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A CEO e o faxineiro

Angelique Bellerose superou um passado de rejeição e insegurança para se tornar a CEO mais influente da Itália. Após provar seu valor ao mundo, ela vê sua vida mudar drasticamente em uma única noite ao acabar nos braços de Brandon Haddock, seu próprio faxineiro. Embora pudesse conquistar qualquer homem, Angelique se apaixona justamente pelo rapaz que ela salvou das ruas, enfrentando o dilema de desejar aquele que parece ser o mais proibido para sua realidade.
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Capítulo 2

A partir daí minha vida foi de mal a pior bem rápido, os primeiros dias no orfanato foram os mais difíceis para mim. Eu estava triste, tristeza e fome eram duas coisas que me deixavam irritada.

Por que ela não voltava logo? Ela ia voltar? Ahren insistia em me dizer todos os dias que ela ia sim vir nos buscar, mas chegou uma hora que nem ele mesmo acreditava mais naquilo, só dizia para ver se eu ficava menos triste. Para completar eu não tinha nenhuma amiguinha ali, algumas crianças eram malvadas, alguns meninos escondiam brinquedos e puxavam os cabelos das meninas, outras eram muito barulhentas.

Um dia, do alto da escada eu olhei para saber como estavam as coisas lá embaixo. Coloquei o rosto entre as grades. Tinham dois meninos correndo e gritando, brincando de pique pega no meio da sala enquanto uma rodinha com 5 meninas brincavam de bonecas.

O laço vermelho brilhava cintilante no cabelo de Bárbara. Eu não sabia o porquê, mas as bonecas dela sempre eram as mais bonitas. As roupas dela sempre pareciam mais novas e na moda, e as outras garotinhas sempre tentavam imitar o visual dela com o pouco que tinham, os sapatos e acessórios de cabelo da Bárbara sempre pareciam caros.

É claro que as outras meninas viviam atrás dela.

Barbie, esse era o apelido dela, e sinceramente, paparicavam mais aquela menina do que a única boneca original da marca que revezávamos para usar.

Eu só queria ficar quietinha e em silêncio, então o balanço na grande árvore do jardim se tornou o meu lugar favorito, eu ia para lá todas as tardes.

— Você vai querer? – Ahren se aproximou, me mostrando um potinho com frutas cortadas.

Balancei a cabeça, eu não estava com nenhuma fome.

— Acha que ela está brava? Porque fiz xixi na cama? – Perguntei-lhe. Ahren deu de ombros, fazendo uma careta por causa do sol.

Os passarinhos cantavam coisas que eu queria saber entender.

— Acha que é por causa disso? – Perguntou ele, meu irmão mordeu um pedaço de maçã cortada depois de se sentar no balanço ao meu lado.

Dei de ombros.

— Não sei, ué. Pode até ser. Mamãe não gostava quando eu fazia xixi na cama.

– Ponderei.

Ora, e o que é que eu podia fazer? Não conseguia segurar a bexiga toda vez que tinha pesadelos. De tempos em tempos eu tinha uns sonhos esquisitos, alguém corria atrás de mim e chegava tão perto de me pegar que o xixi escorria pelas minhas pernas.

Pelo jeito não era só no sonho que isso acontecia.

— Escuta, Lili. E se ela foi viajar? Talvez já esteja até voltando.

— Mas ela não disse que ia voltar, disse?

Ahren parou para pensar. Ela não disse, eu tinha pensado naquilo um milhão de vezes. Ahren não teve tempo de formular uma resposta, o grupo de garotinhas que andavam com Bárbara se colocou em nossa frente e uma chuva de cascas de banana foi jogada diretamente em mim.

— MIJONA! – Cacau, a fiel escudeira dela, gritou me apontando o dedo, todas as outras repetiram. — MIJONA!

— MIJONA!! – Bárbara deu um sorriso cruel, naquele momento eu senti ódio correndo nas veias. Só o que me importava era agarrar naqueles cabelos loiros dela e não soltar mais.

— MIJONA!

— ELA NÃO É NENHUMA MIJONA! – Meu irmão levantou e gritou bem alto para me defender, fazendo as meninas calarem a boca.

— É SIM! – Bárbara deu um passo a frente, gritando mais alto que o meu irmão. — Sua mãe nunca vai vir te buscar porque além de feiosa você é uma Maria Mijona!

