
A Canção Silenciosa do Divórcio
Capítulo 2
1995, Algarve. A noite estava abafada, e o ar salgado do mar entrava pela janela aberta, mas não trazia alívio nenhum.
Jonathan Gordon olhou para a sua esposa, Vanessa Hayes, que já estava deitada na cama, de costas para ele. O seu corpo, uma silhueta elegante sob o lençol fino, parecia uma estátua distante.
Ele aproximou-se, a sua mão hesitou por um momento antes de tocar o ombro dela.
"Vanessa?"
Ela encolheu-se ligeiramente, sem se virar.
"Estou cansada, Jonathan. Tive um dia longo na galeria."
A voz dela era suave, educada, mas fria. Sempre fria. Era a mesma desculpa de sempre. Nos três anos de casamento, a intimidade entre eles tinha desaparecido, deixando um vazio que Jonathan já não conseguia ignorar.
"Estamos casados, Vanessa. É normal..."
"Por favor, não esta noite," ela interrompeu, o tom agora com uma ponta de irritação. "A minha cabeça está a doer."
Jonathan sentiu uma humilhação familiar a subir-lhe pela garganta. Ele mordeu o lábio, recuando. A sua dignidade era a única coisa que lhe restava nestes momentos.
Ele saiu do quarto em silêncio e foi para a varanda. A frustração transformou-se numa raiva fria. Isto não podia continuar. Ele tinha abandonado a sua vida, a sua família rica em Lisboa, o seu futuro como herdeiro da Construtora Gordon, tudo por ela, por este amor que agora parecia uma mentira.
Minutos depois, ouviu a porta da frente a fechar-se suavemente. Vanessa tinha saído. Era um ritual quase noturno, ela saía para "apanhar ar fresco". Mas desta vez, algo em Jonathan quebrou.
Ele desceu as escadas a correr, pegou nas chaves do carro e seguiu-a.
Ele manteve uma distância segura, observando o carro dela a percorrer as ruas tranquilas da cidade costeira. Vanessa conduzia com uma calma que o enojava.
Ela parou em frente a um pequeno estúdio de arte nos arredores da cidade. A luz da lua iluminava a sua figura enquanto ela saía do carro. Era tão bonita, tão elegante. Uma dor aguda atingiu Jonathan. Como podia alguém tão belo ser tão frio com ele?
Então, a porta do estúdio abriu-se. Um homem saiu. Hugo Contreras. O artista boêmio que Vanessa lhe tinha apresentado como o "viúvo de uma amiga falecida".
Jonathan observou, o coração a bater descontroladamente, enquanto Hugo envolvia Vanessa nos seus braços e a beijava com uma paixão que Jonathan nunca tinha conhecido. As mãos dela percorriam as costas dele, o corpo dela colado ao dele. Não havia frieza ali. Não havia dor de cabeça.
O choque inicial deu lugar a uma fúria gelada. Tudo fazia sentido agora. O distanciamento, as desculpas, a vida secreta.
Ele pegou no seu telemóvel, um dos primeiros modelos, grande e pesado, e ligou para a sua irmã em Lisboa.
"Catarina? Sou eu."
"Jonathan! Que surpresa. Está tudo bem?"
"Não," disse ele, a voz firme e desprovida de emoção. "O meu casamento acabou. Preciso que comeces a procurar. Alguém adequado. Quero casar e ter filhos. É só isso que importa agora."
Houve um silêncio chocado do outro lado da linha. "Jonathan, o que aconteceu?"
"Eu explico depois. Apenas faz o que te pedi."
Ele desligou antes que ela pudesse responder. A decisão estava tomada. Ele ia acabar com esta farsa.
No dia seguinte, Jonathan estava no seu modesto escritório de planeamento urbano quando a porta se abriu de repente. Era Vanessa. E ao lado dela, apoiando-se nela de forma dramática, estava Hugo, a gemer de dor.
"Jonathan, graças a Deus que estás aqui!" disse Vanessa, a voz cheia de uma urgência que ele agora sabia ser falsa. "O Hugo magoou as costas. Ele precisa de ajuda."
Jonathan olhou para eles, uma calma perigosa a instalar-se sobre ele. A ironia era esmagadora. Ele, o marido traído, era agora suposto ajudar o amante da sua esposa.
Vanessa e Hugo estavam próximos, a intimidade entre eles era palpável. A mão dela estava na cintura dele, o olhar dela cheio de uma preocupação que ela nunca lhe tinha mostrado. Hugo olhou para Jonathan, um brilho de triunfo nos seus olhos, rapidamente disfarçado por uma careta de dor.
"O que é que aconteceu?" perguntou Jonathan, a sua voz profissional e distante.
Vanessa começou a explicar, mas os seus olhos não encontravam os dele. "Ele estava a ajudar-me a mover uma escultura na galeria... escorregou. Acho que é grave."
"Uma escultura," repetiu Jonathan, lentamente. Ele sabia que era uma mentira. Ele tinha-os visto na noite anterior. Não havia esculturas, apenas beijos e abraços.
"Sim," disse Vanessa, parecendo aliviada por ele não estar a fazer mais perguntas. "Ele é... um grande amigo. O viúvo da minha amiga, lembras-te? Ele tem passado por muito."
Jonathan olhou para Hugo, o artista carismático com o seu ar de sofrimento estudado. Ele viu-o pelo que ele era: um manipulador. E a sua esposa, a mulher por quem ele tinha desistido de tudo, era sua cúmplice. Ou talvez, a sua primeira vítima.
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