
Voltei Para Te Fazer Pagar
Capítulo 2
A primeira coisa que senti foi o cheiro forte de água sanitária, um cheiro que grudava no fundo do meu nariz e arranhava minha garganta. Abri os olhos devagar. A luz do sol entrava forte pela janela da cozinha da casa dos patrões, batendo no piso branco e fazendo minha cabeça doer. Por um momento, tudo ficou confuso, como um sonho ruim do qual a gente não consegue acordar direito.
Uma imagem terrível passou pela minha cabeça, rápida e nítida. Sofia, minha filha, com o rosto cheio de desprezo, gritando na minha frente.
"Velha ultrapassada! Fracassada!"
A voz dela ecoava na minha mente. Lembrei do dinheiro, todo o dinheiro que juntei por vinte anos, cada centavo suado, guardado para abrir minha padaria. O dinheiro tinha sumido. E a padaria, o meu sonho, tinha virado fumaça. Lembrei do meu coração partido, da vergonha, da sensação de não ter mais nada.
Balancei a cabeça, tentando afastar a memória. Mas ela era real. Tinha acontecido. Eu tinha perdido tudo.
Mas… eu estava ali, na cozinha dos patrões, com o pano de prato na mão, o mesmo cheiro de limpeza de sempre. Olhei para o calendário na parede. A data me deu um choque. Era um ano antes. Um ano antes do dia em que descobri o roubo. Um ano antes da humilhação pública.
Eu… voltei?
Meu corpo todo tremeu. Não era possível. Mas a sensação daquela dor, daquela traição, era tão viva que parecia ter acontecido ontem. E de certa forma, para mim, tinha.
A porta da cozinha se abriu com força, batendo na parede.
"Mãe! Você ainda não passou meu vestido? Eu tenho o evento da LuxLife hoje à noite, não posso ir com a roupa amassada!"
Era Sofia. Ali, na minha frente. Linda, com seus vinte e poucos anos, o cabelo perfeitamente arrumado, a maquiagem impecável. A mesma Sofia que, no futuro que eu lembrava, tinha me destruído. O rosto dela era uma mistura de impaciência e nojo. Ela olhou para as minhas mãos, para o meu avental simples.
"Você não me ouviu? O vestido. Agora."
Na minha outra vida, eu teria corrido. Teria pedido desculpas, mesmo sem ter culpa, e teria passado aquele vestido caro com todo o cuidado do mundo, só para ver um sorriso no rosto dela. Mas agora, olhando para ela, eu só via a traidora. A filha que roubou os sonhos da própria mãe para viver uma mentira de luxo nas redes sociais.
Respirei fundo. O ódio subiu pela minha garganta, quente e amargo. Mas eu engoli de volta. Briga agora não ia adiantar. Eu tinha uma segunda chance. Não podia estragar.
Forcei meu rosto a parecer cansado, submisso.
"Desculpa, filha. A Dona Cláudia pediu para eu terminar a prataria. Já vou pegar seu vestido."
Sofia revirou os olhos, um gesto que ela fazia desde pequena quando não gostava de algo.
"Sempre a Dona Cláudia. Você vive para servir essa gente. Não se cansa de ser capacho dos outros? Anda logo com isso."
Ela saiu batendo o pé, o som dos seus sapatos caros ecoando pelo corredor.
Fiquei parada, segurando a pia com força. Meus nós dos dedos estavam brancos. Eu precisava ser esperta. Desta vez, eu precisava ser mais esperta que ela.
Do lado de fora da cozinha, no corredor de serviço, ouvi o cochicho de outras duas empregadas da casa.
"A Sofia está cada dia mais insuportável", disse uma. "Trata a Maria como se fosse lixo."
"E o pior é que a Maria não vê", respondeu a outra. "Dá tudo pra essa menina, vive pra ela. Mal sabe ela que a menina só sente vergonha da mãe. Outro dia, ouvi ela no telefone dizendo para uma amiga que a mãe era uma 'caipira sem ambição'."
As palavras delas não me machucaram como antes. Agora, elas só confirmavam o que eu já sabia. Confirmavam a verdade que eu tinha me recusado a enxergar.
Meu olhar se perdeu pela janela da cozinha. A janela dava para o quintal dos fundos da casa e, mais além, para a rua tranquila do bairro. Eu conseguia ver a casa da frente, simples, mas arrumadinha. A casa de João, o padeiro aposentado. Um homem bom, que sempre me cumprimentava com um sorriso gentil e às vezes me trazia um pão doce, ainda quente.
Na minha outra vida, depois que Sofia me deixou sem nada, foi João quem me acolheu. Foi ele quem me deu um prato de comida quando eu não tinha mais forças nem para chorar.
Meu foco mudou. Não era mais sobre agradar Sofia. Não era mais sobre o medo de perdê-la. Agora, era sobre sobreviver. Era sobre proteger meu dinheiro, meu sonho. E o primeiro passo era garantir que Sofia nunca mais colocasse as mãos em um centavo meu. Olhei para a prataria que tinha que polir. Depois olhei de novo para a janela, na direção da casa de João. Uma nova determinação começou a crescer dentro de mim. Desta vez, a história seria diferente.
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