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Capa do romance Vulgar

Vulgar

Mina é bem-sucedida, mas sua virgindade persiste como um desafio pessoal. Para resolver isso, ela contrata Ryker, um acompanhante. Contudo, após o encontro, a dupla presencia um crime da máfia russa em Paris, tornando-se alvos imediatos. Em uma fuga desesperada para a Holanda, eles lutam pela sobrevivência enquanto uma química intensa surge. Entre o perigo e a adrenalina em Amsterdã, Mina vê uma nova chance de finalmente se entregar a Ryker.
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Capítulo 2

Eu não conseguia parar de pensar em Pierre Arnois.

Quando seus restos foram encontrados depois de o serviço de proteção à

testemunha ter falhado em protegê-lo, tiveram que confirmar sua identidade

realizando um teste de DNA. Ele não tinha mais arcada dentária… A perícia

concluiu que seus dentes haviam sido arrancados um por um com alicate.

Também não tinha impressões digitais, assim como várias partes de seu corpo,

suas mãos tinham sofrido choques tão intensos e prolongados que sua pele ficou

coberta de queimaduras. E seu rosto… pelo que me atrevi a ler nos jornais, sua

cabeça tinha se transformado em um purê de sangue, miolos esmagados e

pedacinhos de ossos triturados.

Yuri Kulik… Era isso que ele fazia com quem se atrevia a ficar em seu

caminho.

E Arnois era só um contador. Apenas um cara que viu alguns números e fez

uns cálculos que ninguém fez.

Os livros e registros tinham sumido. A memória de Arnois era tudo o que

tinha restado, até ela ser transformada no purê de sangue, miolos e pedacinhos

de ossos.

Quanto a mim, eu não tinha visto só alguns números. Tinha-o visto matar uma

pessoa.

Não era ele, Mina. Não podia ser ele.

O homem tinha se transformado no inimigo público número 1. Até o caso de

Arnois, a investigação ocorrera de forma secreta, e apesar de a polícia ter certeza

de que Kulik era culpado de todos os crimes investigados, nunca havia uma

prova definitiva contra ele. Foi apenas quando o purê de Arnois foi descoberto,

há duas semanas, que o rosto de Kulik começou a aparecer na TV e não parou

mais.

Era ele. Eu não podia me enganar. Era ele, sim. Ele matou uma pessoa na

minha frente, sim.

Dei uns tapas de leve na minha testa e desejei voltar no tempo. Voltar para

quando meu maior problema era perder a virgindade. Olhei para o relógio e

percebi duas coisas: Elise ia demorar uma eternidade para voltar e eu não ia

conseguir dormir.

Tentei comer alguma coisa, mas não deu certo. Lavei o rosto e me servi uma

taça um vinho branco que Elise tinha na geladeira, tentando trazer minha

respiração de volta sob meu controle. Sentei no sofá e encarei o nada por longos

minutos antes de finalmente decidir me distrair com alguma coisa. Procurei o

controle da televisão e me preparei para as longas horas que seguiriam,

compulsivamente mudando de canal. A TV fez um som ao ligar, e percebi que

minha compulsão teria que esperar: a jornalista tinha um tom grave e estimava a

quantidade de feridos na explosão. O canal indicava que eram imagens ao vivo,

e a jornalista explicava que havia sido um vazamento de gás; polícia e

bombeiros já estavam no local, mas ainda não tinham um número certo de

mortos ou feridos.

Eu, no entanto, não estava prestando atenção em nada daquilo. Não me

importava o que ela dizia, mas onde ela dizia.

Eu conhecia aquele prédio. Aquela esquina. Aquele pequeno jardim. Tinha

estado lá há poucas horas.

Era a minha casa.

Alguém tinha explodido a minha casa.

Andei até o móvel onde estava a televisão e me ajoelhei no chão quase

enfiando o nariz na tela. Tive vontade de rir de desespero. Não é possível. Minha

vida é normal. Não é um filme e, se fosse, seria uma daquelas comédias trágicas

que você nunca decide se ri ou chora pela mocinha. Definitivamente, não seria

um thriller.

Mas lá estavam os restos da minha casa. Espalhados pelo canal 8.

Eu já tinha ouvido falar sobre como algumas pessoas reagem em um momento

de sofrimento ou tristeza. Não choram ou não sentem. Seguem como se nada

tivesse acontecido, atendo-se aos mais irrelevantes detalhes, até finalmente

perceberem o que realmente aconteceu. E então elas sofrem tudo que não

sofreram antes.

