
Voltei Para Não Ser Sua
Capítulo 3
Assim que Ricardo e Laura saíram, peguei meu celular. Disquei o número do Professor Matias, meu orientador na universidade.
"Professor? É a Clara Vasconcelos."
"Clara! Que surpresa agradável. Como você está?"
"Estou bem, professor. Liguei para confirmar minha participação no 'Projeto Raízes do Sertão'. Ainda há vaga?"
Houve uma pausa do outro lado da linha.
"Clara, fico muito feliz com sua decisão! Sua ajuda será inestimável para as comunidades na Bahia. Mas... seu padrinho, o Sr. Almeida, ele sabe? Ele aprova?"
Um sorriso frio brincou em meus lábios.
"Professor, sou maior de idade. Minhas decisões são apenas minhas."
"Entendo. Bem, sua vaga está garantida. Enviarei os detalhes por e-mail."
Desliguei, sentindo um pequeno peso sair dos meus ombros. O sertão da Bahia. Longe de Ricardo, longe desta cidade, longe desta vida de sofrimento.
Mal tive tempo de respirar aliviada quando a porta do quarto se abriu e Ricardo entrou. Sua expressão era dura.
"Com quem estava falando ao telefone?"
Meu coração deu um salto, mas mantive a calma.
"Um grupo de estudos da faculdade, padrinho. Estávamos discutindo um projeto."
Ele me encarou por um momento, seus olhos perscrutando meu rosto. Parecia aceitar a desculpa, mas sua expressão não suavizou.
"Laura receberá alta amanhã. Ela virá morar conosco na mansão. Quero que você seja discreta. E, Clara," ele fez uma pausa, seu tom ficando ainda mais gélido, "livre-se de quaisquer cartas ou diários que você possa ter. Não quero 'mal-entendidos' quando Laura estiver se adaptando à casa."
Senti uma pontada de dor. Meus diários, minhas cartas de amor nunca enviadas, eram testemunhas silenciosas da minha devoção tola. Ele sempre os rejeitou, chamando-os de "melodrama adolescente". Agora, queria que eu os destruísse para proteger os sentimentos de Laura.
"Como quiser, padrinho." Minha voz era um fio.
No dia seguinte, Ricardo levou Laura para a mansão em seu carro de luxo. Eu fiquei para trás no hospital. Tive que chamar um táxi. O motorista, um senhor gentil, notou meu rosto pálido e as marcas da bofetada de Laura, ainda visíveis.
"A senhorita está bem? Precisa de ajuda?"
"Não, obrigada. Estou bem."
Que ironia. Um estranho se preocupava mais comigo do que minha própria "família".
Ao chegar à mansão, a cena que encontrei me fez parar na porta. Laura estava no meu quarto, mexendo em minhas gavetas. Em suas mãos, ela segurava um antigo terço de filigrana de prata, a única lembrança que eu tinha da minha mãe.
"O que você está fazendo?" minha voz tremeu de raiva contida.
Laura sorriu, um sorriso venenoso.
"Apenas conhecendo melhor a casa, querida. E os pertences da... agregada."
Ela olhou para o terço em suas mãos com desdém.
"Que coisinha feia. Tão antiquada."
E então, com um movimento deliberado, ela o deixou cair no chão. O delicado trabalho de filigrana se partiu em vários lugares.
Um grito escapou dos meus lábios. Corri e me ajoelhei, pegando os pedaços do terço, meu coração se partindo junto com ele.
Ricardo entrou no quarto, atraído pelo barulho.
"O que está acontecendo aqui?"
Laura correu para ele, o rosto contorcido em uma falsa inocência.
"Ricardo, eu não queria! Escorregou da minha mão!"
Ele olhou para o terço quebrado em minhas mãos, depois para mim, ajoelhada e trêmula. Sua expressão era de impaciência.
"Não seja dramática, Clara. É só um objeto. Eu te compro outro, um muito melhor." Ele tirou a carteira, como se dinheiro pudesse consertar a única ligação que eu tinha com minha mãe.
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