
Vingança Fria: O Preço da Traição
Capítulo 2
A fumaça do cigarro subia em espirais lentas, misturando-se com o ar pesado do pequeno escritório alugado, um dos muitos que eu já tinha ocupado nos últimos cinco anos, cada um marcando o túmulo de mais um sonho fracassado.
Era o meu projeto de número noventa e nove.
Uma plataforma de logística para pequenos produtores rurais, algo que meu pai, se estivesse vivo, teria adorado. Mas, assim como os outros noventa e oito, este também estava morto antes de nascer, o investidor tinha acabado de ligar, cancelando a reunião final.
Meus pais. Fazia cinco anos que o carro deles derrapou naquela estrada chuvosa perto de Petrópolis, levando-os para sempre e jogando a empresa da família, e a minha vida, num abismo.
O telefone tocou, era Mariana, minha esposa.
"Querido, como foi a reunião?"
Sua voz era sempre um veludo, macia e preocupada, o porto seguro que me restou depois da tempestade.
"Ele cancelou, Mari."
"Ah, meu amor, não fica assim", ela disse, com um tom de consolo que eu conhecia tão bem, "Você sabe que essas coisas acontecem, o mercado é difícil, mas você é brilhante, João, uma hora vai dar certo."
"Eu sei", murmurei, apagando o cigarro no cinzeiro transbordando.
"Olha, não pense mais nisso, fiz seu prato preferido para o jantar, vem pra casa, estou te esperando com uma surpresa."
"Ok, estou a caminho."
Desliguei e fitei a parede descascada, as memórias daquele período sombrio voltaram com força.
Depois do acidente, o mundo virou as costas para mim. Parentes que antes me adulavam, agora desviavam o olhar, amigos de longa data pararam de atender minhas ligações, todos com medo de que eu pedisse dinheiro, de que a minha desgraça fosse contagiosa.
Eu estava completamente sozinho, um jovem de vinte e poucos anos organizando o funeral dos pais e encarando a falência.
Foi quando Mariana apareceu.
Ela, vinda de uma família tradicional e influente do Rio, tomou a frente de tudo, cuidou do funeral com uma eficiência fria, me abraçou quando eu desabei no cemitério e, no meio daquele caos, insistiu que mantivéssemos a data do nosso casamento.
"É agora que você mais precisa de mim, João", ela disse, segurando meu rosto entre as mãos, "Vamos passar por isso juntos."
Ela foi minha salvação, a âncora que me impediu de afundar.
Casei-me com ela sentindo uma gratidão imensa, um amor que se misturava com a dívida de tê-la ao meu lado quando todos me abandonaram.
Dirigi de volta para nosso apartamento luxuoso na Zona Sul, um presente do pai dela, sentindo o peso do fracasso número noventa e nove nas costas.
Ao chegar, a mesa estava posta, o cheiro de moqueca no ar, e sobre o meu prato, uma única rosa vermelha, um ritual que ela repetia a cada novo projeto meu, um símbolo de seu apoio inabalável.
"Gostou?", ela perguntou, me abraçando por trás.
"Sempre", respondi, forçando um sorriso.
Comemos, ela falou sobre seu dia na galeria de arte da família, sobre os planos para o fim de semana, sempre me tratando com um carinho que me fazia sentir culpado pela minha própria incompetência.
Depois do jantar, ela disse que precisava fazer uma ligação importante de trabalho e foi para o escritório dela, fechando a porta. Eu fui para o nosso quarto, o cansaço do dia me esmagando.
Deitei na cama e fechei os olhos, mas o sono não vinha.
Lembrei da surpresa que ela mencionou no telefone, ela não tinha falado nada durante o jantar, talvez tivesse esquecido.
Levantei-me, pensando em pegar um copo d'água. Ao passar pela porta do escritório dela, ouvi sua voz, um pouco mais alta que o normal.
"Sim, Lucas, o projeto afundou, como planejamos."
Parei, meu corpo inteiro gelou, a mão a meio caminho da maçaneta da cozinha.
Lucas? Lucas Martins? O "amor de infância" dela, um cara que se tornou um gênio da tecnologia em São Paulo?
"Não, ele não desconfia de nada, coitadinho", a voz de Mariana tinha um tom que eu nunca tinha ouvido antes, uma mistura de desprezo e diversão, "Ele ainda acha que eu sou a santinha que o salvou."
Meu coração começou a bater descontroladamente, um tambor surdo no meu peito.
"O projeto de logística era bom, admito, as ideias dele são sempre interessantes, mas a sua plataforma já está quase pronta para ser lançada, né? Com as melhorias que eu sugeri, baseadas no que o João me mostrou, vai ser um sucesso."
Um silêncio.
Eu me encostei na parede, o ar me faltando, o mundo girando.
"Claro que eu o amo, Lucas, do meu jeito", ela continuou, a voz agora mais suave, quase um sussurro. "Ele é minha escada, meu degrau. Com ele, consigo acesso a ideias que valem ouro, e com você, eu tenho o futuro que sempre sonhei. Só mais um pouco de paciência, meu amor."
Escada. Degrau.
As palavras ecoaram na minha cabeça, quebrando cinco anos de casamento, noventa e nove fracassos, e uma vida inteira de confiança em pedaços.
"A rosa? Ah, isso", ela riu, uma risada curta e cruel, "É para ele se sentir amado, para continuar tentando, para continuar me dando material. O bobo fica todo feliz."
A rosa vermelha na mesa da sala de jantar. Não era um símbolo de amor. Era a marca do meu matadouro.
Afastei-me da porta, caminhando de volta para o quarto como um autômato.
Sentei-me na beira da cama, no escuro, o som do meu sangue pulsando nos ouvidos.
A mulher que me salvou, na verdade, estava me afogando lentamente.
A mulher que eu amava, me usava.
A traição não era apenas com outro homem. Era uma traição de alma, de vida, uma manipulação que transformava meu amor em uma piada e minha dor em sua ferramenta.
A tristeza inicial deu lugar a uma raiva fria, cortante.
Eu não era um degrau. Eu não era um bobo.
Naquela noite, no escuro do nosso quarto, enquanto ela sussurrava promessas para outro homem, eu decidi.
A vingança não era uma opção, era a única saída.
Eu ia expor cada mentira, cada fraude.
Eu ia pegar de volta a minha dignidade, nem que fosse a última coisa que eu fizesse.
O jogo tinha mudado. E agora, era eu quem daria as cartas.
Você pode gostar





