
Vingança e Recomeço: Amor ou Dor?
Capítulo 3
O choque da revelação deixou Pedro sem palavras. Ele olhou para a porta por onde Sofia havia saído, o coração batendo descontroladamente contra as costelas. Ela também se lembrava. Todo esse tempo, a frieza dela não era falta de amor, era a antessala do inferno que ela estava preparando para ele.
Ele tentou confrontá-la no dia seguinte, quando ela voltou para uma visita fria e protocolar.
"Você se lembra, não é?" ele perguntou diretamente, a voz fraca, mas firme. "Você se lembra da outra vida."
Sofia arrumava um vaso de flores na mesa de cabeceira, sem olhá-lo. Ela deu um sorriso forçado e condescendente.
"Pedro, querido, o acidente afetou sua cabeça? Que outra vida? Pare de falar bobagens e se concentre em melhorar," ela disse, o tom de voz como se estivesse falando com uma criança confusa. A negação era tão perfeita, tão calma, que por um momento ele quase duvidou de si mesmo. Mas o olhar dela, quando finalmente o encontrou, continha uma escuridão que confirmava tudo.
Ela não ficou muito tempo. Disse que tinha um compromisso importante e saiu, deixando-o sozinho com seus pensamentos tumultuados. Mais tarde, pela janela do quarto, ele a viu do lado de fora. Ela não estava sozinha. Um homem mais jovem, bonito e sorridente, abriu a porta do carro para ela. Thiago. Ele o conhecia de alguns eventos sociais. Sofia entrou no carro e, antes de partir, ela olhou para cima, diretamente para a janela de Pedro, e deu a Thiago um beijo rápido, mas deliberado.
O gesto foi uma faca em seu peito. Ele sentiu o gosto amargo do abandono, da substituição. Ela estava o forçando a assistir, a sentir exatamente a mesma dor que ela sentiu quando ele a negligenciava.
A solidão no quarto do hospital se tornou uma tortura. Cada bipe das máquinas era uma contagem regressiva para o próximo ato de vingança dela. Ele sabia que não podia continuar assim. O amor que ele sentia por ela era avassalador, mas a dor que ela estava infligindo era insuportável. Com o coração pesado de uma tristeza infinita, ele tomou uma decisão.
Ele ligou para seu advogado.
"Prepare os papéis do divórcio," ele disse, a voz embargada. "Eu vou assinar."
No dia em que recebeu alta, seus pais o levaram para casa. Dona Clara ainda estava se recuperando, pálida e fraca, mas viva. O alívio de vê-la bem foi a única luz em meio à escuridão de Pedro.
Os papéis do divórcio chegaram alguns dias depois. Pedro os pegou com as mãos trêmulas. Cada cláusula era um prego em seu caixão. Ele releu o nome dela, "Sofia", e o seu, "Pedro", unidos por um "versus" legal. Com a caneta pairando sobre a linha de assinatura, ele hesitou. Uma parte dele ainda gritava para não desistir, para lutar por ela, para fazê-la ver seu arrependimento.
Mas então, a imagem dela beijando Thiago voltou à sua mente. A frieza em seus olhos. A ameaça à sua mãe. Ele sabia que não havia mais volta. Com um suspiro profundo que carregava todo o peso de duas vidas, ele assinou. A ponta da caneta arranhou o papel, um som definitivo, final.
Ele pediu ao advogado que entregasse os papéis a Sofia pessoalmente, para evitar um confronto direto. Ele não achava que seu coração pudesse suportar mais uma interação com ela.
Alguns dias depois, o advogado ligou. "Ela assinou," disse ele. "Não fez nenhuma pergunta. Apenas assinou, como se estivesse assinando um recibo de entrega."
A indiferença dela foi o golpe final. Para ela, o fim do casamento deles não significava nada. Naquela mesma noite, houve uma festa de gala da empresa da família de Sofia. Pedro, ainda se recuperando, foi obrigado a comparecer por insistência de seus pais, que não sabiam do divórcio e queriam manter as aparências.
Lá, ele a viu. Sofia estava deslumbrante em um vestido vermelho, rindo e conversando com Thiago ao seu lado. Ela o segurava pelo braço, uma demonstração pública de afeto. Em um determinado momento, eles passaram por Pedro sem sequer olhá-lo. Foi quando ele ouviu a voz dela, alta e clara o suficiente para que todos ao redor ouvissem.
"Thiago, querido, você acha que devemos anunciar nosso noivado esta noite?"
O salão pareceu silenciar. Todos os olhos se voltaram para Pedro. A humilhação foi pública, brutal. Ele sentiu o rosto queimar, o ar faltar em seus pulmões. Ele era o marido, e ela estava anunciando seu noivado com outro homem na frente dele.
Ele se virou para sair, mas Sofia o barrou.
"Pedro, que surpresa te ver aqui," ela disse com um sorriso falso. "Você não parece bem. A recuperação está difícil?"
"Sofia, por favor..." ele sussurrou, implorando com os olhos.
Thiago se aproximou, colocando um braço protetor ao redor de Sofia. "Amor, deixe-o em paz. Ele parece que vai desmaiar. Talvez precise de um copo d'água."
A condescendência de Thiago, orquestrada por ela, era enlouquecedora. O avô de Sofia, um senhor gentil que sempre gostou de Pedro, se aproximou para tentar acalmar a situação.
"Sofia, Pedro, o que está acontecendo aqui? Vamos conversar em particular."
"Não há nada para conversar, vovô," disse Sofia, a voz ainda alta. "Pedro e eu estamos nos divorciando. Na verdade, acho que ele já deveria ter recebido os papéis. Ele só está fazendo uma cena porque não aceita o fim."
Ela o pintou como o vilão, o marido rejeitado e patético. A mentira era tão descarada que Pedro ficou sem reação. Ele se sentia preso em um pesadelo, forçado a desempenhar um papel que ela havia escrito para ele. A noite se arrastou, com Pedro sendo forçado a ficar, a assistir Sofia e Thiago desfilarem seu "amor" para todos, enquanto ele se tornava o alvo de sussurros e olhares de pena. Cada minuto era uma nova camada de humilhação, e ele sabia, com uma certeza aterrorizante, que ela estava apenas começando.
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