Eu olhei para ela com ódio, toda frustração e tristeza que eu vinha sentindo nos últimos dias foram parar nas minhas mãos e eu voei em cima dela. Agarrei seus cabelos, indo direto para o chão.

Bárbara gritou, as outras meninas se afastaram gritando e algumas correram para pedir ajuda. Meu irmão se manteve olhando enquanto eu dava uma surra nela, quem ela achava que era para me chamar de feiosa? Se não fossem as roupas e os acessórios ela ia parecer uma pata choca.

Não sei quanto tempo durou mas em algum momento vieram adultos para me tirar de cima dela. Fomos parar na sala da diretora, uma sentada do lado da outra, eu revirava os olhos enquanto era obrigada a ouvir Bárbara abrir o berreiro.

Nem preciso dizer por qual motivo eu levei a pior, fui pega no flagra, e ela teve sorte por eu não ter uma tesoura por perto ou poderia dar adeus aos seus fios dourados.

Bárbara tinha algum tipo de favoritismo estranho ali, o que na época eu não queria entender.

A partir desse dia eu me tornei a garota mais perseguida e odiada daquele orfanato, mas descobri que ser firme fazia com que tivessem medo de apanhar. Meu irmão me defendia como podia, ele se meteu em diversas encrencas para salvar a minha pele, já que eu insistia em fazer algumas brincadeiras de mau gosto para retribuir um pouco de tudo que a turminha da Barbie fazia contra mim.

Ouvir coisas ruins sobre si mesma constantemente da boca de várias pessoas faz com que em algum momento comecemos a duvidar da veracidade das afirmações. Eu era só a estranha, magricela e com a pele pálida demais. Quando fiz onze anos precisei usar óculos e um ano depois precisei de um aparelho para corrigir os dentes, de tempos em tempos eu tinha espinhas, o que rendeu uma gama de novos apelidos para a minha conta e uma baixa autoestima que me fazia querer fugir de espelhos.

Mas pelo menos eu era inteligente, sempre tirava ótimas notas e fazia questão de negar qualquer pedido de ajuda da turma da Barbie chorona.

Conforme os anos foram se passando eu finalmente pude tirar o aparelho quando completei os dezesseis anos, mas os óculos ainda eram meus companheiros por muito mais tempo.

As coisas não mudaram muito nós anos seguintes, as garotas não pararam de me atormentar e infelizmente nem eu e nem meu irmão fomos adotados durante os anos que vivemos ali. Para o meu azar Ahren completou dezoito anos e teria que partir do orfanato, me deixando sozinha com aquela turma insuportável.

Ahren me prometeu que iria sair e conseguir um emprego, assim, quando eu saísse dois anos depois nós teríamos um lugar para morar, mesmo que fosse alugado. Os dias foram maus depois que ele se foi, ocupei meu tempo com os estudos e com a leitura recreativa para fugir da realidade triste e monótona que tomou conta daquele lugar...

Até uma visita de caridade mudar tudo para mim pela primeira vez.

Fomos reunidos no salão principal do orfanato, a turma da Barbie cochichava sem parar e eu não entendi o motivo de tanta animação.

— Silêncio! – A diretora ordenou antes de começar. — Como sabem, a família Oliveira virá fazer a visita anual para fazer doações para a instituição.

A família Oliveira era uma das mais tradicionais e ricas do Rio de Janeiro, todos os anos, além de um bom valor em dinheiro eles doavam roupas de marca, brinquedos e sapatos para o orfanato. Era uma briga só na divisão dos ítens e eu sempre preferia ficar de fora.

— Estejam todos prontos amanhã às seis da tarde. Tomem banho, se arrumem direito e limpem as orelhas. Desta vez o filho do casal Oliveira também virá. Estamos entendidos? – Cruzei os braços, era mesmo necessário falar que tínhamos que fazer a higiene pessoal básica?

Bom, com os meninos daqui, talvez fosse essencial sim.

— Sim, senhora.

§

Naquela noite a turma da Barbie estava reunida ao redor da cama dela, infelizmente Bárbara dormia no mesmo quarto que eu e por isso não pude evitar ouvir os risinhos e cochichos ao entorno do que elas fofocavam.

— Uau! É esse? – Cacau perguntou quando Bárbara virou o celular para elas. Houveram alguns suspiros e risinhos contidos. — Qual é o nome dele?

— Alexandro, ele tem 18 anos e vai para a faculdade, vai ser um engenheiro. – Bárbara virou a tela de volta para si e encarou sei lá o que com cara de besta.

