
Vivendo para Lembrar
Capítulo 2
7 DIAS DEPOIS
Dra. Melanie Carter
Mais um dia de trabalho no hospital de plantão terminando, quase 12 horas atendendo pacientes que sofreram quedas e fazendo uma cirurgia de emergência de um homem que teve traumatismo craniano depois de um grave acidente de carro. Já estou contando os minutos para ir embora, tomar um banho e encontrar a minha cama, enquanto estou sentada na copa do andar dos cirurgiões comendo uma maçã para enganar minha fome até em casa. Sinto o meu pager vibrar e vejo o Dr. Linn me chamando no quarto 417. Não me lembro de nenhum paciente esse quarto, não acredito terei caso novo faltando 20 minutos para ir embora. Saio da copa e vou para o elevador, para chegar até o 4° andar. Assim que chego no piso, vou andando até encontrar o quarto onde o Dr. Linn pediu minha ajuda. Bato na porta e entro.
- Você precisa me ajudar, EU NÃO ME LEMBRO DE NADA! - Escuto uma voz feminina gritar. Entendi por que fui chamada pelo ortopedista.
- Senhorita, essa é a Doutora Carter, ela é neurologista, poderá te ajudar. - Doutor Linn me apresenta a moça ruiva que eu desconheço quem seja.
- Qual é o quadro dela Doutor Linn? - Pergunto.
- Você não se lembra dela? É a garota que foi encontrada na Floresta Nacional de Shasta-Trinity, saiu do coma hoje. - Ele me responde e eu me lembro que ela chegou com traumatismo craniano e tive que fazer uma cirurgia de emergência para corrigir o problema e tirar o sangue acumulado em seu crânio. No dia em que a operei ela estava totalmente irreconhecível visualmente.
- Boa noite, qual é o seu nome? - Pergunto.
- O problema é esse Doutora, eu não sei. - Ela me responde.
- O que você consegue se lembrar? - Pergunto.
- DE ABSOLUTAMENTE NADA! NÃO SEI MEU NOME, DE ONDE SOU OU COMO VIM PARAR AQUI! - Ela grita.
- Imagino que seja horrível, mas vamos fazer exames e entender o seu quadro, para poder te ajudar a recuperar a memória. - Falo os procedimentos seguintes. - Também vou pedir para psicóloga de plantão vir aqui para conversar com você, ela pode te ajudar a recuperar a memória também.
- Certo, me contém o que vocês sabem sobre mim, por favor. - Ela pede, desesperada para entender o que aconteceu.
- Nós só sabemos que você foi encontrada em estado grave no meio da Floresta Nacional. Vou pedir para alguém chamar os detetives do seu caso, eles podem te dar mais detalhes. - Falo o que eu sei.
- Polícia? - Ela pergunta sem entender.
- Sim, polícia, dizem que tentaram te assassinar. - Falo o que os oficiais me falaram.
- Meu Deus. - Ela coloca a mão direita na boca assustada com que falei. - Família, amigos, ninguém me procurou?
- Infelizmente não. Nós tentamos e a polícia também tem tentado localizar alguém que te conheça, agora mais do que nunca, será essencial. - Respondo a ela, que está triste.
- Quando eu tiro o gesso do braço e da perna, Doutor? - Ela pergunta ao Linn.
- Você será reavaliada semana que vem, mas em ambos os membros terá que ficar aproximadamente mês com a imobilização. - Ele a responde.
- Então por que serei reavaliada semana que vem? - Ela pergunta sem entender.
- Se não houver sinais de recuperação, terá que fazer cirurgia. Para isso que irá fazer exames semana que vem. - Meu colega responde.
- Isso coça. - Ela fala, tentando coçar o antebraço esquerdo, coberto com o gesso.
- Sente dor? - Ele pergunta.
- Não, só essa coceira chata. - Ela responde.
- Então é um bom sinal, garota. - Ele responde.
- Obrigada pelo elogio, nem sei se sou uma garota de fato, posso ter 60 anos e está conservada para a idade. - Ela fala com senso de humor.
- Está mais calma. - Falo a ela.
- O que adianta gritar, não vou poder sair daqui e mesmo se pudesse, não tenho para onde ir. - Ela fala em um tom melancólico. - Eu não sei nem a cor dos meus olhos.
- São castanhos. - Falo contando a cor dos olhos dela. - Quer ver seu rosto?
- Quero! - Ela exclama.
- Vou pedir as enfermeiras um espelho pequeno. - Falo e vou até a porta.
- Daria, você tem um espelho pequeno a mão? Se sim, me empresta, por favor? Preciso para a paciente aqui. - Peço a primeira enfermeira que vejo.
- Tenho doutora Melanie. - Ela me responde vindo até mim e entrega o item que estava em seu bolso. - Ela está mais calma?
- Está, mas não se lembra nem do nome dela. Vou mostrar o rosto dela pelo espelho. - Respondo a Daria. - Obrigada, eu já te devolvo.
- De nada, se não me ver, pode deixar com uma das meninas do balcão. - Ela me fala.
- Combinado então. Obrigada mais uma vez. - Falo e entro novamente no quarto.
- Aqui está o espelho. - Falo e entrego o item a garota.
Ela se olha e permanece muda por um tempo, contemplando o rosto que ainda tem algumas marcas da violência que sofreu, ela ainda tinha roxos, principalmente nos olhos e um corte superficial.
- Por isso que sinto dor ao abrir muito os olhos. Devo ter apanhado muito - Ela fala.
- A oftalmologista te examinou quando você chegou aqui e não houve lesões oculares, mas posso pedir para ela vir amanhã e te avaliar novamente. - Falo o que sei a ela.
- Eu quero. - Ela fala. - Por que não desaprendi a falar?
- Porque o local onde sua memória fica no cérebro não é o mesmo onde se localiza suas habilidades. - A respondo. - Você ainda consegue andar, falar, escrever, por exemplo.
- Não sei o que é pior de perder. - Ela fala.
- Bom, eu preciso ir, meu plantão terminou. - Doutor Linn fala.
- O meu também. - Falo aproveitando a deixa, ela olha triste, possivelmente porque ficará sozinha. - Mas amanhã estou de volta, vamos fazer os exames e avaliar o seu quadro junto com a psicóloga, a Doutora Albany.
- Então vou passar a noite sozinha? - Ela pergunta.
- Terá uma equipe de médicos e enfermeiros no corredor para te ajudar se sentir dor ou outro problema. E tem a TV para te fazer companhia. - A respondo.
- Tudo bem. Vai descansar para me ajudar logo doutora. - Ela fala.
- Pode deixar, você vai recuperar sua memória. - Falo garantindo a ela. - Boa noite.
- Boa noite Doutores. - Ela fala triste.
- Boa noite. - Dr. Linn fala.
Saímos do quarto e eu fiquei com dó da garota, ela simplesmente estava só, nem a própria companhia ela tinha, já que não se lembrava de nada. Algo me intrigava também, nunca tinha visto alguém perder a memória por completo, geralmente era só a parte do trauma em si ou dias antes do evento. No caso dela é como se tivessem formatado um computador e iniciado do zero, ou seja, o computador mantém as funcionalidades, mas não tem os arquivos salvos na memória de antes da formatação.
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