilho de conhecimento. Ela sabia sobre a FAAP. Ela sabia que eu tinha sido aceita. Ela provavelmente me ouviu no telefone com o tio Geraldo.

A amarga ironia arranhou minha garganta. Minhas aspirações. As mesmas que ele incentivou, depois ridicularizou, depois descartou.

Respirei fundo, forçando-me a permanecer calma. Era isso. O empurrão final.

"Estou de saída", eu disse, minha voz firme, desprovida de emoção. "Tenho coisas para fazer."

Virei nos calcanhares e saí, deixando o café, os pães e a domesticidade enjoativa deles para trás.

A chuva começou quando saí, uma garoa fria e implacável que combinava com a dor em meu coração. Apertei meu casaco, encolhendo os ombros contra o frio. Meu celular vibrou no bolso. Uma notificação do Instagram. Kaila Guedes.

A curiosidade, ou talvez um fascínio mórbido, me fez abrir. Um novo post. Uma foto dela e de Heitor, seus rostos pressionados, sorrindo radiantemente. A legenda: "Tão animada para o nosso futuro, meu amor! Planejando a festa de noivado dos nossos sonhos! #FuturaSraLobo #VidaDeNoiva #AmorDaMinhaVida."

Os comentários estavam chovendo. "Tão fofos!" "Metas de relacionamento!" "Mal posso esperar pelo casamento!"

Meus dedos tremeram enquanto eu rolava. Minha visão embaçou. Um futuro. O futuro deles. Um futuro que não tinha espaço para mim.

Meu coração não se partiu. Ele havia se estilhaçado tantas vezes que não havia mais nada para quebrar. Em vez disso, um desespero profundo e arrepiante se instalou sobre mim. Era um poço sem fundo, sugando todo o calor e a luz do meu mundo.

"Parabéns", sussurrei para o pavimento molhado de chuva. As palavras pareciam cinzas na minha boca. "Parabéns por extinguir a última centelha de esperança que eu já tive."

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