
A Amante Secreta, A Desgraça Pública
Capítulo 3
Eva Matos POV:
João Carlos não voltou para casa naquela noite. Fiquei acordada em nossa cama fria e vazia, Léo aninhado ao meu lado, seu corpinho uma âncora quente na tempestade dos meus pensamentos. Finalmente adormeci em um sono agitado pouco antes do amanhecer, apenas para ser acordada pelo som da porta da frente se abrindo.
Eu não me mexi. Ouvi-o subir as escadas na ponta dos pés, o ranger das tábuas do assoalho do lado de fora do nosso quarto. Ele parou, depois se afastou em direção ao quarto de hóspedes.
Levantei-me e fui para a cozinha, meus movimentos robóticos. Fiz café. Servi cereal para o Léo. Eu era um fantasma em minha própria casa. Quando João Carlos finalmente apareceu na porta da cozinha, ele parecia exausto. Ele usava o mesmo terno de ontem, agora amassado e triste.
"Eva. Precisamos conversar."
Eu não me virei. Continuei mexendo o mingau de aveia do Léo. Foi então que notei, uma leve mancha rosa-avermelhada no colarinho de sua camisa branca. Batom.
Ele pigarreou, um som nervoso e culpado. Ele caminhou até a mesa e colocou um novo conjunto de documentos. Eram diferentes dos da noite anterior.
"Não vou mentir para você, Eva", ele começou, a voz tensa. "Existe outra pessoa."
Finalmente me virei para olhá-lo, meu rosto uma máscara em branco.
"O nome dela é Daiane Gouveia", disse ele, evitando meus olhos. "Estamos nos vendo há alguns meses. E... ela está grávida. Já está avançado demais para... bem, ela vai ter o bebê."
Daiane Gouveia. O nome me atingiu, conectando a peça final e horrível do quebra-cabeça. A jovem motorista grávida. Sua amante.
Ele a estava protegendo. Ele estava disposto a destruir a reputação do meu pai, a pisar no meu luto, tudo para proteger a mulher que havia matado seu próprio pai. O absurdo puro e monstruoso disso era tão profundo que uma risada histérica ameaçou borbulhar do meu peito. Eu a engoli, o gosto de bile queimando minha garganta.
Permaneci em silêncio, observando-o. Privado da reação dramática que provavelmente esperava, ele ficou sem graça. Sua compostura praticada e advocatícia começou a desmoronar.
"Olha, Eva, eu sei que isso é um choque", disse ele, seu tom mudando, tornando-se mais suave, mais suplicante. "Mas a Daiane... ela é só uma garota. Ela está apavorada. Ela cometeu um erro terrível. Por favor, não arruíne a vida dela. Era ela quem estava dirigindo o carro."
Ele estava me pedindo. Ele estava pedindo a mim, a nora do homem que ela matou, para mostrar misericórdia.
"Preparei um acordo de divórcio", disse ele, empurrando os papéis pela mesa. "É muito generoso. Você fica com a casa, a guarda total do Léo e uma pensão substancial. Tudo o que você poderia querer."
Ele estava tentando comprar meu silêncio. Ele estava tentando comprar a vida de seu pai.
"Tudo o que peço", ele continuou, sua voz baixando para um sussurro conspiratório, "é que você assine o acordo do acidente. Vamos apenas deixar tudo isso para trás."
Uma clareza fria e afiada se instalou sobre mim. Pensei no dia do nosso casamento, nas promessas que ele fez, na vida que pensei que estávamos construindo. Era tudo uma mentira. Uma fachada cuidadosamente construída para servir à sua ambição.
Lentamente, peguei os papéis do divórcio. Minhas mãos estavam firmes enquanto eu pegava a caneta que ele havia colocado ao lado deles. Virei para a última página e assinei meu nome, minha assinatura firme e clara.
Eva Matos. Em breve, apenas Eva Matos novamente.
Empurrei o documento assinado de volta para ele. Então olhei para os outros papéis, o acordo que marcaria meu pai como um fraudador e deixaria a assassina de seu pai sair impune com um tapinha no pulso.
"Não", eu disse.
Seu rosto se contorceu em descrença, depois em fúria. "Como assim, não? Estou te dando tudo!"
"Você está me dando coisas que já eram minhas, João Carlos. Esta casa foi comprada com o dinheiro dos meus pais. Léo é meu filho. E quanto ao acordo... não posso assinar." Encontrei seu olhar furioso, o meu calmo e inflexível. "Não sou a parente mais próxima da vítima. Você é."
A compreensão surgiu em seu rosto, seguida por uma fúria pura e animalesca. Ele achou que eu estava jogando. Ele achou que eu estava tentando extorqui-lo.
"Sua desgraçada", ele rosnou, sua máscara de civilidade finalmente se quebrando por completo. Ele pegou o pesado açucareiro de cerâmica da mesa e o atirou contra a parede, onde explodiu em cem pedaços. "Você acha que pode me chantagear?"
Ele se lançou sobre mim, suas mãos alcançando meu pescoço. Mas antes que pudesse me tocar, uma pequena voz cortou a tensão.
"Papai?"
Nós dois congelamos. Léo estava na porta, seu rostinho pálido, seus olhos arregalados de medo, agarrando seu ursinho de pelúcia.
As mãos de João Carlos caíram para os lados. Ele olhou para o filho, a respiração ofegante. A raiva em seus olhos foi substituída por outra coisa — um lampejo de vergonha, talvez, ou apenas irritação por ter sido interrompido.
Ele apontou um dedo trêmulo para mim. "Isso não acabou", ele sibilou. "Você vai se arrepender disso. Eu vou destruir você."
Então ele se virou e saiu de casa, batendo a porta com tanta força que toda a estrutura tremeu.
Corri para Léo, pegando-o nos braços. Ele enterrou o rosto no meu pescoço e começou a soluçar. Eu o segurei com força, sussurrando garantias que eu mesma não sentia.
Enquanto eu embalava meu filho chorando nas ruínas da minha cozinha, um fogo frio se acendeu em meu peito. Ele queria me destruir. Ele queria uma guerra.
Tudo bem. Ele estava prestes a ter uma.
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