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Capa do romance A Herdeira do Crime

A Herdeira do Crime

Acordar no Havaí ao lado de uma ruiva misteriosa trouxe lembranças perigosas para um agente focado. Ela é filha do maior traficante de armas do mundo, o alvo que ele persegue há dois anos. Mesmo ciente do risco para sua carreira, o desejo por ela é incontrolável. Agora, ele enfrenta o pior dilema de sua vida: cumprir a ordem de matar a herdeira do crime ou proteger a mulher por quem se apaixonou. Descubra o desfecho dessa intensa e fatal perseguição.
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Capítulo 2

Para que você compreenda um pouco da dimensão do meu problema e tudo que me fez chegar até este momento, vou lhe contar um pouco sobre mim. Pode ficar em paz. Sei que você vai se interessar em saber sobre minha vida. E isso é importante para que você entenda como eu cheguei até Nicole.

Como eu lhe disse, faço parte da polícia. Mais especificamente, de um batalhão especial de investigação (e eliminação) de pessoas consideradas perigosas. Talvez você jamais tenha ouvido em uma divisão assim, afinal, não somos tão famosos quanto outras que aparecem na TV e já viraram até filmes. Entretanto, se você ainda está vivo e o mundo ainda não está pior do que tudo que você vê, agradeça à nossa divisão.

Antes de fazer parte dela, eu era um policial de elite. Participava de centenas de operações em comunidades, procurando sempre encontrar eles, os bandidos. E quer saber da minha lista de troféus dessa época? Ah, é bem bacana. Traficante de drogas, assassino, ladrão de banco, estuprador, terrorista. Diversos desses passaram por minhas mãos... e, claro, acabaram com, no mínimo uma bala fincada no meio da testa.

Você quer saber qual é a sensação? Eu vou lhe contar. Me pagam para eliminar o lixo do mundo. Cada um daqueles que eu matei tinha uma ficha enorme. Eu vou lhe falar o que eu sinto fazendo isso. Fácil. Eu sinto prazer. É tão excitante ver um desgraçado desses sangrando em minha frente e perdendo o último fôlego de vida que se pudesse fazia isso todos os dias.

O último que peguei antes de mudar de divisão era procurado há um tempão. O filho da puta tinha raptado duas crianças, estuprado, matado e jogado o corpo na Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro. Nem preciso dizer que eu me ofereci para esta caçada. Nós subimos um morro. Eu e mais cinco. Fizemos uma limpa. Apareceu no caminho, sentamos o dedo. Claro que pegamos alguns para nos contar sobre quem estava procurando. E sabe onde o filho da puta se escondia? Na casa da avó. Quando batemos na porta, ela disse que o neto estava com “problemas psicológicos”. Eu, educadamente, disse que iria levar a cura para ele. E fiz isso. Primeiro, esfreguei a cara do desgraçado nas ruas e calçadas, fazendo com que cada lugar tivesse o sangue dele. Depois, levei para a beira do morro e estourei o miolo deles. Pronto! Curado!

Foi então que me chamaram para este batalhão especial. Meu superior era o João, o cara que me recrutou. Lembro exatamente da conversa dele:

— Carlos, estou aqui para lhe fazer um convite bem diferente. Quero que você integre um batalhão diferente, onde vamos, juntos, limpar a sujeira desse mundo. Meu objetivo não é pegar os pequenos, igual vocês fazem. Eu quero é os grandes. Aqueles que estão no comando.

Eu lembro que sentei numa cadeira de escritório, estiquei as pernas e coloquei sobre a mesa dele, dizendo:

— E o que eu ganho com isso? Por que eu deveria ir para um batalhão desses?

O homem sorriu:

— É a sua chance de fazer uma limpa nas ruas e ainda ir atrás de alguém que você já ouviu falar... Conhece o Bira do Beco?

Ao ouvir aquele nome eu quase caí da cadeira. Claro que sabia quem era. Eu o odiava desde que éramos crianças:

— O que aquele filho da puta anda fazendo?

João deu um sorriso. Sabia que eu estava dentro, ainda mais se fosse para pegar aquele gordo careca nojento. Ele respondeu:

— Nós estamos falando de um dos maiores traficantes de armas do país, Carlos.

— Aquele merdinha virou traficante de armas? Ah, então foi por isso que ele sumiu da comunidade! Bem que eu estranhei. E como pegaremos ele?

João riu naquele instante. Sabia que tinha conseguido me convencer a participar deste batalhão especial.

E quer saber? Não posso dizer que me arrependi não. Meu trabalho seria bem interessante. Eu teria que investigar os casos propostos, reunir provas e, claro, ir até os extremos para encontrar o desgraçado do Bira do Beco.

Sei que o nome dele parece ridículo, assim como de vários traficantes são. Mas ele era bem perigoso e ainda estava arrumando bastante confusão com a nossa organização. Era um burro, um merda. Não sei como ele poderia se tornar um traficante de armas altamente procurado. Isso me intrigou. Será que não tinha alguém por trás dele?

