
Vingança E Amor: Um Recomeço
Capítulo 3
O carro preto dobrou a esquina e sumiu. O silêncio que se seguiu foi pesado. Eu esperei um, dois, cinco minutos, apenas para ter certeza de que eles não voltariam.
Meu coração estava calmo, uma calmaria assustadora.
Então, comecei a atuar.
"Lucas?", chamei, minha voz soando um pouco mais alta do que o normal.
Andei pela calçada, olhando para os dois lados da rua como se estivesse procurando por ele.
"Lucas, cadê você? A brincadeira acabou!"
Eu andei devagar, de propósito, arrastando o tempo. Cada segundo que passava era um prego a mais no caixão do seu retorno. Fui até o pequeno parque onde costumávamos brincar, um lugar que eu sabia que ele não estava. Chamei seu nome mais algumas vezes, minha voz agora tingida com uma falsa urgência.
Depois de uns vinte minutos, voltei para casa.
Minha mãe estava na cozinha, preparando o jantar. O cheiro de refogado enchia o ar.
"Mãe", eu disse, tentando fazer minha voz tremer. "Eu não consigo encontrar o Lucas."
Ela se virou, a preocupação imediatamente marcando seu rosto.
"Como assim não consegue encontrar? Ele não estava com você?"
"Estava, mas ele correu na frente. Eu o perdi de vista por um segundo e... ele sumiu."
A espátula caiu da mão dela, fazendo um barulho metálico no chão.
"O quê? Sofia, para de brincadeira!"
"Não é brincadeira, mãe. Eu já procurei por toda parte. Ele não está em lugar nenhum."
O pânico tomou conta dela. Ela tirou o avental e correu para a porta, gritando o nome de Lucas. Meu pai, que estava lendo o jornal na sala, levantou-se abruptamente.
"O que aconteceu?"
"O Lucas sumiu!", minha mãe gritou, já com lágrimas nos olhos.
A tranquilidade da nossa casa se desfez em segundos. Meus pais correram para fora, gritando o nome dele, perguntando aos vizinhos. Eu os segui, fingindo desespero, o rosto contorcido em uma máscara de preocupação.
Depois de uma hora de buscas infrutíferas, meu pai, com o rosto pálido e as mãos tremendo, ligou para a polícia.
Dois policiais vieram. Fizeram perguntas. Anotaram descrições. Mas não havia testemunhas, nem pistas. Ninguém viu um carro preto, ninguém viu nada. Eu não mencionei o carro. Na minha história, ele simplesmente desapareceu.
A noite caiu, e com ela, uma sensação de desespero se instalou em nossa casa. A polícia disse que esperaria 24 horas antes de iniciar uma busca em larga escala, pois era comum crianças se esconderem e aparecerem depois.
Mas eu sabia que ele não apareceria.
Minha mãe chorava no sofá, abraçada ao meu pai, que tentava parecer forte, mas cuja voz falhava a cada frase. Eu me aproximei e os abracei.
"Vai ficar tudo bem", eu menti, sentindo o calor do corpo deles.
Minha mãe me puxou para perto, afagando meu cabelo.
"Oh, minha filha... você deve estar tão assustada. Não foi sua culpa, querida. Não foi sua culpa."
Eu encostei minha cabeça no ombro dela, deixando as lágrimas falsas rolarem. Por dentro, eu sentia uma frieza calculada. Não era culpa minha. Era escolha dele. E agora, eu tinha meus pais só para mim. Todo o amor, toda a atenção, toda a energia que antes era dividida, agora seria minha.
A vingança havia começado.
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