Era mais ou menos assim que eu me sentia. Não pensei nas pessoas que

poderiam ter se machucado. Não pensei nas minhas coisas. Itens pessoais de

valor real ou afetivo. Meu computador com todo o meu trabalho. Fotos da

família, amigos… meu peixe, minhas roupas ou o colar de aniversário, o último

presente que meus pais me deram antes de morrer. Não pensei em nada daquilo.

A única coisa que passou por minha cabeça foi que o número da seguradora

estava anotado na mesa de cabeceira, no bloco de anotações ao lado do telefone.

Eu havia feito aquele seguro há tanto tempo que mal conseguia lembrar o nome

do lugar, quem dirá o código do meu contrato. Ia dar um trabalho horrível.

Foi a única coisa em que pensei.

Bem… Isso e Ryker.

Se ele tivesse me deixado em casa, eu estaria morta.

A ideia de estar pensando no risco da minha morte sem entrar em desespero

me assustou. Eu devia estar na primeira fase; ainda não tinha aceitado tudo

aquilo como real. O problema era que a realidade me atingiria em algum

momento, certamente. E onde eu ia querer estar quando isso acontecesse?

Ryker quis fugir. Mas fugir para onde? E por quanto tempo?

Eu não ia abandonar minha vida. Isso parecia absurdo. Coisas como essa

aconteciam em suspenses policiais, não na minha vida pacata. Era inaceitável.

Ficar na casa de Elise não iria ajudar. Não havia nada que ela pudesse fazer, e

eu podia acabar por prejudicá-la.

A polícia.

Eu precisava ir até a polícia.

– Putain! Mas que merda foi aquela?

– O senhor disse para descobrir o cara e se livrar dele.

– Disse! Mas não era para explodir um quarteirão inteiro, imbecil!

– A polícia vai achar que foi só um vazamento de gás.

– E matou ele?

– Ainda não tenho certeza.

– Imbecil! Não acredito que possa ser tão incompetente!

– O taxista que o levou me disse que o tinha deixado naquele endereço. Ele

tem que ter ficado lá.

– Claro que não… Pode só ter pegado um punhado de coisas e corrido para a

polícia! Ou pior… Saído da cidade!

– Se foi para a polícia, algum dos nossos amigos por lá pode…

– É, mas e se tiver saído da cidade? A gente tem que ficar de olho em

aeroportos, estações de trem… Até na merda do bateaux-mouches. Qualquer

coisa que sirva de transporte.

– Vou falar com o pessoal. Deixar todo mundo avisado.

– Não. Eu vou cuidar disso. Quero resolver isso tudo antes do meio-dia. Vá.

Pegue meu telefone, traga ele até aqui. Preciso fazer umas ligações.

O moleque parecia estar no seu primeiro dia na delegacia. Seu nome era

Richont. Ele tentou me guiar até o lugar certo, mas se perdeu duas vezes no

caminho.

– Espere aqui. Vou chamar o inspetor.

– Você não tem que pegar minha declaração primeiro?

– A senhorita disse que testemunhou um crime, não foi? É melhor falar direto

com o inspetor.

Ele engoliu em seco, hesitando a cada palavra, e eu soube que ele não tinha a

menor noção do que estava fazendo.

Ok, Richont… Somos dois.

Eu ainda estava batendo os nós dos dedos na mesa quando ele entrou. Era alto

e ruivo, com um rosto muito branco, cheio de sardas.

– Boa noite, senhorita…

– Bault. Mina Bault.

– Senhorita Bault. – Ele olhou para o relógio. – Na verdade, acho que é quase

bom dia. Então… – Sentou-se descontraído. – A senhorita não parece estar

machucada… Mas, precisa de um médico ou quer ligar para alguém?

– Ahn? Não…

– Geralmente, quando uma garota aparece aqui a essa hora da noite, ela vem

relatar um tipo muito específico de crime. Não parece ser seu caso.

– Não… Eu… Eu acho que vi uma pessoa matando outra.

Na minha cabeça, eu queria organizar meus pensamentos. O problema era que

toda nova frase que eu formulava soava mais ridícula e surreal do que a anterior.

– Veio denunciar um assassinato, então? – Seus olhos clínicos deram-me a

impressão de que ele não acreditava no que eu estava falando.

– Eu estava em um hotel. O Grand Classique.

– Grand Classique? – Algo seco em sua voz me incomodou mais do que eu

poderia descrever. Ele se moveu na cadeira e inclinou o corpo sobre a mesa.

