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Capa do romance Voltei Para Te Fazer Pagar

Voltei Para Te Fazer Pagar

Entre o cheiro de limpeza e a rotina de empregada, memórias brutais de traição ressurgem. Sofia, a filha que tanto amei, roubou minhas economias de décadas e destruiu meu sonho da padaria com humilhações cruéis. Inexplicavelmente, o destino me trouxe ao passado. Com a dor da ingratidão ainda latente, não permitirei que ela me arruíne novamente. É o momento do acerto de contas: protegerei meu futuro e farei com que Sofia pague por cada lágrima e sacrifício.
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Capítulo 3

O jantar na casa dos patrões, os Andrade, era sempre um evento. Um desfile de gente rica, de conversas altas e risadas forçadas. E para Sofia, era o palco perfeito. Ela circulava pela sala com seu vestido caro, o celular sempre na mão, gravando stories, posando para fotos. Ela se movia como se fosse a dona da casa, não a filha da empregada.

Eu servia os convidados, de cabeça baixa, tentando ser invisível. Mas eu ouvia os comentários.

"Essa é a filha da Maria? Nossa, que arrogante", disse uma senhora para outra, perto da mesa de frios.

"Vive para as redes sociais. Não tem um pingo de noção. A mãe se matando de trabalhar e ela aí, ostentando um luxo que não é dela."

A pressão sobre Sofia estava no ar. Não era uma pressão direta, mas um murmúrio constante de desaprovação. Os outros funcionários da casa a evitavam. Os convidados mais antigos, que me conheciam há anos, a olhavam com uma certa pena e desprezo.

Sofia sentia isso. E a deixava ainda mais agressiva. Ela me parou perto da cozinha, longe da maioria dos olhares, e segurou meu braço com força.

"Eles estão rindo de mim? Estão falando de mim nas minhas costas?"

"Não, filha, claro que não. É impressão sua", eu disse, com a voz calma.

"Não mente pra mim!", ela sussurrou, com raiva. "É culpa sua! Se você não fosse uma empregadinha qualquer, eles me respeitariam. Você me envergonha!"

Na minha vida passada, eu teria chorado. Teria me sentido culpada. Mas hoje não. Eu olhei nos olhos dela e forcei um sorriso triste.

"Eu sei que é difícil pra você, meu amor. Eu entendo. Você nasceu pra brilhar, não pra ser filha de uma mulher como eu. Não se preocupe com o que eles pensam. Você é melhor que tudo isso. Você merece o mundo."

Minhas palavras, que pareciam de apoio, foram como jogar gasolina no fogo. Era exatamente o que o ego dela queria ouvir, mas dito na frente de outras pessoas, soava como se eu estivesse a defendendo de uma crítica que ela mesma provocou. A raiva dela explodiu.

"É claro que eu mereço! E eu não vou acabar como você, velha, fracassada, servindo os outros pro resto da vida! Eu vou ser famosa, vou ser rica! E vou sair desta vida medíocre que você me deu!"

Ela falou alto. Alto demais. A conversa na sala diminuiu. Alguns convidados se viraram para olhar. O rosto de Dona Cláudia, minha patroa, se fechou. Sofia percebeu o que fez e ficou pálida, mas o orgulho não a deixou recuar.

Foi nesse exato momento que o Sr. Afonso, o pai de Dona Cláudia, um senhor de quase 80 anos, que estava sentado numa poltrona, começou a tossir. A tosse virou um engasgo feio. Ele levou as mãos ao pescoço, o rosto ficando vermelho, depois roxo. Ele não conseguia respirar.

Pânico.

Dona Cláudia gritou. As pessoas se levantaram, assustadas, sem saber o que fazer. Alguém gritou para chamar uma ambulância. Sofia, em vez de ajudar, pegou o celular. Eu vi. Ela começou a gravar, provavelmente pensando no drama, na audiência que aquilo poderia gerar.

Eu não pensei duas vezes. Larguei a bandeja na mesa mais próxima, corri até o Sr. Afonso, o virei de costas e passei meus braços ao redor da sua barriga.

"Calma, Sr. Afonso, eu vou ajudar", eu disse, com a voz firme.

Fiz uma mão em punho, coloquei entre o umbigo e o peito dele. Com a outra mão, segurei o punho e puxei para dentro e para cima. Com força. Uma vez. Duas vezes. Na terceira, um pedaço de carne voou da boca dele e caiu no tapete caro.

O Sr. Afonso respirou fundo, um som alto, desesperado. Depois, começou a tossir de novo, mas desta vez, era uma tosse de alívio. O ar estava entrando nos pulmões. A cor do seu rosto começou a voltar ao normal.

A sala ficou em silêncio por um segundo. Depois, a confusão voltou, mas de um jeito diferente. Dona Cláudia correu para o pai, chorando de alívio.

"Pai! Você está bem? Meu Deus, Maria, você salvou a vida dele!"

Ela me abraçou, um abraço forte, sincero.

"Maria, eu não sei como te agradecer. Você foi incrível. Rápida, calma. De onde você aprendeu isso?"

"Fiz um curso de primeiros socorros há muitos anos, na associação do bairro", eu respondi, com simplicidade. "A gente nunca sabe quando vai precisar."

O Sr. Afonso, ainda ofegante, segurou a minha mão. Seus olhos estavam cheios de lágrimas.

"Obrigado, minha filha. Obrigado. Você me deu a vida de volta."

Os outros convidados me olhavam com admiração. As mesmas pessoas que antes cochichavam sobre Sofia, agora me elogiavam.

"Que mulher corajosa!"

"Ela salvou o homem! Que sangue frio!"

Eu olhei para Sofia. Ela tinha abaixado o celular, o rosto branco como papel. Ela me olhava com uma mistura de choque, raiva e, talvez, pela primeira vez, uma ponta de medo. Eu tinha acabado de salvar a vida do patriarca da família mais poderosa da sala, enquanto ela, a aspirante a estrela, só pensava em filmar a tragédia. Naquele momento, no palco que ela tanto amava, eu me tornei a protagonista. E ela, apenas uma figurante invejosa e inútil na plateia.

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