
Vingança Fria: O Preço da Traição
Capítulo 3
A voz de Lucas soava do outro lado da linha, metálica e arrogante, vinda do viva-voz do celular de Mariana.
"Você tem certeza que ele não percebeu nada? Noventa e nove vezes, Mariana. Uma hora o idiota pode acordar."
Eu estava do lado de fora da porta do escritório, parado, ouvindo a conspiração que definia minha vida.
"Relaxa, Lucas", respondeu Mariana, com uma calma que me revirava o estômago, "João Carlos confia em mim de olhos fechados, ele me vê como uma heroína, a mulher que o tirou do fundo do poço, ele nunca duvidaria de mim."
"E o projeto dele? Aquele de logística, você pegou tudo que precisava?"
"Tudo e mais um pouco, as planilhas, o plano de negócios, a apresentação para investidores, já te mandei tudo por e-mail, como sempre."
"Ótimo", disse Lucas, satisfeito, "Minha equipe vai 'se inspirar' bastante nisso. O lançamento da nossa plataforma vai ser em breve e vai esmagar qualquer concorrência."
"Nossa plataforma", Mariana repetiu, a voz carregada de um anseio patético.
"É, nossa", ele concedeu, sem muita convicção.
Depois que ela desligou, ouvi o barulho de outra chamada sendo iniciada.
"Isa? Oi, amiga."
Era Isabela, sua melhor amiga, a única do círculo dela que sempre me tratou com um respeito genuíno.
"Mari, você não acha que está indo longe demais?" A voz de Isabela era cautelosa, cheia de preocupação. "Cinco anos. Você está destruindo o João."
"Eu não estou destruindo ninguém, estou construindo meu futuro", Mariana retrucou, a voz endurecendo.
"Às custas dele? Mariana, isso é cruel, ele te ama, ele te venera."
"Amor não paga as contas, Isabela, e a veneração dele é útil, ele é um gênio para ter ideias, mas um fracasso para executá-las, eu só estou... redirecionando o talento dele para quem sabe o que fazer: o Lucas."
"O Lucas não te ama, Mari, ele te usa, assim como você usa o João", disse Isabela, a voz firme. "Ele nunca deixou a noiva dele em São Paulo por você, e nunca vai deixar, você é só um peão nesse jogo dele."
"Você não entende o que a gente tem, é uma conexão de infância, é mais forte que tudo", Mariana disse, a voz quase fanática, "E ele vai deixar a noiva, ele me prometeu, assim que a empresa dele se tornar a maior do Brasil, com a minha ajuda."
"E se o João descobrir?"
"Ele não vai", Mariana afirmou com uma certeza assustadora, "Ele está quebrado demais, dependente demais de mim, ele não tem para onde ir, nem para quem correr, eu sou tudo que ele tem."
Aquelas palavras me atingiram como um soco.
Ela estava certa. Eu não tinha ninguém. Eles me tiraram tudo e depois me ofereceram uma gaiola dourada, e eu entrei de bom grado.
A lembrança do funeral dos meus pais veio à minha mente. Mariana, impecável em seu vestido preto, segurando minha mão, sussurrando palavras de conforto enquanto lidava com a funerária, os advogados, os credores.
Não foi um ato de amor. Foi o primeiro passo de um investimento. Ela não estava me salvando, estava adquirindo um ativo.
A porta do escritório se abriu e eu me endireitei, limpando qualquer traço de emoção do meu rosto.
Mariana saiu, sorrindo para mim.
"Ah, você está aí, meu amor", ela disse, vindo me abraçar.
Meu corpo enrijeceu por um instante antes que eu me forçasse a relaxar. Abracei-a de volta, o cheiro do perfume dela, que antes me confortava, agora me sufocava.
"Estava te esperando", menti, a voz saindo mais estável do que eu esperava.
"Não fica chateado pelo projeto, tá?", ela disse, olhando nos meus olhos, procurando qualquer sinal de desconfiança. "Eu tenho tanto orgulho de você, da sua resiliência."
Resiliência. Era assim que ela chamava minha estupidez.
"Eu sei", respondi, dando um beijo em sua testa, um gesto que me custou cada fibra do meu ser. "Obrigado por sempre acreditar em mim."
O sorriso dela se alargou, satisfeita com a minha resposta. Ela tinha me testado e, na sua mente, eu tinha passado.
"Vem pra cama", ela disse, pegando minha mão e me puxando em direção ao quarto, "Deixa eu te fazer esquecer esse dia ruim."
O toque dela na minha pele era repulsivo, cada carícia uma mentira.
Quando chegamos ao quarto, ela começou a desabotoar a camisa.
"Mari, espera", eu disse, me afastando suavemente.
Ela parou, confusa.
"O que foi?"
Eu precisava de uma desculpa, qualquer coisa para evitar o contato físico com ela.
"Minha cabeça está explodindo, acho que a frustração do dia bateu agora", menti, passando a mão na testa. "Eu só preciso de um banho e cama, desculpa."
A decepção passou rapidamente pelo rosto dela, mas ela a disfarçou com um sorriso compreensivo.
"Claro, meu amor, sem problemas", ela disse, "Vou pegar um analgésico pra você."
"Não precisa, um banho resolve."
Fui para o banheiro e tranquei a porta, me apoiei na pia, olhando meu reflexo no espelho. O rosto que me encarava era o de um tolo, de um homem enganado.
Mas havia algo novo ali, uma dureza no olhar, uma determinação fria.
O João Carlos ingênuo e grato tinha morrido esta noite, junto com seu projeto de número noventa e nove.
O que restou foi um homem com um único propósito.
Eles achavam que eu estava quebrado.
Mal sabiam eles que eu estava prestes a quebrar tudo ao redor deles.
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