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Capa do romance Vontade: Sujo, Honesto e Desesperador.

Vontade: Sujo, Honesto e Desesperador.

Michael Brandt vive um tormento psicológico após um surto violento em Nova York. Diagnosticado com vício em sexo, ele agora enfrenta uma abstinência forçada: seu corpo o impede de atingir o orgasmo. Essa condição o leva a comportamentos autodestrutivos em busca de alívio. No entanto, sua rotina é abalada por Katherine Hamilton, uma nova colega de trabalho misteriosa. A presença dela intensifica seus impulsos, tornando sua busca pelo prazer ainda mais perigosa.
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Capítulo 3

Três meses inteiros e nenhum orgasmo. Uma ereção aqui e ali, provocada por algum par de peitos bonitos na webcam ou o balanço aleatório do vagão do metrô. Mas nenhum orgasmo, nenhum prazer.

Desde aquela noite vagueando pelos puteiros. Desde o cais com todas aquelas pessoas tentando “ajudá-lo” a não morrer. Desde aquela chuva gelada e do sangue no chão do banheiro. Nada.

Primeiro pensou em foder qualquer um no metrô que o olhasse com interesse e o primeiro foi um rapaz. Pensou em seu olhar triste e sua expressão de perfeita miséria emocional misturada ao tesão de provocar o homem no banco oposto sem saber quais perversões guardava com seu olhar doce. Tinha fodido com ele no banheiro masculino imundo do metrô, ele gemia como um gato e o chamou por outro nome quando finalmente gozou no chão.

Não devia ter feito aquilo. Estava se arriscando demais transando com desconhecidos sem camisinha.

Naquela manhã, o mesmo rapaz o estava olhando de novo no mesmo assento do metrô, apenas algumas horas depois da tentativa fracassada de se masturbar com asfixia. Nenhum sinal no corpo do jovem indicava interesse na figura dele. Mal o olhava, assim como Mia. O som dos trilhos, a morbidez matinal das pessoas... combinava com sua apatia, com seu vazio. Pensou em Mia de novo. Sua colega de trabalho de conversa esperta e ares simpáticos. Das dezenas de jantares que tiveram, e de como sentiu-se à vontade perto dela para contar detalhes de sua vida que nem acreditava mais terem sido reais. A bela e gentil Mia, secretária de seu chefe, Paul. A que não conseguiu comer.

Deveria estar feliz com a inutilidade do próprio pau. Agora não representava mais risco à si mesmo. Não conseguia gozar, então qual era o ponto de fazer sexo?

“Continuar tentando”, Michael se respondeu. Continuar tentando até descobrir o prazer absoluto, até se sentir primitivo e sujo sem culpa e sem pudor da própria natureza. Michael tinha medo da dele, a dorzinha tímida em volta do pescoço embaixo do cachecol o lembrava disso. A camisa de gola alta esconderia as marcas, e não preocuparia ninguém.

Entrou no escritório, tentou ser gentil na medida do possível com as pessoas que ainda o cumprimentavam quando chegava, mas seu humor estava uma merda desde que admitiu sua derrota sexual contínua. Sentou-se com seus colegas novamente na sala de reuniões tentando prestar atenção no que diziam, mas não conseguia. Enquanto Will Burton começava a reportar-se a Paul sobre o balanço das vendas da semana, a mente de Michael começou a viajar para longe. “O que estou fazendo aqui?”, questionava-se olhando o vapor sinuoso emergindo da xícara branca de café. As notas dançantes dos “Noturnos” de Chopin que ouvira durante a corrida na madrugada tocavam em sua mente abafando a reunião enquanto seus olhos divisavam as silhuetas dos prédios lá fora.

Permitiu-se dar um risinho involuntário com uma breve constatação: Era impossível ignorar Nova York.

— Esta é Katherine Hamilton — apresentou Paul, e Chopin se foi. — Nossa nova gerente de...

Não ouviu o resto, apenas voltou suas atenções àquela sala detestável da qual queria sair correndo para conseguir o que queria de uma vez por todas com duas, três, dez prostitutas se necessário!

Então seus olhos azuis encontraram uma mulher. A obviedade da constatação se perdia na aparência extremamente elegante e impecável dela, num terninho preto que dava simetria ao seu corpo e uma saia que apertava quadris largos e coxas firmes cobertas por meias tão escuras quanto o resto. A blusa de gola rolê por baixo do blazer escondia seu pescoço, misturando-se às irregularidades pontiagudas de seus cabelos cortados em ângulo descendente. Questionou-se se haveria marcas por baixo daquela gola, como as dele… Não estava maquiada exageradamente, mas algum retoque deixava seu rosto limpo e sóbrio e a pele de aspecto quase leitoso. Perdeu bons segundos estudando-a enquanto ela passava os olhos por todos os presentes numa avaliação lânguida que brincava vertiginosa entre o interesse e o pedantismo naquelas íris verde-esmeralda. Até que pararam nele.

