
Voltei do Inferno Para Te Enterrar
Capítulo 3
O Grande Salão de Baile estava sufocante. O cheiro de lírios e colônia cara pairava pesado no ar. Zimbro sentou-se sozinha na Mesa 8. Os outros lugares estavam vazios; as socialites designadas para sentar com ela haviam misteriosamente migrado para outras mesas, provavelmente não querendo ser pegas no fogo cruzado entre ela e Escudo.
Escudo e Brasa estavam na Mesa 1, o lugar nobre, cercados por bajuladores rindo alto demais das piadas de Escudo. A cada poucos minutos, Escudo sussurrava algo para Brasa, e ela ria, tocando o braço dele. Era uma performance. Uma performance desajeitada.
Zimbro bebericou seu champanhe. Estava quente.
"Senhoras e senhores," o leiloeiro retumbou do palco. "Passamos agora para o Lote 9. A Zona Industrial do Porto Oeste."
Um murmúrio de risadas percorreu a sala.
A tela atrás do palco se acendeu, exibindo uma imagem de drone de um terreno baldio desolado. Contêineres enferrujados, manchas de terra suja de óleo e uma aura geral de decadência. Era o lixão de Sea City.
"Uma oportunidade única de investimento," o leiloeiro tentou vender, embora até ele parecesse cético. "Lance inicial: 50 milhões de dólares."
Silêncio. Silêncio absoluto.
Alguém numa mesa próxima bufou. "Eu não compraria isso por um dólar. É um depósito de lixo tóxico."
Zimbro pousou a taça. Seus dedos roçaram a placa de plástico. Número 88.
Em sua vida passada, essa terra ficou sem ser vendida por mais seis meses. Então, o governo anunciou a iniciativa "Parque Tecnológico do Futuro". Os valores da terra dispararam da noite para o dia, aumentando em dois mil por cento. A família Zimbro perdeu. Os Escudo perderam. Um investidor estrangeiro comprou e fez bilhões.
Não desta vez.
Zimbro levantou sua placa.
"100 milhões," ela disse. Sua voz era clara, cortando os murmúrios.
A sala engasgou. Cabeças viraram bruscamente para a Mesa 8.
Escudo virou-se na cadeira, o rosto contorcido em descrença. Ele se levantou e marchou até a mesa dela, ignorando os olhares.
"Abaixe isso," ele sibilou, inclinando-se sobre ela. "Você está bêbada? Essa terra não vale nada. Você está envergonhando a família."
Zimbro não olhou para ele. Ela olhou para o leiloeiro.
"100 milhões para a dama de vermelho," o leiloeiro gaguejou, chocado.
"É o meu fundo fiduciário, Escudo," disse Zimbro calmamente. "Eu posso queimá-lo se eu quiser."
"Você é insana," cuspiu Escudo. "Não vou deixar você arruinar nossas finanças com este... lixo."
"Nossas finanças?" Zimbro ergueu uma sobrancelha. "Pensei que você tivesse dito que meu dinheiro era um troco 'fofo'."
Do camarote VIP acima, Trevo ria tanto que estava engasgando com a bebida. "Chefe, ela está realmente dando lances no lixão. Ela é louca."
Cardo não estava rindo. Ele encarava Zimbro com os olhos semicerrados. Batia o dedo no queixo. Ele ouvira sussurros - rumores de seus contatos na comissão de planejamento - de que as leis de zoneamento poderiam mudar. Mas era informação profunda. Como uma socialite sabia?
Ou ela era apenas imprudente?
"Dê um lance," disse Cardo.
Trevo parou de rir. "O quê?"
"Dê um lance contra ela."
"Mas chefe, é lixo!"
"Faça."
Trevo suspirou e falou no microfone conectado ao salão. "300 milhões."
O anúncio retumbou nos alto-falantes. "O camarote VIP oferece 300 milhões!"
A sala entrou em caos. Cardo estava dando lances? Se Cardo estava interessado, talvez não fosse lixo.
O coração de Zimbro falhou uma batida. Ela olhou para o camarote. O vidro escuro o escondia, mas ela sabia que ele estava lá. Por que ele estava interferindo? Isso não estava no roteiro.
Ela não podia perder isso. Essa terra era sua estratégia de saída. Era seu baú de guerra.
Ela levantou a placa novamente. Sua mão estava firme, mas suas palmas suavam.
"500 milhões," declarou Zimbro.
Escudo parecia que ia ter um derrame. "Zimbro! Pare! Isso é metade da sua herança!"
"Dou-lhe uma..." gritou o leiloeiro, suando.
Zimbro encarou o vidro preto do camarote VIP. Ela desejava que ele parasse. Por favor. Não lute comigo nisso.
Cardo a observava. Ele viu o desespero escondido atrás de sua máscara estoica. Viu a maneira como os nós dos dedos dela estavam brancos ao redor da placa. Ela queria isso. Ela precisava disso.
Ele sorriu. "Deixe ela ficar com isso."
"Vendido!" o martelo bateu. "Para a Sra. Escudo por 500 milhões de dólares!"
A sala colapsou em barulho. As pessoas balançavam a cabeça, sussurrando sobre a "esposa louca dos Escudo".
Escudo bateu a mão na mesa dela, fazendo os talheres chacoalharem. "Você nos arruinou. Quando o conselho souber disso..."
Zimbro levantou-se. Ela tinha a mesma altura que ele nos saltos.
"Se você está tão preocupado com finanças, Escudo," ela disse, a voz caindo para um sussurro que só ele podia ouvir, "talvez devêssemos separar nossos bens."
Ela se inclinou mais perto, sentindo o leve traço do perfume de Brasa na lapela dele.
"Quero o divórcio."
As palavras pairaram no ar entre eles, mais pesadas do que os 500 milhões de dólares.
Escudo congelou. Ele piscou, a boca abrindo e fechando. Ele a ameaçara com divórcio mil vezes. Ela sempre implorara para ele ficar.
"Você... o quê?"
"Você me ouviu," disse Zimbro. Ela pegou sua bolsa clutch. "Aproveite o resto da noite com seu caso de caridade. Tenho papelada para fazer."
Ela se virou e foi embora, deixando o baile, deixando o marido, deixando a vida em que morrera.
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