
Vingança de Uma Mãe Renegada
Capítulo 2
Seis anos.
Seis anos longe do Brasil, longe da minha filha.
O avião particular pousou em uma pista discreta nos arredores de São Paulo, longe dos olhares curiosos. Eu, Maria Eduarda, ou Duda, como meus amigos me chamavam, estava de volta. O mundo me conhecia como uma chef de cozinha genial, dona de um império gastronômico, mas poucos sabiam da minha outra vida, dos anos servindo em uma agência de inteligência culinária secreta, um disfarce perfeito para missões que ninguém poderia imaginar.
Meu retorno era um segredo. Ninguém sabia. Nem meus três melhores amigos de infância, Ricardo, Gustavo e Leonardo, a quem confiei o que eu tinha de mais precioso: minha filha, Sofia.
Deixei para trás uma menina de doze anos, vibrante e cheia de vida, e uma fortuna em um fundo fiduciário para garantir que nada lhe faltasse. Confiei neles cegamente, eles eram minha família.
Agora, com uma aparência levemente alterada por procedimentos discretos, parte do protocolo da agência, eu caminhava em direção à escola de elite onde minha filha deveria estar terminando mais um dia de aula. O coração batia forte no peito, uma mistura de saudade e ansiedade.
Meu plano era simples: observá-la de longe, sentir o terreno, e depois aparecer para a maior surpresa de sua vida.
Mas o que vi quebrou meu coração em um milhão de pedaços.
Perto do portão da escola, um grupo de meninas cercava uma garota solitária. Ela era magra, pálida, com os ombros encolhidos como se quisesse desaparecer. Sua cabeça estava baixa, o cabelo caindo sobre o rosto.
A líder do grupo, uma garota vestida da cabeça aos pés com roupas de grife que gritavam riqueza, empurrou a menina encolhida.
"Você acha que pode simplesmente pegar o que é meu, sua ladra?" a garota rica cuspiu as palavras.
A menina magra não respondeu, apenas se encolheu ainda mais.
Então, a mão da líder voou pelo ar.
TAPA!
O som estalou no ar parado da tarde, ecoando nos meus ouvidos como um tiro. A cabeça da menina magra virou com a força do golpe, uma marca vermelha florescendo em sua bochecha pálida.
Meu sangue gelou. Fiquei paralisada, escondida atrás de uma árvore do outro lado da rua. Uma fúria que eu não sentia há anos começou a ferver dentro de mim.
Naquele exato momento, três carros de luxo pararam com um zunido suave na frente da escola. As portas se abriram e de dentro saíram Ricardo, Gustavo e Leonardo. Meus amigos. Os guardiões da minha filha.
Eles pareciam diferentes. Mais ricos, mais arrogantes. Os ternos caros, os relógios brilhantes. A ambição tinha mudado seus rostos.
A garota de grife, a agressora, viu os três homens e seu rosto se contorceu em uma máscara de falsa dor. Ela correu na direção deles, se jogando nos braços de Ricardo.
"Padrinhos! A Camila roubou minha caneta!" ela choramingou, apontando para a menina que acabara de agredir.
Camila?
Meu cérebro parou. Camila era o nome da filha da minha governanta, a senhora que eu contratei para ajudar a cuidar da casa e de Sofia. Eu havia providenciado para que Camila estudasse na mesma escola, para que minha filha tivesse uma companhia familiar.
A menina agredida era a Camila? Senti um alívio misturado com raiva. Ninguém deveria ser tratado assim, mas pelo menos não era a minha Sofia.
Antes que eu pudesse processar tudo, a minha antiga governanta, também chamada Camila, apareceu correndo. Ela não foi consolar a própria filha. Em vez disso, ela foi direto para a menina agredida e a empurrou com força.
A menina, já desequilibrada, caiu no chão.
"Vagabunda é vagabunda, igual ao seu pai, não tem classe. Ajoelhe-se e lamba os sapatos da senhorita Patrícia!" a governanta gritou, sua voz cheia de veneno.
Patrícia?
O mundo girou. Patrícia era o nome da minha filha. O nome que eu dei a ela. O nome que estava na certidão de nascimento dela, Sofia Patrícia, mas todos a chamavam de Patrícia.
Não. Não podia ser. Eu estava confundindo tudo. O choque, a viagem, o tempo longe.
Me belisquei com força na coxa, a dor aguda me forçando a manter a calma. Eu precisava pensar, analisar. Não podia haver um erro tão monstruoso.
Outro tapa estalou, desta vez desferido pela garota de grife, a tal "Patrícia". O corpo magro da menina no chão bateu contra a parede próxima.
"Camila, uma vagabunda como você não merece uma caneta Montblanc. Sabe quanto custa? Dá para comprar sua vida dez vezes!" a garota rica disse, esfregando o pulso como se o esforço a tivesse cansado.
Ricardo, Gustavo e Leonardo não fizeram nada, apenas olhavam com uma mistura de aprovação e indiferença.
Escondida, peguei meu celular. Meu contato na agência me forneceu um número descartável. Disquei o número da governanta, Camila. Minhas mãos tremiam.
Ela atendeu, a voz um pouco nervosa. "Alô?"
"Camila, sou eu," eu disse, tentando manter minha voz neutra.
Houve um silêncio do outro lado. "Senhora... senhora Duda? É a senhora mesmo?"
"Sim. Como está minha filha? Como está a Patrícia?"
A governanta gaguejou. "A Patrícia? Ah, ela está ótima! Maravilhosa! Ganhou um concurso de piano semana passada, a senhora acredita? O Sr. Ricardo ficou tão orgulhoso que lhe deu um colar de diamantes."
A descrição batia com a garota de grife. O alívio voltou a me invadir, mas ainda havia uma ponta de dúvida.
"Que bom ouvir isso. Pode me mandar uma foto atual dela? Estou com tantas saudades," pedi.
"Ah, claro, senhora! Mas... agora estou um pouco ocupada, sabe como é. Assim que chegar em casa, eu mando."
Ela estava enrolando. Senti isso. Mas alguns minutos depois, meu celular vibrou. Uma foto. Era uma foto de Patrícia, minha filha, mas... era uma foto antiga. De uns quatro ou cinco anos atrás. O rosto ainda infantil, o sorriso que eu conhecia tão bem.
Respirei fundo. Eu estava errada. A adrenalina estava me pregando peças. A menina agredida era mesmo a Camila. E a governanta, por algum motivo doentio, estava maltratando a própria filha para agradar a minha. E meus amigos, meus "padrinhos", eram cúmplices dessa crueldade.
Ainda assim, algo não se encaixava.
A forma como a garota rica se jogou nos braços deles. A forma como a governanta a defendeu com unhas e dentes. A forma como todos eles olhavam para a menina caída no chão com um desprezo que ia além de uma simples briga por uma caneta.
Era um desprezo profundo, antigo, como se aquela menina fosse a personificação de algo que todos eles odiavam.
E o olhar da menina no chão... quando ela ergueu a cabeça por um instante, por baixo do cabelo sujo e da humilhação, eu vi um brilho. Um brilho de resiliência. Um brilho que me lembrava... a mim mesma.
A suspeita, como uma semente venenosa, começou a brotar no meu coração. Uma suspeita tão terrível, tão monstruosa, que eu mal conseguia respirar.
Como eu poderia confundir minha própria filha?
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