
A Esposa De Cristian
Capítulo 2
[ Sterling E Associates, Lower Manhattan - Nova York] ]
08:30 AM.
O escritório Sterling & Associates ocupava o terceiro andar de um prédio comercial na William Street, no coração do distrito financeiro. Era um espaço modesto comparado aos arranha-céus reluzentes que o cercavam, mas Ana sempre sentiu um pequeno orgulho ao ver a placa discreta na entrada do edifício.
Ana empurrou a porta de vidro fosco que separava a recepção do restante do escritório, cumprimentando Rebecca, a recepcionista de 19 anos que dividia o tempo entre atender telefones e estudar design gráfico online.
Rebecca: Bom dia, Ana! - disse a garota, erguendo os olhos da tela do computador. - O Mr. Sterling quer falar com você assim que chegar. Parece importante.
Ana franziu o cenho, pendurado o casaco no cabideiro próximo à sua mesa. David Sterling raramente a chamava logo cedo, a menos que houvesse algum problema com um projeto ou um cliente insatisfeito.
Ana: Alguma ideia do que se trata? - perguntou, puxando a cadeira de sua mesa.
Rebecca: Não faço ideia. Ele chegou há vinte minutos, falando ao telefone em voz baixa, e pediu para ser avisado no momento que você entrasse.
A mesa de Ana ficava em um espaço aberto que dividia com outros três arquitetos júniores: Michael Chen, um rapaz de 26 anos especializado em design comercial; Sarah Martinez, 29 anos, que focava em renovações residenciais; e Tom Bradley, 32 anos, o mais experiente do grupo e que Ana suspeitava estar sendo preparado para uma eventual promoção.
Michael: Bom dia, Ana - disse Michael, sem tirar os olhos da tela onde trabalhava em uma planta baixa. - Você ouviu falar sobre o projeto Blackwood?
Ana parou de organizar seus materiais de trabalho, olhando para o colega com curiosidade.
Ana: Que projeto Blackwood?
Sarah: Onde você estava ontem à tarde? - riu Sarah. - Sterling quase teve um ataque do coração quando recebeu o telefonema. A Blackwood Industries abriu uma licitação para um projeto gigantesco em Manhattan.
Tom: Não é só gigantesco - interrompeu Tom, finalmente se virando para participar da conversa. - É o maior projeto residencial de luxo dos últimos cinco anos. Dois bilhões de dólares, Ana. Dois bilhões.
Ana sentiu o estômago dar um pequeno nó. Projetos desse calibre eram raros, e quando apareciam, geralmente eram disputados pelos escritórios de arquitetura mais renomados da cidade. Sterling & Associates era respeitado, mas definitivamente não estava na mesma liga dos grandes players.
Ana: E nós vamos participar da licitação? - perguntou, tentando manter a voz casual.
Michael: Sterling está considerando. O problema é que eles querem apresentações presenciais na própria Blackwood Industries. No One World Trade Center.
Sarah: Com Christian Blackwood Ashford em pessoa - acrescentou Sarah, com um tom que deixava claro que sabia exatamente quão intimidadora seria essa perspectiva.
Ana havia ouvido falar de Christian Blackwood Ashford, claro. Era impossível trabalhar em arquitetura ou construção em Nova York sem conhecer pelo menos a reputação do CEO da Blackwood Industries. Jovem, bilionário, conhecido por sua inteligência afiada e padrões impossíveis de perfeição.
Tom: Sterling vai escolher um de nós para liderar a apresentação - disse Tom, e Ana percebeu um tom de competitividade em sua voz. - Obviamente, seria uma oportunidade incrível para qualquer um.
Ana: Miss Hayes Foster?
Todos se viraram ao ouvir a voz de David Sterling. O homem de 54 anos estava parado na porta de sua sala, gesticulando para que Ana se aproximasse.
Sterling: Poderia vir até minha sala, por favor? Temos algumas coisas para discutir.
Ana trocou um olhar rápido com os colegas antes de se levantar. Sarah lhe deu um sorriso encorajador, enquanto Tom parecia ligeiramente tenso. Michael apenas acenou, já voltando sua atenção para o computador.
O escritório de Sterling era pequeno mas bem organizado, com plantas arquitetônicas emolduradas nas paredes e uma mesa de madeira escura que ocupava a maior parte do espaço. Ele indicou a cadeira à frente da mesa, fechando a porta atrás dela.
Sterling: Ana, sente-se, por favor - disse ele, rodeando a mesa para se sentar em sua própria cadeira. - Preciso conversar com você sobre uma oportunidade que surgiu.