Mas, naquele dia, o que me interessava era saber exatamente com quem estava lidando. Eu perguntei ao João:

— Quem faz parte desse batalhão especial?

Ele começou listar alguns poucos nomes. E no meio, claro, tinha que estar o “senhor certinho, politicamente correto e que sempre seguia as leis” do Jorge. Eu tinha um certo nojo dele antes. E, com o tempo, isso aumentou. Porque não gosto de pessoas que tenham uma pose assim. Algo estava escondido por detrás daquela perfeição. Lembro que questionei João:

— Porra, logo o Jorge?

João me respondeu assim:

— Preciso de um ponto de equilíbrio no grupo, Carlos. Alguém que não pense apenas em limpar a sujeira, mas que consiga encontrar provas, conversar e até usar um pouco de negociação. Há momentos que conversar também faz parte na nossa profissão.

— Ah, mas eu converso com eles — retruquei. — Eu e Gertrudes. — Gertrudes era o apelido carinhoso para uma das minhas armas. Na verdade, todas elas eram Gertrudes a partir do momento em que estavam nas minhas mãos, então, não importava a arma, ela sempre teria o mesmo nome.

Lembro que João me olhou com uma expressão séria. Eu sabia que era por isso que ele estava me chamando. E por que não seria? Eu não tinha medo de nada, era bom no que fazia e sempre realizava as missões com sucesso. E achava isso ótimo. Só os bandidos que não, afinal, sempre sofriam baixas e, quando eu dava sorte, eles perdiam a vida no processo.

— Então, meu amigo Carlos, você usa a Gertrudes. Jorge vai conversar com carinho. Lembra da famosa história do policial bom e do policial mau?

— Desculpe, João, nunca consegui chegar com nenhum deles respirando para conhecer o policial bom... acho que isso é uma falha minha...

Nós dois gargalhamos. E eu estava dentro. Numa missão para pegar o Bira do Beco. Ah, como eu queria ser o primeiro a encontrar aquele desgraçado. Eu ia fazer com que ele sofresse bastante e pagasse por muito que fez quando eu era criança.

Quando eu saí daquela reunião, caminhei para meu carro. Fiquei pensando:

“Por que eu? Justamente eu teria que pegar aquele merda do Bira em uma missão altamente secreta?”

Mal sabia que teria sido melhor voltar e desistir de tudo. Teria tornado minha vida mais fácil. Ainda mais depois de tudo que aconteceria por causa desse caso (sim, foi nesse caso que eu conheci Nicole e já vou chegar nessa parte).

Quando cheguei no meu apartamento, na zona Sul do Rio, minha mãe me esperava. Uma senhora baixinha, com pele negra, cabelos embranquecidos e acima do peso. Ah, como eu amo essa velha! Ela sempre me motivou a tudo.

E não estranhe que eu, um cara de quarenta anos, ainda more com minha mãe. Quando entrei na polícia, eu fiz questão de comprar um apartamento longe daquele morro onde tivemos apenas sofrimento e viemos para cá. Eu e minha velha. Claro que eu não trazia mulheres para cá. Respeitava a velha. E era por isso que eu tinha um kitinet perto alugado também. Era o lugar onde eu realmente me divertia (afinal, que mulher não gosta de um policial forte como eu?).

Mas ainda não é esse o fato que eu quero contar. Naquele dia, justo naquele dia, tinha desmarcado com a Marta, uma garçonete desempregada do bairro que vivia me fazendo visitas íntimas no meu pequeno espaço. Ah, como eu gostava de ter aquela mulher de meia idade lá. E justo naquele dia, quando eu queria acabar com a adrenalina acumulada, ela desmarcara comigo.

Quando cheguei em casa, minha mãe percebeu que eu estava diferente. Ela logo veio me questionando:

— O que aconteceu, meu filho?

Eu dei um sorriso:

— Recebi uma promoção, mãe. E, agora, vou trabalhar menos. Vai ser menos arriscado e estarei mais tempo com a senhora.

Naquele momento, era o que eu achava. Mal sabia que minha vida ia mudar por completo. Ao contrário do que eu pensava, eu iria trabalhar muito mais e estaria longe de todos que eu amava por mais tempo que antes.

No dia seguinte, quando cheguei no serviço, eu fui chamado pelo meu superior. Ele me mandou sentar e começou a falar:

— Você vai agir diferente hoje, meu amigo. A partir de agora, você deverá investigar como puder e reunir informações para encontrar aquele desgraçado que queremos pegar.

Eu comecei a sorrir:

— Mas isso era para ser fácil. Só pegarmos a pessoa certa.

— Não, Carlos, você não está entendendo. Aquele filho da puta está se escondendo. E alguém está no lugar dele. Provavelmente a filha dele.

Foi a primeira vez que ouvi falar que Bira tinha uma filha. Queria que tivesse sido a última. Mas era ali que tudo estava começando a acontecer. E meu maior erro foi justamente atrás da filha daquele filho da puta.

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