Revirei os olhos, besta ela já era por achar que um cara rico de 18 anos ia querer alguma coisa com um bando de garotas mimadas de 15 e 16. Cobri minha cabeça com o edredom e me forcei a dormir. No dia seguinte a presença do tal Alexandro Oliveira foi assunto o tempo inteiro, na mesa do café da manhã, pelos cantos no jardim e em todo lugar para onde as meninas andavam.

Quando uma das garotas disse que tinha separado o melhor vestido para colocar Bárbara olhou bem na cara dela e a expôs na frente do resto da turma.

— Esse vestido é horroroso, Maria Júlia. Acha mesmo que ele vai gostar dessa roupa? – As outras riram, fazendo Maria ruborizar de vergonha.

Eu dei de ombros, elas criaram a cobra por quem seriam picadas. Que agora abrisse os olhos e se afastasse da turminha da Barbie.

— O Alexandro só vai olhar para mim hoje, entenderam meninas? Nenhuma de vocês devem me atrapalhar.

Elas concordaram feito cadelinhas na coleira. Eu saí dali, esperei a hora certa e me arrumei minimamente bem para receber a família Oliveira. Nada exagerado, calça jeans, uma blusa social e sapatilhas, além de um rabo de cavalo que fazia parecer que eu iria para uma entrevista de emprego.

As dezessete horas todos estavam sentados nos sofás do salão principal. Quem olhava assim, todos limpos, arrumados e perfumados não imaginavam que aquele orfanato só faltava pegar fogo nos demais dias da semana. Uma hora depois a família Oliveira finalmente chegou, o casal distinto adentrou o salão acompanhados do filho e da diretora.

Tivemos que seguir todos os protocolos de dar boas vindas e apresentar nossos dotes a eles. Uma de nós preparou bolinhos, outras apresentaram concursos escolares que foram ganhos e eu apresentei um projeto de ciência que tinha ganhado o primeiro lugar na feira esse ano. Percebi que minha explicação prendeu a atenção deles, até mesma da senhora Oliveira que se mantinha esnobe e de nariz em pé.

Depois que as doações foram devidamente feitas, a diretora fez questão de deixá-los livres para ver as reformas que haviam sido feitas. Quando Alexandro se mostrou interessado em andar pelos cômodos Bárbara correu para falar com ele.

— Olá, eu me chamo Bárbara Paiva, mas todos me chamam de Barbie por aqui. É um apelido carinhoso que ganhei. – Ela estendeu a mão coberta por uma luva. Sim, Bárbara perdeu a noção do ridículo e se vestiu quase como uma princesa de época.

Alexandro a olhou sem muito interesse.

— Ah. Que... legal. Alexandro Oliveira. – Ele apertou sua mão.

— Nós sabemos seu nome. – Ela deu aquele sorriso venenoso que me fez revirar os olhos. — Eu posso lhe apresentar os cômodos.

— Agradeço, Bárbara. Mas gosto de explorar sozinho.

O brilho dela sumiu um pouco, mas seu sorriso falso continuou ali, finalmente eu estava me divertindo. Depois da cena e do casal Oliveira já estarem afastados eu fui me trancar no único lugar que me interessava naquele lugar, a biblioteca.

Me afundei na poltrona reclinável o máximo que podia, quase ninguém frequentava a biblioteca se não fosse para fazer pesquisas escolares.

Eu me transportei para dentro do meu livro assim que o abri, o personagem principal era um delegado que havia pedido a esposa e a filha e agora estava em busca de vingança, bom, estava até encontrar a linda Raquel Viana. Eu estava envolvida na narrativa, sentindo a dor do personagem no meu próprio coração.

— Mas que cavalo! Como pôde falar assim com ela? – Reclamei para as páginas.

— Com ela quem? – O susto me jogou direto para trás, fui com tudo para o chão, a poltrona virou bem em cima de mim.

— Ai! – Reclamei ao ser acertada na cabeça pelo encosto da poltrona.

O peso da poltrona sumiu de cima de mim, Alexandro tinha desvirado a poltrona e estava me olhando preocupado quando ergui os olhos.

— Você se machucou?

Eu me apressei em ficar de pé, ajeitando a blusa e o rabo de cavalo que agora devia estar todo torto. Meus óculos foram parar na boca e meu livro tinha rolado para onde só deus sabia onde.

— Não. – Eu limpei a garganta, colocando os óculos no lugar.