Ana: O projeto Blackwood? - perguntou diretamente.
Sterling: Exato - Sterling se recostou na cadeira, estudando o rosto de Ana com atenção. - Como você sabe, é um projeto extraordinário. O tipo de oportunidade que pode definir a carreira de alguém.
Ana assentiu, esperando que ele continuasse.
Sterling: A Blackwood Industries especificamente solicitou apresentações focadas em arquitetura sustentável integrada a desenvolvimento de luxo. É uma área na qual você tem demonstrado particular interesse e competência.
Isso era verdade. Ana havia escrito sua tese de conclusão de curso sobre habitação sustentável em centros urbanos, e sempre que possível incorporava elementos ecológicos em seus projetos, mesmo nos mais modestos.
Ana: Mr. Sterling, eu ficaria honrada em trabalhar nesse projeto, mas - começou ela, sentindo a necessidade de ser realista sobre suas limitações.
Sterling: Ana - interrompeu ele gentilmente. - Eu quero que você saiba que estou considerando você para liderar nossa apresentação.
Ana sentiu o coração acelerar. Liderar uma apresentação para a Blackwood Industries seria, sem dúvida, o maior desafio profissional de sua carreira até agora.
Ana: Eu... agradeço a confiança, Mr. Sterling, mas Tom tem muito mais experiência com projetos dessa magnitude.
Sterling: Tom tem experiência, isso é verdade. Mas você tem algo que ele não tem.
Ana: O que seria?
Sterling: Paixão genuína pela arquitetura que faz diferença. Eu li sua tese, Ana. Eu vejo como você trabalha. Você não projeta apenas edifícios; você projeta espaços que melhoram a vida das pessoas. E isso é exatamente o que a Blackwood Industries disse estar procurando.
Ana permaneceu em silêncio por um momento, processando as palavras dele. Uma parte dela estava empolgada com a possibilidade, mas outra parte - a prática, a cautelosa - sabia dos riscos envolvidos.
Ana: Quando seria a apresentação? - perguntou finalmente.
Sterling: Na segunda-feira. Nove da manhã. No 85º andar do One World Trade Center.
Três dias. Ela teria três dias para preparar a apresentação mais importante de sua vida profissional.
Sterling: Ana, eu não vou mentir para você. As chances de ganharmos este projeto são pequenas. Estaremos competindo com alguns dos maiores nomes da arquitetura. Mas se conseguirmos impressionar Christian Blackwood Ashford o suficiente para pelo menos sermos lembrados, isso já seria uma vitória.
Ana respirou fundo, pensando rapidamente. As contas do cartão de crédito, as parcelas do empréstimo estudantil, as despesas médicas do pai - tudo isso seria muito mais fácil de gerenciar se ela pudesse provar seu valor em um projeto dessa magnitude.
Ana: Eu aceito - disse ela, surpreendendo-se com a firmeza em sua própria voz.
Sterling: Excelente - Sterling sorriu, parecendo genuinamente aliviado. - Você terá acesso total aos nossos recursos. Use o que precisar. E Ana?
Ana: Sim?
Sterling: Não subestime você mesma. Você pode não ter a experiência de Tom, mas tem talento e visão. Às vezes, isso vale mais que anos de experiência fazendo a mesma coisa.
Ana saiu do escritório de Sterling com a mente fervilhando de ideias e nervosismo. Quando voltou para sua mesa, encontrou os três colegas obviamente curiosos sobre a conversa.
Tom: Então? - perguntou ele, tentando soar casual.
Ana: Eu vou liderar nossa apresentação para a Blackwood Industries - disse ela simplesmente.
O silêncio que se seguiu foi quase palpável. Sarah foi a primeira a reagir, com um sorriso genuíno e um "Parabéns!" entusiasmado. Michael assentiu aprovadoramente. Tom, por outro lado, forçou um sorriso que não chegou aos olhos.
Tom: Parabéns, Ana. Tenho certeza de que você fará um excelente trabalho.
Ana: Obrigada, Tom. Na verdade, eu esperava que você pudesse me ajudar com alguns aspectos técnicos da apresentação. Sua experiência seria invaluável.
A tensão no rosto de Tom diminuiu ligeiramente. Trabalhar colaborativamente era sempre melhor que competir destrutivamente.
Tom: Claro. Conte comigo.