Não estava encarando todo o seu rosto como fizera com os outros, estava focada apenas em seus olhos e Michael quase a sentiu revirar sua alma como um ladrão desajeitado, desesperado. Aquilo era desconcertante, incômodo. Katherine era belamente ameaçadora aos seus segredos e o fitava como se soubesse o degenerado por trás do rosto apático e distraído de Brandt. E por Deus, haviam sido apenas alguns segundos!

Depois do escritório todo saber o que acontecera naquele banheiro — porque Paul não conseguia manter a porra da boca fechada —, tinha a sensação de que todos sabiam o que fazia. O que pensava. Como era sujo. Tinha a sensação que o julgavam sempre que dava as costas, que podiam ver todas as fodas que já tivera na vida. Arrepiou-se, pois sentia a mesma coisa com essa mulher. E eles nunca haviam se visto.

— Com licença. — Sem conseguir se manter na cadeira Michael levantou-se sem se preocupar se estava causando estranheza, mas incomodou-se em dizer antes de sair: — Foi um prazer, Katherine. Bem-vinda à equipe.

“Ou seja lá o que for…”, completou-se já no corredor a passos largos.

Entrou no banheiro masculino, a porta fez barulho e havia uma pessoa lavando as mãos na pia. Entrou numa das cabines, fez o mesmíssimo ritual de sempre limpando a tampa do vaso antes de abrir o zíper e colocar o pau para fora. Começou a esfregá-lo do jeito que sabia ser melhor, procurando endurecê-lo o mais rápido possível. Apoiou a mão na parede em frente e aumentou o ritmo da punheta.

E pensou em Katherine Hamilton. A nova gerente de sei-lá-o-quê.

Pensou em suas curvas, no franzir do tecido justo contra sua pele. Em seus olhos verdes, em suas mãos delicadas e brancas segurando seu laptop fechado. Nos cabelos curtos perfeitamente partidos ao meio e nas formas da boca ainda frescas na memória. Olhou para baixo onde seu pau era praticamente abusado por sua mão e o imaginou entrando na garganta dela. Um arrepio escalou suas costas, tensionando seu pescoço e fazendo-o fechar os olhos. Estava vindo... Finalmente...

“Só mais um pouco...”, pensou, apenas externando com um grunhido quase não contido. Tentou reproduzir em mente os sons que a saliva dela faria, embebendo sua ereção enquanto se preparava para inundá-la. “Isso... Mais... Engula tudo!”, imaginava-se dizendo.

E então a lembrança intrusa de ter flagrado Will e Paul transando em sua sala de estar de madrugada depois de um happy hour estendido destruiu tudo. Estava escapando! Distanciava-se como um trem na estação partindo cedo demais e deixando-o para trás com sua frustração e seu pau amolecendo de novo.

— Porra! — Michael gritou, sua voz ressoou no banheiro pequeno e seu punho foi de encontro à parede, machucando seus ossos de imediato. A dor alastrando-se pelos topos dos nós esbranquiçados tomando uma cor assustadoramente vermelha.

— Você está bem aí, cara? — Alguém do outro lado da porta perguntou.

— Indigestão — respondeu a primeira coisa que lhe ocorreu.

— Quer que eu fale com Paul? — sugeriu o cara.

— Não, eu mesmo dou um jeito nisso.

— Beleza, então.

Acalmou a própria respiração, limpando o pré-sêmem com um pedaço de papel higiênico e guardando seu membro de volta na calça. Ficou um tempo olhando para a água inerte no fundo do vaso e então começou a rir amargamente. Outra vez… Nada. O sexo homossexual nem havia sido o problema, já havia transado com homens antes, mas a memória da injúria de ter a luxúria alheia acontecendo em seu domínio… Isso o fez desacelerar. Isso o tinha feito retornar ao quarto em silêncio e ligar alguma banda de metal no máximo para estourar seus ouvidos, abafar os gemidos dos dois. Naquela época ainda conseguia gozar, poderia até ter se juntado a eles se tivesse sido menos egocêntrico.

Deixou o banheiro depois de arrumar a própria aparência, decidido a simplesmente trabalhar ao menos uma vez na vida. Saindo do banheiro e seguindo para sua saleta, ergueu o olhar e deparou-se com a elegante e sóbria Katherine Hamilton, calma e alheia ao fato de que havia engolido o pau de Michael em seu devaneio particular. Não o cumprimentou, mas o olhou nos olhos de novo. Ele não conseguiu encará-la por muito tempo, passou pela mulher como um foguete.

Porém foi cara de pau suficiente para olhar uma segunda vez aqueles quadris bonitos movendo-se, e seus pés firmes enfiados nos Louboutin levarem-na ao banheiro feminino.

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