Capa do romance Xeque ao Rei: O Regresso

Xeque ao Rei: O Regresso

9.0 / 10.0
Traída pelo marido e pela melhor amiga, Victoria perde o seu império de moda após ser alvo de uma conspiração. Dois anos depois, ela ressurge como Fénix, pronta para retomar o seu lugar. Aliada ao rival Gabriel, Victoria executa uma vingança sofisticada contra os traidores. Enquanto uma paixão inesperada surge entre os sócios, ela descobre que a verdadeira vitória não reside na destruição dos rivais, mas na sua própria reconstrução e na superação do passado.

Xeque ao Rei: O Regresso Capítulo 1

A vida, vista do quadragésimo segundo andar da Torre Cruz, brilhava com a intensidade de um diamante recém-polido.

Damián Cruz ajustou o nó da sua gravata de seda em frente ao espelho do elevador privado. A superfície dourada devolveu-lhe a imagem do sucesso: trinta e dois anos, fundador da Vanguard Tech, capa da revista Forbes pelo segundo ano consecutivo e, o mais importante, um homem perdidamente apaixonado. No seu bolso direito, uma caixa de veludo azul-marinho pesava mais do que qualquer contrato milionário que tivesse assinado naquela semana em Tóquio.

- Cinco quilates - murmurou para si mesmo, com um sorriso estúpido que não conseguia apagar. - Sofía vai desmaiar.

O elevador emitiu um toque suave e as portas abriram-se diretamente para a cobertura. Ele deveria ainda estar num voo sobre o Pacífico, aterrando amanhã de manhã. Mas Damián tinha movido mundos e fundos e dois jatos privados para chegar doze horas mais cedo. Era o seu terceiro aniversário de casamento. Ele queria ver a cara de Sofía quando entrasse pela porta, queria acordar ao lado dela, queria provar-lhe que, apesar das reuniões e das viagens, ela continuava a ser o centro do seu universo.

O apartamento estava mergulhado numa penumbra elegante, iluminado apenas pelas luzes da cidade que se filtravam através dos janelões do chão ao teto. Havia um silêncio denso, perfumado com o aroma a nardos frescos que Sofía tanto amava.

Damián deixou a sua pasta na entrada com cuidado, evitando fazer barulho. Caminhou sobre o tapete persa, a afrouxar a gravata, sentindo a adrenalina da surpresa.

- Sofía? - sussurrou, mas ninguém respondeu.

Avançou em direção à sala principal. Foi então que viu o primeiro sinal. Uma taça de vinho tinto, a meio, repousava sobre a mesa de centro de cristal. Ao lado, outra taça. Vazia. E uma garrafa de Château Margaux de 95, uma colheita que Damián guardava para uma ocasião especial.

Ele franziu a testa. Talvez Claudio tivesse passado para deixar alguns papéis. Claudio Vega não era apenas o seu Diretor Financeiro e braço direito, era seu irmão em tudo, exceto em sangue. Conheciam-se desde que partilhavam noodles instantâneos no dormitório da universidade. Se alguém tinha permissão para beber o seu vinho de três mil dólares, era Claudio.

Mas havia algo mais.

Um casaco de fato estava displicentemente atirado sobre as costas do sofá de couro branco. Damián parou. Conhecia aquele casaco. Ele próprio o tinha oferecido a Claudio quando fecharam o acordo com os investidores alemães no mês passado.

Uma estranha sensação de frio percorreu a sua nuca, um instinto primitivo que o seu cérebro racional tentou silenciar de imediato. "Estão a celebrar o fecho do trimestre", pensou. "De certeza que estão a preparar uma surpresa para o meu regresso."

Mas o silêncio da casa não parecia festivo. Parecia cúmplice.

Caminhou em direção ao corredor que levava ao quarto principal. À medida que se aproximava, ouviu um som. Não eram vozes a discutir estratégias de negócio. Era uma risada. A risada de Sofía. Uma risada suave, gutural, íntima. Aquela risada que ele pensava que só lhe pertencia na escuridão da madrugada. E depois, a voz de um homem. Grave, segura, dona da situação.

O coração de Damián parou de bater por um segundo. A caixa de veludo no seu bolso de repente parecia uma pedra a arder.

Empurrou a porta de carvalho entreaberta.

A cena gravou-se na sua retina com a violência de um flash fotográfico. Os lençóis de seda egípcia, os que tinham comprado juntos na lua de mel, estavam enrolados no chão. E na cama, iluminados pela luz âmbar dos candeeiros de cabeceira, estavam eles.

Sofía, com as costas arqueadas, o cabelo loiro caindo em cascata sobre os ombros nus. E Claudio. O seu melhor amigo. O seu sócio. O padrinho do seu casamento. Claudio estava sobre ela, beijando o seu pescoço com uma familiaridade que revolveu o estômago de Damián.

O mundo inclinou-se sobre o seu eixo. O ruído nos ouvidos de Damián era ensurdecedor, como se o cristal da torre se tivesse partido em mil pedaços.

- Que merda...? - A voz saiu-lhe quebrada, irreconhecível.

O movimento na cama parou abruptamente. Sofía soltou um grito abafado e cobriu o peito com o lençol, os seus olhos azuis muito abertos, não com arrependimento, mas com o terror de ter sido descoberta antes do tempo. Claudio, no entanto, não se apressou. Virou-se lentamente, com uma calma que gelou o sangue de Damián.