– É. Eu estava com um… amigo. Nós ouvimos um barulho e… O Grand

Classique, o senhor sabe onde fica? – Ele fez um gesto afirmativo – Tem todo

aquele parque ao redor; nós ouvimos um barulho no estacionamento.

– E quem era? A senhorita viu?

Eu tive que piscar os olhos algumas vezes.

Quem era?

Tinha algo errado. O arrepio tomou conta do meu corpo inteiro e minha

espinha gelou.

Tinha algo muito errado.

Ele não ia me deixar terminar de falar? Há dois segundos ele sequer parecia

acreditar no que eu dizia e agora seus olhos frios estavam firmes de um jeito que

me constrangia. Havia algo em sua pergunta… Ele não queria saber o resto da

história. Só queria saber quem eu vi.

Meu instinto estava gritando em meus ouvidos que eu deveria mentir.

– Eu… Eu acho que… – ofeguei, exagerada.

– Preciso que me conte a verdade com todos os detalhes, senhorita.

Mordi o lábio.

Mentir.

– Inspetor… A verdade é que eu não vi nada. Um amigo… Ele está muito

nervoso. Acabou de acontecer com ele, mas não quer vir à delegacia. Está com

medo. Ele não sabe o que viu ou quem viu. Só se assustou e correu.

– Entendo. No estacionamento do Grand Classique, você disse?

– Isso.

– E seu amigo? Onde está?

Isso não estava certo.

– Ele não confia muito na polícia – menti. – Aí eu vim na frente.

– Vou precisar falar com ele. Para pegar o depoimento.

– Não pode fazer algo só com o meu? Chamar outros investigadores ou… Eu

preciso escrever alguma coisa? Assinar em algum lugar? – Qualquer coisa que

levasse alguém mais a saber o que aconteceu comigo.

– Não, não será necessário. Mandarei alguém até o Grand Classique, e vamos

ver o que aconteceu. Pode esperar um minuto? Preciso só ver uns detalhes antes

de liberá-la.

– Não me disse seu nome, inspetor…

Ele apenas sorriu.

– Só vai levar um minuto.

Por que ele não queria me dar seu nome?

Fechou a porta atrás de si e eu vi pela pequena janela quando ele tirou o

celular do bolso e olhou ao redor antes de discar um número. O que seriam esses

“detalhes” que ele precisava verificar, e por que não usar o telefone da

delegacia?

Pelo movimento de seus lábios pude ver que estava falando com alguém.

Em filmes e livros, aquela era a hora em que tudo começava a dar errado. A

polícia nunca ajudava completamente e os mocinhos sempre davam um jeito de

encontrar o único policial corrupto em léguas. Mas na vida real era um pouco

mais complicado. E se Yuri Kulik fosse realmente o criminoso que os jornais

estavam sugerindo, ele deveria ter mais de um amigo na polícia.

O inspetor se virou de costas e eu aproveitei a distância de seu olhar para

decidir que estava na hora de ir embora. Olhei ao redor e… Minha bolsa. Ele

levou minha bolsa? Pegou ela da cadeira quando saiu da sala? Olhei pela janela e

lá estava ela. Em cima da mesa dele.

Empurrei a maçaneta com força apenas para sentir a resistência inabalável da

porta.

Ele me trancou aqui?

Eu não conhecia o protocolo policial para tomada de depoimentos, mas

certamente não poderia ser esse. Ele desligou o telefone e estava voltando.

Afastei-me da porta e mordi meu polegar.

Abstraia, Mina. Abstraia tudo, assim como fez quando viu a sua casa

destruída na televisão. O que você sabe?

Sei que vi um criminoso de alto nível matar outro cara. Sei que isso não é

bom. Sei que minha casa explodiu no vazamento de gás mais oportuno da

história da minha vida.

Não podia ser coincidência.

Ryker era um desconhecido, mas ele estava no mesmo buraco que eu e, ao

contrário da inexperiente Mina, ele parecia ter um mapa e uma lanterna. Não era

muito, mas estava melhor do que eu.

Você tem que sair daqui.

– Vamos? – Ele abriu a porta.

Deixei o silêncio perguntar por mim.

– Temos que ir até outro inspetor. De outro departamento. Essa informação

que você deu é importante.

– Ele não vem até aqui?

– Não. Está em outro prédio. Chegamos lá em quinze minutos. – Sorriu.

