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Capa do romance Voltei Para Não Ser Sua

Voltei Para Não Ser Sua

Após perder os pais, fui acolhida por Ricardo Almeida. Amei-o até doar meu fígado para salvá-lo, mas um beijo impulsivo transformou seu afeto em desprezo. Quando ele exigiu que eu doasse um rim para sua noiva e eu recusei, vivi um pesadelo: fui humilhada, violada e morta por suas mãos. Agora, despertei no hospital, voltando ao passado no exato momento em que ele implora pelo meu órgão. Renascida, meu amor morreu e lutarei apenas pela minha liberdade e vingança.
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Capítulo 2

Meu maior arrependimento nesta vida foi amar Ricardo Almeida.

Se não fosse por esse amor, eu não teria morrido de forma tão trágica.

Desde os dez anos, quando meus pais faleceram em um acidente de carro, fui acolhida por Ricardo, meu padrinho e o melhor amigo deles. Ele era um empresário influente no setor cafeeiro, um homem que todos admiravam.

Ele me prometeu proteção, cuidado, disse que eu seria como uma filha.

Aos quinze anos, ele me defendeu de valentões na escola, sua figura alta e imponente era meu porto seguro.

Aos dezoito, ele sofreu um grave acidente de carro, quase morreu. Eu, sem hesitar, doei parte do meu fígado para salvá-lo.

No hospital, ainda me recuperando, a dor da cirurgia era um zumbido constante. Ele dormia, sereno. Movida por um impulso adolescente, um amor que me consumia em segredo, beijei seus lábios.

Ele acordou.

Seus olhos, antes quentes, tornaram-se frios como gelo.

A partir daquele dia, ele me tratou com uma distância cruel, suas palavras eram raras e cortantes.

Então Laura Bastos surgiu, sua noiva. Linda, delicada, uma "dama de porcelana". Ela adoeceu gravemente, seus rins falharam. Um transplante era sua única esperança.

Eu era a única compatível.

Ricardo me pressionou, seus olhos suplicantes, mas frios. Eu já estava debilitada pela doação anterior, meu corpo ainda se ressentia.

Eu recusei.

Laura morreu.

A vingança de Ricardo foi um pesadelo. Ele expôs meu diário íntimo, cada palavra de amor adolescente, cada segredo, transformado em humilhação pública.

Ele me drogou.

Permitiu que outros homens me tocassem, me violassem. Ele não encostou um dedo em mim, sua voz cheia de nojo:

"Suja."

Por fim, em um acesso de fúria cega, ele me esfaqueou. A dor era lancinante, o sangue quente escorrendo pelo meu corpo. Seus olhos eram vazios, consumidos pelo ódio.

Morri em seus braços, meu último suspiro um lamento silencioso.

Abri os olhos.

O cheiro de antisséptico invadiu minhas narinas. A luz fluorescente do teto do hospital feria minha vista.

Ricardo estava ao lado da minha cama. Seu rosto, uma máscara de preocupação fingida.

"Clara, querida," sua voz era suave, a mesma voz que me chamara de "suja" antes de me matar. "Laura precisa de você. Você é a única compatível para o transplante de rim. Por favor, salve a vida dela."

Era o mesmo pedido. O mesmo momento.

Eu renasci.

Voltei ao momento crucial.

A memória da dor, da humilhação, da morte, estava vívida em minha mente. Aquele amor idiota que senti por ele? Morto, enterrado junto com meu corpo esfaqueado.

Desta vez, eu não seria tola.

Olhei para ele, meus olhos encontrando os seus.

"Eu doo," minha voz saiu firme, surpreendendo a mim mesma.

Os olhos de Ricardo brilharam com um alívio culpado.

"Mas tenho uma condição."

Ele franziu a testa, desconfiado.

"Qualquer coisa, Clara. O que você quiser."

"Quero um documento," eu disse, minha voz fria como o aço. "Assinado por você. Desvinculando-me legalmente da família Almeida. Concedendo-me total independência financeira e pessoal. Quero sair desta família para sempre."

Ricardo me encarou, chocado. O médico ao seu lado pigarreou.

"Senhorita Vasconcelos, uma segunda doação de órgão é extremamente arriscada. Seu corpo já passou por um grande trauma com a doação do fígado."

Ignorei o médico. Meus olhos estavam fixos em Ricardo.

Ele ainda me olhava, a surpresa dando lugar à suspeita. Ele provavelmente achava que era mais uma artimanha minha para prendê-lo, para me casar com ele. Idiota.

"Você tem certeza, Clara?" ele perguntou, a voz carregada de uma desconfiança que me enojava. "É um risco enorme."

"Tenho absoluta certeza," respondi. A liberdade tinha um preço, e eu estava disposta a pagá-lo. Morrer na mesa de cirurgia era melhor do que viver o inferno que ele me preparara.

Ele assentiu lentamente, um brilho calculista em seus olhos.

"Se é isso que você quer... eu providenciarei os papéis imediatamente."

Ele deve ter pensado que eu estava blefando, que no último minuto eu exigiria casamento, dinheiro, atenção. Mal sabia ele que meu único desejo era nunca mais ver seu rosto.

Ele saiu para falar com os advogados. Laura, ao saber do "acordo", invadiu meu quarto como uma fúria.

Seu rosto doce estava contorcido pela raiva.

"Sua vadiazinha!" ela sibilou, e sua mão voou, acertando meu rosto com força. A ardência se espalhou pela minha bochecha. "Acha que pode usar isso para seduzir o Ricardo? Acha que ele vai te querer só porque você vai me dar um rim?"

Ricardo entrou no quarto naquele exato momento.

"Laura, o que está fazendo?" ele perguntou, mas correu para o lado dela, amparando-a como se ela fosse a vítima.

"Ricardo, ela está tentando te roubar de mim!" Laura choramingou, agarrando-se ao braço dele. "Ela concordou em doar o rim, mas quer algo em troca! Ela quer você!"

Ricardo olhou para mim, seus olhos frios e acusadores.

"Laura está frágil, Clara. Não a perturbe."

Ele a abraçou, e eu ouvi suas palavras, cada uma delas uma faca em meu coração, mesmo que ele já estivesse morto para mim.

"Não se preocupe, meu amor. A vida dela não tem importância comparada à sua. Ela é só uma ferramenta."

Virei o rosto, a amargura subindo pela minha garganta. Era isso que eu era para ele. Uma ferramenta. Um corpo com órgãos sobressalentes.

Mas desta vez, a ferramenta tinha um plano. E esse plano era a minha liberdade.

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