- Damián - disse Claudio, com a respiração ainda ofegante. - Chegaste cedo. Isso não estava no itinerário.

Damián deu um passo atrás, sentindo que lhe faltava o ar. Olhou para a esposa, procurando uma explicação, uma negação, algo.

- Sofía? - suplicou.

Ela desviou o olhar. Aquele gesto foi mais doloroso do que se lhe tivessem cravado uma faca no peito.

- Damián, por favor, não faças uma cena - disse ela, com a voz trémula, mas fria. - Sabias que isto não estava a funcionar. Estás sempre a viajar. É sempre a empresa. Claudio... Claudio sempre esteve aqui.

- Que não estava a funcionar? - Damián sentiu a raiva começar a ferver sob o shock. - Acabei de te comprar um diamante do caralho em Tóquio! Eu construí tudo isto para nós!

- Construíste para o teu ego, Damián - interrompeu Claudio, levantando-se da cama e vestindo as calças com uma indiferença insultuosa. - Sempre foste o génio, o visionário, o grande Damián Cruz. E nós... apenas os acessórios. A esposa troféu e o contabilista glorificado.

- Tu és meu irmão - cuspiu Damián, cerrando os punhos até que os nós dos dedos ficassem brancos. - Dei-te metade de tudo.

- Deste-me as migalhas - replicou Claudio, caminhando na sua direção. Parou a poucos metros, com um sorriso distorcido. - Mas não te preocupes. Isso acabou. Sofía e eu fizemos alguns... ajustes.

Nesse momento, o som de sirenes quebrou a atmosfera tensa do apartamento. Não pareciam distantes, na rua. Pareciam lá em baixo, na entrada do edifício. E estavam a aproximar-se.

Damián olhou para a porta, confuso.

- Chamaste a polícia? - perguntou, incrédulo.

- Há dez minutos, quando o porteiro me avisou que tinhas entrado no edifício - disse Claudio, verificando a hora no seu relógio de ouro. - Têm um mandado de prisão, Damián. Fraude maciça. Desvio de fundos. Lavagem de dinheiro. Parece que andaste a roubar a tua própria empresa durante anos.

Damián pestanejou, incapaz de processar as palavras.

- De que estás a falar? Eu nunca...

- As contas nas Ilhas Caimão dizem o contrário - disse Sofía suavemente. Já tinha vestido um roupão de seda e agora estava ao lado de Claudio. A mão dela procurou a dele, entrelaçando os dedos. Essa imagem acabou de quebrar Damián. - Estão em teu nome, querido. As tuas assinaturas digitais estão em todas as transferências. Claudio descobriu as irregularidades ontem. Como bom Diretor Financeiro, teve de reportar ao Conselho e às autoridades. É... de partir o coração.

Damián sentiu o chão a desaparecer. Tudo se encaixava. As reuniões à porta fechada que Claudio tinha tido ultimamente. Os documentos que o tinha feito assinar apressadamente entre voos. A insistência de Sofía em que pusesse certos ativos em seu nome por "segurança".

Não tinha sido uma aventura de uma noite. Tinha sido uma execução meticulosamente planeada.

- Vocês incriminaram-me - sussurrou Damián, a compreensão caindo sobre ele como uma laje de cimento. - Vocês... planearam tudo.

- Não é pessoal, Damián. São negócios - disse Claudio, encolhendo os ombros. - E um pouco de prazer, claro.

A porta do apartamento abriu-se de repente. Quatro agentes da polícia entraram com as armas em punho, seguidos por dois detetives de crimes financeiros que Damián tinha visto nas notícias.

- Damián Cruz! - gritou um deles. - Mãos onde eu possa vê-las!

Damián olhou para os polícias, depois para o casal que estava em frente ao janelão panorâmico. Sofía encostou a cabeça no ombro de Claudio, interpretando o papel da esposa devastada pelos crimes do marido. Claudio olhou para ele com uma suficiência que prometia que isto era apenas o começo do inferno.

- Para o chão! - ordenou o oficial, empurrando Damián.

A sua cara embateu contra o tapete persa. Sentiu o frio do metal a apertar-se à volta dos seus pulsos. A dor física foi aguda, mas não se comparava com a agonia que lhe queimava o peito.

Enquanto o levantavam bruscamente para o tirar da sua própria casa, Damián conseguiu virar a cabeça uma última vez.

Claudio levantou a taça de Château Margaux que tinha ficado a meio. Ergueu-a num brinde silencioso a Damián, uma despedida trocista ao homem que tinha sido. Sofía nem sequer olhou para ele; já estava a verificar o telemóvel, provavelmente a preparar o comunicado de imprensa onde se declararia vítima das mentiras do marido.

Os flashes das câmaras explodiram no seu rosto assim que cruzou a porta do edifício, cegando-o. Claudio também tinha chamado a imprensa. Queriam o espetáculo completo. Queriam vê-lo destruído, humilhado, acabado.

Damián baixou a cabeça enquanto o empurravam para a patrulha, sentindo as lágrimas de raiva e impotência a misturarem-se com a chuva que tinha começado a cair.

Nesse momento, no banco de trás de uma patrulha policial, com a sua vida feita em pedaços e o seu coração arrancado, Damián Cruz morreu.

Fechou os olhos e, na escuridão da sua mente, uma única promessa começou a tomar forma, fria e dura como o aço. Não voltaria a ser o rei cego. Se sobrevivesse a isto, regressaria como o carrasco.

E então, Claudio e Sofía desejariam tê-lo matado naquela noite.

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