Ana passou o resto da manhã iniciando sua pesquisa sobre a Blackwood Industries, Christian Blackwood Ashford e o tipo de projetos que a empresa havia desenvolvido nos últimos anos. Ela não fazia ideia de que a alguns quilômetros dali, no 85º andar do One World Trade Center, o homem que ela tentava impressionar estava lidando com seus próprios dilemas, completamente alheio ao fato de que uma jovem arquiteta de Brooklyn estava prestes a entrar em sua vida de uma forma que mudaria tudo.
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[ Blackwood Industries, One World Trade Center, Nova York]
08:45 AM.
O elevador privativo abriu diretamente no hall de entrada da Blackwood Industries, e Christian foi imediatamente recebido por Margaret Hayes, sua assistente pessoal há oito anos. A mulher de 45 anos, sempre impecável em seus ternos escuros, já estava esperando com um tablet na mão e aquela expressão eficiente que significava que o dia seria particularmente agitado.
Margaret: Bom dia, Mr. Blackwood Ashford - cumprimentou ela, caminhando ao lado dele em direção ao corredor que levava ao seu escritório. - Sua reunião de nove horas com a equipe de desenvolvimento foi cancelada. O Mr. Richardson está com gripe.
Christian: Reagende para amanhã na mesma hora - disse ele, ajustando os punhos da camisa enquanto caminhava. - O que mais?
Margaret: O advogado da empresa ligou três vezes desde as sete da manhã. Algo sobre os contratos do projeto Brooklyn Heights. E seu avô pediu para ser avisado assim que você chegasse.
Christian parou abruptamente no meio do corredor. Quando Harrison Blackwood Ashford queria falar com ele logo cedo, geralmente significava apenas uma coisa: mais pressão sobre o casamento.
Christian: Meu avô está aqui? - perguntou, resignado.
Margaret: Chegou há quinze minutos. Está esperando em seu escritório.
Christian suspirou quase imperceptivelmente. Adorava o avô, respeitava-o mais que qualquer pessoa no mundo, mas as conversas recentes sobre sua vida pessoal estavam se tornando cada vez mais tensas.
O escritório de Christian ocupava o canto sudeste do 85º andar, com janelas do chão ao teto que ofereciam uma vista espetacular da baía de Nova York. Era um espaço moderno mas elegante, com móveis de mogno escuro e algumas peças de arte cuidadosamente selecionadas. Harrison Blackwood Ashford estava sentado em uma das poltronas de couro próximas às janelas, lendo um jornal financeiro.
Aos 82 anos, Harrison ainda mantinha a postura ereta e o olhar penetrante que haviam intimidado concorrentes por décadas. Seu cabelo completamente branco estava, como sempre, penteado com precisão militar, e ele usava um de seus ternos cinza impecáveis.
Harrison: Bom dia, Christian - disse o patriarca, sem tirar os olhos do jornal. - Espero que tenha dormido bem.
Christian: Bom dia, vovô - respondeu ele, dirigindo-se à sua mesa. - Imagino que isso não seja uma visita social.
Harrison: Você imagina certo - Harrison dobrou o jornal cuidadosamente e o colocou na mesa lateral. - Seis meses, Christian.
Christian: Eu sei exatamente quanto tempo me resta - disse ele, ligando o computador.
Harrison: Sabe? Porque não me parece que está fazendo muito esforço para resolver a situação.
Christian finalmente olhou para o avô, tentando manter a expressão neutra.
Christian: Eu tenho encontrado com várias mulheres, como você bem sabe.
Harrison: Encontros casuais não são casamento, meu rapaz - Harrison se levantou, caminhando até a janela. - Sua mãe me ligou ontem de Paris. Ela tem algumas sugestões interessantes.
Christian: Não quero ouvir as sugestões da mamãe - disse Christian firmemente. - Já deixei claro que não vou me casar com nenhuma dessas herdeiras europeias entediadas que ela fica me empurrando.
Harrison: Então encontre alguém você mesmo - Harrison se virou para encará-lo. - Mas encontre rápido. Esta empresa precisa de estabilidade, Christian. Os acionistas precisam saber que a liderança familiar continuará forte.
Christian: A empresa está mais forte do que nunca sob minha liderança.
Harrison: Sim, está. E é por isso que não posso permitir que você perca o controle acionário por teimosia.
O silêncio se estendeu por alguns segundos, carregado da tensão familiar que havia se tornado constante nos últimos meses.
Margaret: Com licença - disse ela, aparecendo na porta. - Mr. Blackwood Ashford, chegaram as propostas para o projeto Manhattan Luxury Residences. Gostaria de revisá-las agora?