– Inspetor, eu… Eu prefiro só ir para casa. Olha, talvez eu tenha me enganado.

Talvez meu amigo tenha…

– Vai ser muito rápido, senhorita. E não posso deixá-la ir depois de uma

denúncia séria como essa. Não sem colher todo seu depoimento primeiro.

– Posso fazer uma ligação antes?

– Não acho que deva. Pode ser perigoso. Por causa do que você viu.

Pense rápido.

– É o meu amigo… Eu… – menti. – Ele estava muito nervoso. Quero pelo

menos avisar onde estou e o que está acontecendo.

– Ah, quer ligar para ele?

– Quero. Posso? – Engoli em seco, disfarçando o tremor da minha voz.

– Claro.

Ele sorriu e me guiou até a mesa mais afastada, ofereceu-me uma cadeira para

sentar e discou o zero no telefone antes de passá-lo para mim. Apoiou o punho

contra o tampo da mesa, e percebi que ele não me daria privacidade.

Diga para alguém onde você está.

Dê um jeito de fugir dele.

Disquei o número de Elise e a secretária eletrônica apitou.

– Oi. Sou eu. Estou aqui na delegacia, já falei para o inspetor sobre o que você

viu no estacionamento do hotel hoje. Ele disse que seu depoimento é importante.

Estamos indo falar com um inspetor de outro departamento agora.

Levantei os olhos. Ao nosso redor, a delegacia inteira funcionava. Pessoas

escrevendo, ao telefone, conversando, tomando café. Nem todos eles poderiam

ser corruptos, não é? Se meu inspetor sem nome estivesse tentando me tirar dali

escondida, eu não poderia colaborar. Tinha que fazer aquela gente me notar.

– Mas sei que você viu alguma coisa. – Isso. Fiz um silêncio breve e vi o

inspetor olhar brevemente para trás de si. – Droga, cara! – Elevei a voz. – Eu sei

que você viu alguma coisa! – Comecei a falar mais alto, e o inspetor colocou o

indicador sobre os lábios, pedindo que eu fizesse silêncio. – Eu sei que você viu

no parque do Grand Classique mais do que me disse! Que droga! – Agora eu

estava gritando. Boa parte da delegacia me observava de um jeito indiferente, de

quem está acostumado a escândalos. Mas os olhos do novato Richont estavam

em mim e resolvi continuar. – Alguém morreu, cara! Alguém morreu e você viu!

Você sabe disso! Não diga que não vai ajudar.

O inspetor colocou a mão sobre o gancho do telefone e ordenou que eu falasse

mais baixo, em um tom rude e urgente. Despedi-me do meu interlocutor

fantasma e desliguei o telefone.

– E então?

Ganhe tempo.

– Vamos esperar alguns minutos e ligar de novo. Sei como ele é. A

consciência dele demora a funcionar.

– Não. Não podemos esperar. – Ele se levantou.

– Eu ligo agora, então. Dessa vez convenço-o a vir. Em quinze ou vinte

minutos ele chega aqui.

– Não. Nós falamos com ele depois. Só seu depoimento vai ser suficiente por

enquanto.

Minha garganta estava seca de um jeito que fazia o ar passar ardendo.

Aquilo estava mesmo acontecendo, não era? O inspetor estava mentindo para

mim e ele ia me levar para Kulik. Eu sabia que ia. Não entendia como eu podia

ter tanta certeza, mas eu tinha. Estava fodida, e não do jeito que eu tinha

planejado no começo da noite.

– Posso ir ao banheiro?

– Vamos chegar lá em quinze minutos. Vai ao banheiro lá.

Ele me pegou pelo braço com força como se eu fosse uma criminosa, e o

pânico começou a nublar meu raciocínio.

– Vou fazer xixi no seu carro. Não consigo mais segurar.

Ele me encarou por uma fração de segundo e me guiou pelo corredor até o

banheiro. Apontou sem cerimônia e ficou na porta me esperando.

Minha bolsa ainda estava com ele.

Eu podia gritar, não podia? Podia gritar pela delegacia que ele estava me

levando para algum lugar contra minha vontade. Podia gritar o que eu tinha

visto.

Eu conseguia me lembrar dos olhares quando gritei ao telefone. Aquelas

pessoas ali deveriam estar acostumadas a todo tipo de grito, eu não iria chamar a

atenção. E, se chamasse, o inspetor me algemaria e inventaria alguma história.

Em quem eles acreditariam? Em mim ou nele?

