
A Canção Silenciosa do Divórcio
Capítulo 3
"Precisamos de ir para o hospital," disse Vanessa, a sua voz urgente a quebrar o silêncio tenso no escritório. "Jonathan, por favor, ajuda-nos. Discutimos o... resto mais tarde."
Jonathan olhou para ela, depois para Hugo, que gemia pateticamente. Ele sentiu uma vontade avassaladora de rir. Discutir o resto? O "resto" era a sua vida inteira, desfeita pela traição dela.
No hospital, depois de um médico confirmar que a lesão de Hugo era apenas uma pequena entorse, exagerada para efeito dramático, Vanessa puxou Jonathan para um canto.
"Jonathan, eu preciso de te pedir uma coisa," começou ela, a voz baixa e conspiratória. "Precisamos de nos divorciar."
Jonathan olhou para ela, incrédulo.
"É um divórcio de fachada," apressou-se ela a explicar. "O Hugo... ele tem um filho. Da amiga dele que faleceu. A criança não está registada em nome dele e ele precisa de estar casado para conseguir a custódia. É só temporário. Assim que ele conseguir os papéis, nós... nós voltamos a ficar juntos."
Nesse momento, Hugo aproximou-se, mancando de forma teatral. Ele ajoelhou-se à frente de Jonathan, os olhos cheios de lágrimas de crocodilo.
"Por favor, Jonathan. É pelo meu filho. Ele é tudo o que me resta dela. Eu não te peço que me perdoes, apenas que tenhas piedade de uma criança inocente."
Vanessa colocou uma mão protetora no ombro de Hugo, olhando para Jonathan com um apelo desesperado.
"Ele não te pode dar filhos, Jonathan," disse ela, as palavras a saírem como um sussurro cruel. "Mas ele pode ajudar uma criança que já existe. Por favor, faz isto. Por mim."
A menção da sua "incapacidade" foi o golpe final. Era um assunto doloroso, algo que eles tinham discutido com médicos, algo que tinha pesado sobre o casamento deles. E agora, ela estava a usá-lo contra ele, para defender o seu amante.
Jonathan olhou para o rosto de Vanessa. Ele viu um pequeno tique nervoso no canto do seu olho, um tique que ela só tinha quando mentia descaradamente. Naquele instante, toda a esperança que ele ainda pudesse ter, por mais pequena que fosse, morreu. Ele percebeu que ela não estava apenas a ser manipulada; ela era uma participante ativa nesta farsa.
Um sorriso amargo e gelado formou-se nos lábios de Jonathan.
"Está bem."
Vanessa e Hugo olharam para ele, chocados com a sua aceitação rápida.
"Amanhã de manhã. No registo civil. Às nove," continuou Jonathan, a sua voz cortante como vidro. "Trata dos papéis. Eu estarei lá."
Ele virou-se para sair.
"Jonathan, espera!" Vanessa agarrou-lhe no braço, a sua expressão agora confusa, talvez até um pouco assustada. "Estás bem?"
Ele puxou o braço com força, libertando-se do toque dela. O cheiro do perfume dela, misturado com o cheiro do antisséptico do hospital, era nauseante.
"Não me toques," disse ele, a voz baixa e cheia de uma raiva que ele mal conseguia conter. "Nunca mais me toques."
Na manhã seguinte, o ar no registo civil era pesado e formal. Jonathan e Vanessa assinaram os papéis do divórcio em silêncio. As canetas arranhavam o papel, o único som na sala. Para ela, era uma formalidade temporária. Para ele, era o fim.
Quando saíram, a luz do sol pareceu-lhe demasiado brilhante, demasiado alegre. Ele sentiu uma dor oca no peito. Ele tinha perdido tudo.
"Vou fazer uma viagem," disse ele, sem olhar para ela. "Preciso de algum tempo."
Ele não esperou por uma resposta. Entrou no seu carro e afastou-se, deixando-a ali, de pé no passeio, a ver o seu passado a desaparecer pela estrada fora. Ele não ia fazer uma viagem. Ele ia para casa. Para Lisboa. Para longe dela. Para sempre.
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