Christian: Quantas propostas? - perguntou, grato pela interrupção.
Margaret: Dezessete escritórios de arquitetura submeteram propostas iniciais. Selecionei as oito mais promissoras para sua análise.
Harrison: Manhattan Luxury Residences? - perguntou, interessado. - O projeto de dois bilhões?
Christian: O mesmo - confirmou Christian. - Será nosso maior desenvolvimento residencial.
Harrison: Excelente. Um projeto dessa magnitude certamente impressionará uma futura esposa - disse o avô com um sorriso que Christian conhecia bem.
Christian: Vovô...
Harrison: Estou apenas observando que sucesso profissional pode ser atrativo para o tipo certo de mulher - Harrison pegou seu casaco. - Preciso ir. Tenho almoço com os Peterson.
Depois que Harrison saiu, Christian se permitiu um momento de silêncio para organizar os pensamentos. Seis meses. Cento e oitenta dias para encontrar alguém disposta a se casar com ele por razões certas, não apenas pelo dinheiro e status que ele podia oferecer.
Margaret: As propostas, señor? - perguntou ela gentilmente.
Christian: Sim, claro. Traga-as.
Margaret voltou momentos depois com uma pilha de pastas organizadas. Ela havia claramente passado a manhã revisando cada proposta, resumindo os pontos principais de cada escritório.
Margaret: Começando pelas mais tradicionais - disse ela, abrindo a primeira pasta. - Hartley & Associates tem quarenta anos de experiência em desenvolvimentos de luxo. Sua proposta é sólida, conservadora...
Christian: E previsível - completou ele, folheando rapidamente o material. - Próxima.
Eles passaram os próximos trinta minutos revisando as propostas. Algumas eram impressionantes do ponto de vista técnico, outras tinham orçamentos agressivos, e algumas combinavam experiência com inovação de forma inteligente.
Margaret: Esta é interessante - disse ela, abrindo uma pasta menor. - Sterling & Associates. É um escritório menor, mas a proposta deles tem uma abordagem diferente.
Christian: Diferente como?
Margaret: Eles estão focando em sustentabilidade integrada ao luxo. Arquitetura ecológica sem sacrificar elegância ou conforto. É... refrescante.
Christian pegou a proposta, examinando os desenhos conceituais. Havia algo na abordagem que o intrigou imediatamente. Era sofisticada mas não ostensiva, luxuosa mas consciente do impacto ambiental.
Christian: Quem seria o arquiteto líder? - perguntou, procurando o nome na documentação.
Margaret: Ana Isis Hayes Foster - leu ela. - Vinte e quatro anos, formada em Arquitetura pela Columbia. Especialização em desenvolvimento sustentável urbano.
Christian: Muito jovem - observou ele.
Margaret: Jovem, mas o portfólio dela é impressionante. Projetos menores, mas todos com essa mesma filosofia de sustentabilidade elegante.
Christian estudou o material por mais alguns minutos. Havia algo autêntico naquela proposta que a diferenciava das outras. Não era apenas sobre impressionar ou ganhar o contrato; parecia genuinamente apaixonada por criar algo significativo.
Christian: Agende apresentações presenciais para as cinco propostas mais interessantes - decidiu ele. - Quero conhecer pessoalmente os arquitetos por trás desses projetos.
Margaret: As cinco? Sterling & Associates está incluído?
Christian: Sim - disse ele, sem hesitar. - Na verdade, marque Sterling & Associates para segunda-feira de manhã. Nove horas.
Margaret: Muito bem. Mais alguma coisa?
Christian: Sim - ele se recostou na cadeira, olhando pela janela para a cidade que se estendia abaixo. - Pesquise um pouco mais sobre esta Ana Hayes Foster. Quero saber com quem estou lidando.
Margaret assentiu e saiu do escritório, deixando Christian sozinho com seus pensamentos. Ele não sabia explicar por que a proposta de Sterling & Associates havia chamado tanto sua atenção. Talvez fosse a abordagem honesta, sem artifícios desnecessários. Talvez fosse a paixão evidente pelo trabalho que transparecia em cada linha do projeto.
Ou talvez fosse simplesmente o fato de que, em um mar de propostas calculadamente impressionantes, aquela parecia real.
Christian voltou sua atenção para os outros negócios do dia, mas uma parte de sua mente permaneceu curiosa sobre a jovem arquiteta que havia conseguido capturar seu interesse profissional de uma forma que poucos conseguiam.
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