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Capa do romance Vontade: Sujo, Honesto e Desesperador.

Vontade: Sujo, Honesto e Desesperador.

Michael Brandt vive um tormento psicológico após um surto violento em Nova York. Diagnosticado com vício em sexo, ele agora enfrenta uma abstinência forçada: seu corpo o impede de atingir o orgasmo. Essa condição o leva a comportamentos autodestrutivos em busca de alívio. No entanto, sua rotina é abalada por Katherine Hamilton, uma nova colega de trabalho misteriosa. A presença dela intensifica seus impulsos, tornando sua busca pelo prazer ainda mais perigosa.
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Capítulo 2

Michael Brandt continuava na cama ignorando os gritos histéricos de seu despertador. Encarando o teto sem realmente olhá-lo, contemplativo sobre os eventos do mês anterior que ainda repassavam-se frescos em sua mente toda vez que estava em silêncio…

A forca. O sangue. O tour sexual insano pelas ruas nojentas daquela cidade arrogante… Perguntou-se se ele também tinha sido arrogante, procurando sexo indiscriminadamente, sem respeito ou vergonha. Fazendo isso por tanto tempo que as paredes de Manhattan poderiam desejar fodê-lo também. Vislumbrou em pensamentos quantas vezes já havia enchido caixas e mais caixas contendo as centenas de revistas, filmes e vídeos pornográficos que usava para se masturbar para despejá-los na sarjeta decidido a não mais ser atormentado. Tentativas débeis de acabar com um vício que sempre retornava quase naturalmente com um único pensamento, que terminava alastrando-se para mais um episódio de busca insana por prazer.

Seus olhos rolaram para o lado e quase viu a silhueta nua de uma mulher morena tomar caminho para a sala. Para a saída talvez, ou para o banheiro. A noite teria sido um fracasso ou um sucesso?

Não havia ninguém. Era só um devaneio. Não se lembrava de ter ligado para alguém, mas poderia. Queria ter ligado para ela, sua gentil colega de trabalho. Queria ter tentado de novo. Os olhos castanhos suaves dela o encararam com desejo naquela noite, e os cabelos ruivos tingidos espalharam-se tão lindamente pelos lençóis azuis antes de beijá-la…

Depois apenas o fracasso.

Quis tentar outra vez. Mas para quê? Para assistir a si mesmo brochando mesmo com um corpo maravilhoso disponível só para ele?

Para experimentar aquela frustração outra vez? Aquele sofrimento dilacerante após a partida da gentil Mia Davidson do quarto de hotel duas semanas antes, sem o sexo alucinante que os jantares e flertes com Michael haviam prometido? Não conseguia mais olhá-la nos olhos, nem ela nos dele. Decidiu que seria melhor assim. Uma mulher como aquela merecia mais que um degenerado sexual que não conseguiria dar-lhe o que oferecia sem dor na consciência a prostitutas e desconhecidas excitadas por toda Nova York.

Vinha sendo daquele modo por anos, desde a juventude. Sexo era natural para Michael, uma parte de sua rotina quase tão presente quanto escovar os dentes. Pensar nele era um hábito delicioso e frequente. Mas depois do último episódio... depois da cachoeira vermelha rastejando para o chão do banheiro…

Levantou-se nu sentindo o arrepio da manhã gélida e abriu as persianas com um puxão mais forte que o habitual. Mal esperou seus olhos doloridos acostumarem-se com a luz refletindo em sua mobília branca revelando a cidade pálida já acordada há muitas horas. Não deu atenção a ela, estava ali há décadas, estaria por muito mais.

Foi para o banheiro num trajeto quase automático, apertando o botão da playlist de toda manhã. The Cure, Joy Division, Nina Simone…

Na frente do espelho via apenas um homem cansado, esgotado e lutando arduamente para gozar na pia. As veias saltadas do pescoço com a respiração ofegante e espaçada, o rubor característico da circulação acelerada quase dando a ele uma aparência saudável. Os olhos azuis desesperados encarando a si mesmo, suplicando a si mesmo. A barba cor de cobre quase escondia seus lábios finos abertos. Os músculos do abdômen definidos por sua natural magreza estavam todos tensos, desenhados sob a pele.

"Um pouco mais, só um pouco…”

Sentiu o orgasmo construir-se sofrível. Como um medidor de força de parque de diversões quando o candidato não tem força suficiente para fazê-lo atingir o topo e vencer. Patético de todas as formas!

Parou com as mãos ainda limpas, o chão e a pia ainda secos, e um vazio tão imenso que poderia fazê-lo querer dessangrar-se ali de novo.

Nas manhãs anteriores também parecera uma boa ideia, e lembrou-se como o vermelho caíra bem nele naquela noite. Sangrar... como um porco nojento e pervertido abatido pela própria consciência. Lutando contra o próprio fôlego, recusou-se a se render àquele fracasso e entrou na banheira vazia. Abriu o chuveiro deixando a água quente espalhar vapor pelo cômodo, e posicionou-se sentado embaixo dele de modo que a água caísse em seu pescoço e escorresse por seu peito, finalmente chegando à base de seu pau. Recomeçou a punheta, concentrando-se em deixá-lo duro novamente, e estava quase conseguindo. O fluxo quente o lembrava da boca faminta de uma amante sem rosto. De várias amantes sem rosto com suas línguas ousadas estimulando seus pontos fracos ao passo que o nível da água subia. Mais uma vez, o orgasmo se elevava devagar, difícil...

Grunhiu de raiva e isso fez seu pau amolecer um pouco, ameaçando escapar-lhe o controle. Retorceu o rosto com o esforço, seu braço doía, seus músculos já estavam cansados e a glande começava a arder. Nem mesmo um pré-sêmem emergia da ponta. Num acesso de desespero, Michael agarrou a mangueira de ferro e a enrolou no próprio pescoço puxando a ponta para cima um pouco mais a cada vez que elevava a velocidade da punheta. Uma tentativa violenta e desesperada de ter um pouco do que já não podia mais viver sem, e que nos últimos meses havia fechado as portas para ele. Já quase não sentia os músculos do rosto, provavelmente logo começaria a ficar roxo e o ar já não chegaria mais aos seus miolos. Poderia gozar, ou morrer. Mas não conseguiu fazer nenhum dos dois.

Partir coberto de sangue parecia a melhor opção e absolutamente nada o impedia de tentar outra vez. Só aquela maldita fúria!

Largou a mangueira deixando o oxigênio passar livre pela garganta, engasgando-se com o vapor da água quente.

"Não posso fazer isso”, ele disse em sua mente. “Não consigo mais fazer isso”.

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