
A Determinação Fria e Calculada do Cirurgião
Capítulo 3
Ponto de Vista de Alícia:
O estalo agudo do vaso contra a parede foi instantaneamente seguido por uma dor lancinante na minha têmpora. Minha mão voou para a cabeça, voltando pegajosa de sangue. Cambaleei para trás, minha visão embaçando por um momento.
"Sua bruxa! Você tentou matar minha mãe!" A mãe de Aurora, a Sra. Carvalho, estava recostada na cama, seu rosto contorcido em uma máscara de pura fúria. Seus olhos, injetados e selvagens, me encaravam com uma intensidade que queimava.
Eu fiquei ali, sangue escorrendo pelo meu rosto, cerrando os punhos. A audácia. A cara de pau absoluta dessa mulher, depois do que eu suportei, depois do sacrifício final que fiz por ela. O pensamento de Anabela, caindo daquela ponte, ainda fresco em minha mente, fez meu sangue gelar.
"Você está bem o suficiente para atirar coisas, pelo que vejo", eu disse, minha voz plana, desprovida de emoção. "Isso é bom. Significa que você está se recuperando muito bem."
Virei-me para sair, o cheiro de desinfetante e privilégio imerecido me sufocando. Mas Aurora bloqueou a porta, sua mão mimada firmemente em meu ombro.
"Onde você pensa que vai? Você não vai sair até que minha mãe esteja completamente fora de perigo. Caio não vai deixar", ela ronronou, sua voz pingando falsa preocupação. A ameaça velada não passou despercebida.
Engoli o gosto amargo na boca, a raiva uma pulsação quente e latejante sob minha pele. Caminhei lentamente até a mesa de cabeceira, ignorando os olhares furiosos da Sra. Carvalho. Peguei uma bandeja estéril, meus movimentos precisos, profissionais. Minhas mãos, os instrumentos de cura, pareciam objetos estranhos.
Antes que eu pudesse sequer pegar um cotonete, uma ardência aguda floresceu em minha bochecha. A Sra. Carvalho me deu um tapa. Seus olhos ainda queimavam.
"Não ouse me tocar, sua assassina!", ela gritou, sua voz rouca. "Você matou o futuro da minha filha... não, você matou o futuro de Caio! Você não passa de uma interesseira! Minha Aurora me contou tudo sobre sua mãe e sua irmã. Uma bêbada e uma vadia, não é mesmo? Não é de se admirar que tenham tido um fim tão apropriado."
As palavras me atingiram como um golpe físico. Minha mãe. Anabela. As duas pessoas mais preciosas da minha vida, irrevogavelmente perdidas, e agora sendo caluniadas por essa mulher vil. Minha visão se estreitou. O mundo ao meu redor desapareceu, substituído por uma névoa vermelha e ofuscante.
Minha mão disparou, agarrando a garganta da Sra. Carvalho. Meus dedos se apertaram, espremendo. Seus olhos saltaram, seu rosto ficando de um roxo mosqueado.
"Você acha que sabe alguma coisa sobre elas?", minha voz era baixa, gutural, um som que eu mal reconheci como meu. "Você fala de assassinos? Sua filha matou minha mãe. E seu genro matou minha irmã. Eles tiraram tudo de mim. E você... você merece apodrecer no inferno junto com eles." Meu aperto se intensificou, os ossos frágeis em sua garganta pressionando contra minha palma. "Diga mais uma palavra sobre minha família, e eu juro, vou terminar o que a cirurgia não conseguiu."
Um empurrão súbito e violento me fez cair. Bati na parede com um baque surdo, minha cabeça batendo no gesso. Caio estava sobre mim, seu rosto contorcido em uma máscara de fúria, seus olhos em chamas. Ele me empurrou. Com força.
Ele puxou Aurora e sua mãe, agora ofegante, para trás dele, protegendo-as. Seu olhar, quando pousou em mim, estava cheio de um nojo arrepiante. "Você foi longe demais, Alícia. Eu sabia que você era ingrata, mas isso... isso é imperdoável. Você se tornou um monstro."
Aurora, sempre a vítima, agarrou-se a ele, soluçando dramaticamente. "Ela tentou matar minha mãe, Caio! Ela está completamente louca!"
A mandíbula de Caio estava cerrada. Ele encontrou meus olhos, sua voz fria e dura. "Peça desculpas. Agora."
Eu me levantei, meu corpo machucado, minha cabeça latejando. Cerrei os punhos, balançando a cabeça. "Nunca."