Não… Eu ia ter que fugir e ia ter que fazer isso sozinha. Infelizmente, não ia

ser agora. O banheiro ficava enfiado no meio do prédio e não havia qualquer

janela ou passagem que eu pudesse utilizar. Apenas um exaustor barulhento.

Droga… E agora?

Ryker. Eu precisava encontrar Ryker. Mas não podia dizer para o inspetor onde

ele estava, não é?

Não, não podia.

Mas…

Eu podia fazê-lo me levar a outro lugar antes do nosso destino final.

Saí do banheiro e forcei um sorriso.

– Inspetor… – Fingi uma expressão resignada. – Eu sei onde ele está. O meu

amigo… Acho que se nós formos até lá eu o convenço.

Ele expirou cansado, mas inquestionavelmente fisgado.

– Muito bem. E onde ele está?

– No Jules Verne.

– O restaurante?

– O restaurante.

– Na Torre Eiffel?

– Na Torre Eiffel.

O inspetor me puxava pelo braço, mantendo-me presa a ele. Eu precisava

chegar ao metrô. Era só isso que eu precisava. Quilômetros de tubos

subterrâneos e dezenas de milhares de pessoas. Mas não podia dizer ao inspetor

que meu amigo estava em um metrô.

Um lugar tão amplo e com tanta gente… Ele nunca tiraria os olhos de mim.

Chegávamos às primeiras horas da manhã e os primeiros grupos de turistas já

se reuniam nas filas dos ingressos para o elevador. Eu sabia para onde ia correr.

Olhei para a direita medindo o caminho. Um ônibus de turistas estava parando

para deixá-los descer, e pensei que o amontoado de pessoas seria a melhor

camuflagem que eu poderia conseguir.

Só alguns metros, Mina. Só alguns metros.

– Posso ler sua mão?

Tem duas coisas que você pode contar em Paris: sempre haverá um croissant

fresco na Brioche Dorée e ciganos em pontos turísticos.

– Sim, ele quer, por favor. – Puxei meu braço da mão do inspetor e a cigana se

apoderou dele com fúria.

– Ei!

Eu o ouvi gritar, mas já estava correndo na direção do ônibus e tive certeza de

que a força descomunal da cigana agarrando a sua presa me daria alguns

segundos de vantagem. Além dos turistas, além do ônibus… Uma escada descia

para o subsolo e me joguei por ela.

Não era o metrô. Apenas o resquício de uma estação que não existia mais.

Agora era só uma escada minúscula que descia para um pequeno corredor

estreito e terminava em outra escada minúscula que voltava à superfície. Poucos

metros que levavam do nada a lugar nenhum. Turistas desavisados ainda

desciam aquelas escadas achando que tinham chegado à estação Champ de Mars

– Tour Eiffel, apenas para subir de novo à superfície, risonhos e confusos. Já os

parisienses tinham aprendido a ignorar aquela passagem. E eu estava contando

que o inspetor faria isso. Estava contando com todas as minhas forças.

Olhei para o relógio. Trinta segundos. Eu não podia esperar demais ou correria

o risco de ele dar a volta. Subi pelas mesmas escadas, voltando à Torre e olhando

ao redor com cuidado. Ele deve ter passado por ali correndo… Imaginou que eu

ia para o metrô. Seria o que qualquer pessoa inteligente faria, não é? Voltei a

andar para a Torre e virei pelo avesso meu casaco jeans tingido. O pano claro do

outro lado iria me ajudar a confundir o inspetor, caso ele voltasse procurando

uma garota em um casaco escuro no meio da multidão. Atravessei todo o parque

desviando dos pequenos grupos de escoteiros; um longo caminho até a estação

da École Militaire.

Envolta pela multidão da Gare du Nord, a sensação de pânico e perseguição se

intensificou, e tive a certeza de estar sendo observada. A pressão que senti no

meu braço fez com que eu já me virasse com o punho fechado.

– Ai! – Ryker envolveu com as mãos o nariz atingido. – Minha nossa, como

você é violenta!

– Ryker! – Nunca imaginei que pudesse me sentir tão aliviada ao ver um

garoto de programa desconhecido que eu quase tinha castrado.

– Esmagou meus testículos, tentou me dar um choque anafilático e me deu um

murro. Em menos de doze horas – constatou, rindo discreto. – Você precisa

muito de uma boa transa, menina. Para ver se você relaxa.

Eu não estava com paciência para aquilo.

– Quer levar outro murro?