A sombra de um riso passou pelo rosto dele. Alexandro pegou algo no chão, meu livro.

— Com quem estava falando? Por acaso é maluca para falar sozinha?

— Eu estava falando com o meu livro. – Eu peguei meu xodó da mão dele.

— E o que foi que ele te respondeu?

Esse filho da mãe estava debochando de mim.

— Escuta, eu agradeço por me ajudar com a poltrona mas se veio aqui me falar gracinha já pode sair. – Cruzei os braços, erguendo o queixo como fazia com as cadelas da Bárbara.

Ele ergueu as mãos em sinal defesa.

— Eu só estava brincando, gostei do seu projeto de ciências. Você claramente é a mais inteligente desse lugar. – Alexandro deu uma olhada ao redor, como se não tivesse nada interessante por aqui.

— É mesmo? – Me interessei, ter uma pessoa famosa gostando do meu projeto de ciências pareceu vantajoso.

— Sim, como se chama?

— Angelique, Angelique Martins.

— Nome original. Você já sabe o meu. – Ele piscou um olho para mim. Abusado, não sabia se gostava ou não dele, mas seria mais fácil odiá-lo. — O que está lendo aí?

Eu não queria dividir, geralmente garotos menosprezavam a leitora de romances.

— Um livro qualquer.

— Um romance, imagino. – Ele pôs uma das mãos no bolso da calça. Até que era bonito, mas ainda sim não via motivo para todo fogo que as meninas tinham com ele. — O que mais você lê?

— Comecei a ler Hannah Arendt por causa de uma das personagens desse livro. Estou gostando.

— Tem bom gosto. – Alexandro puxou uma cadeira, se sentou e tirou um cantil de bolso da calça. — Já li Hannah Arendt para alguns trabalhos.

Ele deu um gole e me ofereceu o objeto de inox. Eu não precisava ser inteligente para saber que tinha bebida alcoólica ali dentro.

— Eu só tenho dezesseis anos.

— E daí? – Deu de ombros. Ponderei antes de pegar o cantil, nunca tinha bebido mas tinha curiosidade.

Virei o cantil na boca, o líquido desceu queimando pela minha garganta.

— Gosta daqui? – Indagou.

— Preciso responder essa pergunta? Ninguém gosta de morar em um orfanato, Alexandro. Esse aqui é péssimo por sinal, as Barbie girls me odeiam. – Voltei a me sentar na poltrona, agora com a postura ereta.

— Alex, só Alex. Posso falar com meus pais e conseguir uma transferência para você.

— Ah, não. Tenho preguiça só de pensar em tentar me encaixar de novo.

Alex deu de ombros.

— Se encaixar é fácil, basta fazer coisas que você não gostaria de fazer.

— Prefiro pagar o preço.

— Sorte sua, não tenho escolha a não ser fazer coisas que não gosto. Como por exemplo visitas de caridade. – Ele bebeu mais.

— Não queria estar aqui? – Perguntei.

— Não é que eu não goste de caridade, mas acho que uma doação pode ser feita sem que eu precise deixar de sair com os amigos. Qual é a necessidade desse protocolo todo?

— Gosta deles? Dos seus pais? – Minha pergunta aleatória o fez pensar. A vida dele devia ser boa, ele era rico, bastava uma palavra para que conseguisse investimento e apoio financeiro dos pais.

Bom, na verdade só a presença deles já devia ser alguma coisa.

— Gosto. Mas gostaria mais se fossem separados, eles brigam demais e enchem meus ouvidos. É por isso que estou me mudando.

— Vai morar sozinho?

— Sim. Acabei de fazer dezoito, posso fazer isso.

— Ele deve estar em algum lugar por aí. – Ouvimos a voz da diretora no corredor, pelo som dos saltos no chão a senhora Oliveira parecia procurar Alex impacientemente.

Nós levantamos e ouvimos atrás da porta até que as duas se afastassem. Alex guardou o cantil no bolso onde estava antes.

— Não diga que bebemos. – Pediu.

— Será nosso segredo. – Jurei. Ele mostrou um sorriso contido.

— Gostei de você. Talvez a gente se veja em uma próxima doação. – Alex piscou de novo e eu soube que não iria odiá-lo como pensei. Tinha gostado de seu jeito aparentemente despojado e sem amarras as regras.

Ele saiu, e o olhar que ele me lançou enquanto sumia pelo corredor me dizia que não seria a última vez que eu o veria.

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