"Guardas!", Caio berrou, sua voz ecoando pelo corredor estéril. Duas figuras enormes apareceram instantaneamente. "Levem-na. Levem-na para o porão. E certifiquem-se de que ela fique lá até aprender seu lugar. Ela precisa entender com quem está lidando."
O porão. Meu sangue gelou. A adega. Não era apenas um porão. Era onde ele mantinha seus Dobermans. Bestas ferozes e rosnantes, treinadas para atacar qualquer coisa que se movesse. Ele chamava de sua sala de "alívio de estresse".
Meus olhos se arregalaram de medo. "Não! Caio, lá não! Por favor!" As palavras foram arrancadas da minha garganta, cruas de terror.
Mas seu rosto estava impassível, desprovido de misericórdia. Os guardas me agarraram, suas mãos como faixas de ferro em meus braços, me arrastando para fora do quarto. Lutei, mas eles eram fortes demais. Eles me puxaram para baixo, para o silêncio frio e úmido do porão.
O rosnado começou imediatamente. Profundo, ameaçador, ressoando na escuridão. Dois Dobermans enormes, seus olhos brilhando em verde na luz fraca, se lançaram contra as grades de seus canis, rosnando, dentes à mostra.
"Não! Por favor!", implorei, minha voz falhando. Lutei, desesperada, mas eles me arrastaram para além dos canis, mais fundo no espaço cavernoso. Eles abriram uma porta pesada com grades de ferro, me empurrando para dentro de um pequeno recinto vazio. Então eles bateram a porta, o clangor ecoando como um toque de finados.
Os Dobermans no porão principal agora estavam em um frenesi de latidos e rosnados, seus olhos fixos em mim. Eles rondavam do lado de fora da minha jaula, sua respiração quente contra as grades. Pressionei-me contra a parede mais distante, meu coração martelando contra minhas costelas.
"Caio! Por favor! Não faça isso!", minha voz era um grito desesperado. "Eles vão me matar!"
De cima, na casa principal, ouvi o som fraco e distorcido de sua voz. "Não até você implorar, Alícia. Não até você perceber seus erros."
Um rosnado aterrorizante irrompeu bem na minha frente. Um dos Dobermans havia encontrado um ponto fraco, uma brecha nas grades. Seu focinho passou, cheirando. Então, suas presas, longas e afiadas, cravaram-se em meu braço.
A dor, ofuscante e excruciante, rasgou através de mim. Gritei, me debatendo, tentando me afastar. Mas seu aperto era firme. Eu podia sentir seus dentes rasgando minha carne, moendo contra o osso. Eu estava presa.
Procurei meu telefone, meus dedos escorregadios de sangue, lágrimas escorrendo pelo meu rosto. Disquei para Caio, minha última e desesperada esperança.
"Caio! Eles... eles estão me atacando! Por favor! Me ajude!", minha voz era um gemido quebrado, mal audível sobre os rosnados.
Uma voz fria e calma entrou na chamada. Aurora. "Ela está apenas sendo dramática, Caio. Não a escute. Ela está te manipulando."
"Alícia, admita o que você fez", a voz de Caio, distante e sem emoção. "Admita que tentou matar a mãe de Aurora. Peça desculpas por caluniar a família dela."
"Não! Eu não fiz! Por favor! Minha mão! Está... está quebrada!" As palavras foram arrancadas de mim, mas era inútil. Ele não ouviria. Ele nunca ouvia.
O desespero, frio e absoluto, me dominou. Ele estava realmente me deixando morrer. Meu coração se encolheu em uma coisinha minúscula e enrugada. Este homem, meu marido, não era nada além de um monstro.
Um estalo súbito e agonizante. Meu pulso. As mandíbulas do Doberman se fecharam, torcendo, rasgando. Uma dor branca e quente ofuscante, depois um estalo nauseante. Minha mão ficou mole, pendendo inutilmente. O Doberman rosnou, balançando a cabeça, depois soltou, deixando uma massa mutilada de carne e osso.
Gritei, um som que rasgou da parte mais profunda da minha alma. Mas rapidamente morreu em minha garganta. A dor era intensa demais, consumidora demais. A escuridão nadou diante dos meus olhos. Pouco antes de desmaiar, vi Caio, seu rosto pálido e horrorizado, invadindo a porta do porão, correndo em minha direção. Ele me pegou em seus braços, sua voz um sussurro em pânico.
"Alícia? Meu amor? Me desculpe. Eu não queria que isso acontecesse."
Seu pedido de desculpas era uma piada cruel.
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