– Não, obrigado – riu. – Mudou de ideia? O que você tem? – Acho que entre

meu tom de pânico e minha cara pálida ele deve ter notado que eu não estava

nem um pouco bem.

– Fui até a polícia.

– Ai, merda, menina! Se metade do que eles dizem no jornal sobre o Kulik for

verdade…

– É, é! Eu sei. Descobri isso do jeito difícil.

– O que aconteceu? Vem até aqui… – Ele me sentou em um banco e comprou

uma água e um chocolate em uma máquina. – Toma. Vai se sentir melhor.

– Percebi que tinha algo errado e fugi. Ele disse que queria me levar até outro

departamento.

– Isso é estranho…

– Foi aí que eu tive certeza de que tinha algo errado.

– O que você disse para ele?

– Disse que um amigo viu um assassinato no estacionamento do Grand

Classique. Mas disse que ele não sabia quem era. E não falei nada específico

sobre você.

– Bem… Obrigado. Você fez bem em não dar detalhes.

– Ryker… Tenho que trabalhar amanhã.

Ele escondeu o rosto nas mãos e começou a rir.

– Você não tem o hábito de se meter em situações complicadas, não é?

– Não, não posso dizer que tenho. – Bebi uns oito goles de água seguidos.

– Esqueça seu emprego, menina. Até essa coisa se resolver, você precisa se

preocupar apenas com sua vida.

Aquela frase era tão insana que eu quis rir. E teria rido, se não estivesse tão

exausta.

– Qual é o seu plano, então?

– Tenho um amigo em Amsterdã. Tem um lugar que a gente pode ficar, ele

consegue um trabalho para gente…

– E aí? A gente passa o resto da vida morando com o seu amigo e trabalhando

para ele? Porque acho que eu prefiro me arriscar em outra delegacia.

– Conheço uma pessoa que pode ajudar. Pode nos conseguir policiais honestos

ou nos tirar do continente.

– Tirar do continente?

– Menina, sei que você não viu as coisas ficarem ruins, mas…

– Não vi? Explodiram minha casa, Ryker – sussurrei.

– O quê?

– Explodiram.

Chegava a hora.

Chegou a hora que eu começava a compreender o que estava acontecendo.

Meu corpo inteiro tremia, o mundo ao meu redor saiu de foco e achei que fosse

desmaiar.

– Minha casa… Minha vida toda. Eles destruíram. Sem contar na quantidade

de pessoas que eles devem ter… Oh, por Deus! Será que eles mataram alguém?

E por minha causa! Eu nunca poderia me perdoar e…

– Eu sei. – Ele me abraçou de um jeito desajeitado. – E eles continuarão atrás

da gente, por isso precisamos ir.

– Mataram Arthur! – Levei a mão à boca.

– Oh, eu sinto muito. – Ele estreitou os olhos. – Ele tentou te ajudar?

– O meu peixe. Arthur era o meu peixe. Eles explodiram o Arthur.

Ryker estava rindo.

– Sabe? Você lida com desastres surpreendentemente bem.

Ele ainda estava me abraçando e deixei que continuasse. Minhas forças

estavam aos poucos me abandonando, mas pude sentir que elas nãos iriam

embora completamente.

Se era em momentos de prova que a gente descobria de que é feito nosso

cerne, acho que eu estava me descobrindo uma pessoa bem forte.

Ryker olhou para cima, para as telas com horários e numerações.

– Nosso trem chegou.

– Você comprou mesmo uma passagem para mim?

– Eu disse que ia comprar, não disse?

Engoli em seco.

Quais eram minhas opções?

Nem que fosse só por um ou dois dias. Esperar a poeira baixar… Esperar

inspetores e criminosos esquecerem que eu existo.

Podia dar certo.

– Pronta?

Ele se levantou e me ofereceu a mão.

– Mina. – Eu disse.

– Ahn?

– É meu nome.

– Eu sei. – Riu.

– E por que fica me chamando de menina?

– Ajuda no efeito psicológico.

– Me diminuir?

– É… – confessou coçando a cabeça. – Você me deixou duro naquele quarto e

fugiu. Sendo pago para transar ou não, isso é o tipo de coisa que mexe com um

homem. – Ele tinha uma risada gostosa. – Acho que vou te chamar de menina

por mais algum tempo. Tentar esquecer que você é uma bela mulher. Isso que

está acontecendo com a gente é muito sério e preciso me concentrar. Ficar te

imaginando nua não vai fazer bem algum.

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