
Vingança e Recomeço: Amor ou Dor?
Capítulo 2
O cheiro de desinfetante no corredor do hospital era forte, quase sufocante. Sofia estava de pé, imóvel, com os braços cruzados, olhando através do vidro para a cama onde Pedro estava deitado, pálido e ligado a máquinas que apitavam ritmicamente. O médico ao seu lado, um homem de meia-idade com uma expressão cansada, ajustou os óculos.
"Senhora Sofia, a situação do seu marido é crítica," disse ele com uma voz grave. "Os rins dele falharam completamente após o acidente. Ele precisa de um transplante urgente."
Sofia não se virou, seus olhos fixos em Pedro.
"E qual é a solução?" ela perguntou, a voz fria como o mármore do chão.
"Fizemos os testes de compatibilidade com a família. O único doador compatível é a mãe dele, a senhora Clara."
Nesse momento, uma mulher mais velha, com os olhos vermelhos de tanto chorar, agarrou o braço de Sofia. Era Dona Clara, a mãe de Pedro.
"Sofia, minha querida, por favor," ela soluçou, o corpo tremendo. "Eu sou velha, tenho problemas de saúde, não posso passar por uma cirurgia dessas."
Sofia finalmente se virou, mas seu olhar para a sogra era desprovido de qualquer compaixão. Ela pegou a mão de Dona Clara e a afastou com uma força contida.
"Você vai fazer a cirurgia," Sofia declarou, cada palavra saindo como uma sentença. "Você é a única que pode salvá-lo."
"Mas eu posso morrer! O médico disse que há riscos!" Dona Clara implorou, o desespero estampado em seu rosto.
"Então morra," Sofia respondeu sem hesitar. "Pelo menos você terá servido para alguma coisa."
A crueldade nas palavras de Sofia deixou Dona Clara e o médico em estado de choque. A sogra desabou em lágrimas, caindo de joelhos no chão, agarrando a barra da calça de Sofia.
"Por favor, eu te imploro, não me force a isso..."
Sofia olhou para baixo, para a mulher patética a seus pés, e sentiu uma onda de satisfação sombria. Ela se inclinou, sua voz um sussurro venenoso.
"Se você não assinar os papéis da doação, eu garanto que a vida do seu filho vai acabar aqui e agora. Eu mesma desligarei as máquinas."
Dona Clara congelou, o terror substituindo o desespero. Ela olhou para o rosto de sua nora, um rosto que ela antes amava, e viu uma estranha que não reconhecia. Com as mãos trêmulas, ela se levantou e, amparada pelo médico, caminhou para assinar os papéis que poderiam ser sua sentença de morte.
Mais tarde, após a cirurgia de transplante ter sido declarada um sucesso, Sofia entrou no quarto de Pedro. Ele já estava acordado, ainda fraco, mas seus olhos estavam claros e cheios de uma dor que não era apenas física.
"Sofia," ele sussurrou, a voz rouca. "Por que você fez isso com a minha mãe?"
"Eu salvei sua vida," ela respondeu, parando ao pé da cama, mantendo uma distância segura.
"A que custo? Você a ameaçou! Eu ouvi tudo," ele disse, a angústia em sua voz. "Essa não é você. A Sofia que eu conheço nunca faria isso."
Sofia riu, um som oco e sem alegria. "A Sofia que você conhecia está morta. Você deveria saber disso melhor do que ninguém."
Pedro sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Ele renasceu. Ele se lembrava de tudo da vida anterior. Ele se lembrava de sua indiferença, de sua negligência, de como ele a tratou. Ele se lembrava do fogo, do acidente que os matou. Ela o empurrou para fora do carro em chamas, salvando-o, enquanto ela era consumida pelas chamas. Ele havia renascido nesta vida com uma única missão: encontrá-la e compensá-la por tudo, amá-la como ele nunca amou.
Na vida passada, Sofia o amava com uma devoção que beirava a loucura. Ela fazia tudo por ele, ajustava sua vida em torno dele, perdoava suas ausências e sua frieza. Ela era seu sol, mas ele estava muito ocupado olhando para outras estrelas para perceber seu calor. Ele a tratava como um objeto que sempre estaria lá, um porto seguro para o qual ele poderia voltar quando quisesse.
A memória mais dolorosa era a do fim. O carro derrapando na estrada molhada, o impacto, o fogo se espalhando rapidamente. Ele estava preso, em pânico, mas Sofia, mesmo ferida, conseguiu abrir a porta dele. "Pedro, viva," foram suas últimas palavras antes de empurrá-lo para fora, momentos antes do carro explodir.
Ele renasceu na mesma família, com as mesmas pessoas ao seu redor. Quando ele a viu novamente nesta vida, seu coração quase parou. Era ela. Sua Sofia. Ele jurou a si mesmo que desta vez seria diferente. Ele a cortejaria, a amaria, a colocaria em um pedestal e nunca mais a deixaria sofrer.
Ele a conquistou novamente, casou-se com ela, acreditando que o destino lhe dera uma segunda chance para consertar seus erros terríveis. Por um tempo, eles foram felizes. Mas então, a frieza começou a se instalar. Sutilmente no início, depois como uma geleira, congelando tudo entre eles. Ele tentou de tudo para se aproximar, para mostrar seu amor e seu arrependimento, mas ela construiu um muro impenetrável ao redor de si mesma.
Ele tentou conversar, dar presentes, planejar viagens românticas. Nada funcionava. Ela o olhava com uma indiferença que era mais dolorosa do que o ódio. Ele se sentia frustrado, impotente. Ele pensou que talvez ela simplesmente não o amasse nesta vida, que a conexão deles havia se perdido. A ideia de divórcio passou por sua mente, uma rendição dolorosa ao fato de que talvez ele não pudesse consertar o passado.
Ele buscou consolo em seus pais, que estavam confusos com a mudança repentina de Sofia. "Ela costumava te adorar, filho," sua mãe dizia, preocupada. "O que aconteceu?" Ele não podia explicar a verdade sobre o renascimento, então apenas balançava a cabeça, a dor presa em sua garganta.
Então veio o acidente. Um motorista bêbado o atingiu em cheio. Enquanto estava deitado na estrada, sangrando e perdendo a consciência, seu último pensamento foi para ela. E agora, acordando neste quarto de hospital, ele percebia a terrível verdade. A vingança dela estava apenas começando.
"Sofia, nós precisamos conversar," ele disse, tentando se sentar.
Uma dor aguda o atingiu e ele gemeu, caindo de volta nos travesseiros. Sofia o observou com o mesmo olhar distante.
"Não temos nada para conversar," ela disse. "Descanse. Você precisa se recuperar."
Ela se virou para sair, mas parou na porta. Sem olhar para trás, ela disse algo que fez o sangue de Pedro gelar.
"A propósito, você deveria ter mais cuidado ao dirigir em dias de chuva. Especialmente naquela curva perto da ponte velha. Traz más lembranças, não acha?"
A ponte velha. O local do acidente fatal na vida anterior. Ninguém além deles dois sabia daquele detalhe. Seus olhos se arregalaram em choque. Ela também se lembrava. Ela também havia renascido. E tudo o que ela estava fazendo não era indiferença. Era vingança.
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