
Vingança de Uma Mãe Renegada
Capítulo 3
Fiquei ali, paralisada, observando a cena se desenrolar como um pesadelo.
A governanta, Camila, agarrou o braço da menina magra e a forçou a se levantar.
"Peça desculpas agora!" ela sibilou.
A menina, que eles chamavam de Camila, mas que meu coração gritava ser Sofia, olhou para a garota rica, a "Patrícia". Seus lábios tremeram, mas nenhum som saiu.
A governanta a sacudiu com violência. "Você está surda? Peça desculpas para a senhorita Patrícia!"
Observei o corpo da menina. Era tão magro que os ossos do pulso pareciam que iam rasgar a pele. O uniforme escolar, que deveria ser impecável, estava surrado e grande demais para ela, como se fosse de segunda mão. Havia um hematoma amarelado aparecendo perto da gola da sua camisa, um sinal de uma agressão mais antiga.
Isso não era um incidente isolado. Isso era um padrão. Anos de abuso gravados naquele corpo frágil.
Ricardo, o homem que um dia me prometeu amor eterno e que eu considerei o mais leal de todos, se aproximou. Ele não olhou para a menina no chão. Ele se dirigiu à garota rica, ajeitando uma mecha de cabelo dela com uma ternura paterna que me revirou o estômago.
"Não se preocupe, meu amor. O padrinho vai resolver isso. Essa gentinha não vai mais te incomodar," ele disse, sua voz suave e perigosa.
Ele se virou para a menina magra, e seu rosto se transformou. A ternura desapareceu, substituída por um desprezo gelado.
"Você não aprende, não é, Camila? Quantas vezes vamos ter que te ensinar a não tocar no que não é seu?"
Gustavo e Leonardo concordaram com a cabeça, seus rostos eram máscaras de indiferença. Eram como estátuas de mármore, frias e sem vida. Os amigos calorosos e divertidos que eu conhecia estavam mortos.
Foi então que a governanta, Camila, se revelou em sua nova forma. Ela não era mais a mulher humilde e de fala mansa que eu contratei. Ela usava um vestido de seda, sapatos de salto alto e uma bolsa de couro que custava mais do que seu salário de um ano. Sua postura era ereta, seu queixo erguido. Ela não era uma empregada, ela se portava como a dona do lugar.
Essa transformação, essa riqueza repentina, era mais um alarme soando na minha cabeça.
Ela se aproximou da filha, a verdadeira Camila, que agora se passava por Patrícia, e a abraçou.
"Não chore, meu anjo. Mamãe está aqui."
Mamãe? A governanta estava se chamando de mãe da minha filha na frente de todo mundo? Não, não... da "Patrícia". A confusão era um nó apertado no meu cérebro.
A governanta então se virou para a menina caída, a minha Sofia. Ela agarrou seu cabelo com força, forçando-a a olhar para cima.
"Sua mãe era uma vagabunda que te abandonou. E seu pai... bem, ninguém nem sabe quem é o lixo do seu pai. Você não tem nada, não é ninguém. Sua única função na vida é servir a senhorita Patrícia. Entendeu?"
As palavras me atingiram como socos. Ela estava falando de mim. Ela estava envenenando minha filha com mentiras cruéis.
E foi nesse momento que aconteceu.
A menina magra, minha Sofia, ergueu o rosto. As lágrimas escorriam por suas bochechas sujas, mas seu olhar encontrou o meu, do outro lado da rua. Por um segundo, apenas um segundo, o mundo inteiro desapareceu.
Naquele olhar, eu vi tudo. A dor, a solidão, a confusão. Mas vi outra coisa. Vi a bondade que eu sabia que ela tinha. Vi a força que ela herdou de mim.
E então, ela sussurrou, um som tão baixo que foi quase inaudível, um segredo que o vento carregou até mim.
"Flor..."
Meu corpo inteiro se arrepiou. Meu apelido secreto para ela. Quando ela era pequena e caía, em vez de chorar, ela sempre olhava para a flor mais próxima. Eu dizia que ela era minha pequena flor, resiliente e sempre buscando a luz. Ninguém, absolutamente ninguém além de nós duas, sabia desse apelido.
A verdade me atingiu com a força de um trem desgovernado.
Aquela menina era Sofia.
Minha filha.
A garota rica era uma impostora.
Meus amigos eram traidores.
Minha governanta era um monstro.
A fúria, antes uma semente, explodiu dentro de mim como um vulcão. Sem pensar, sem planejar, eu saí de trás da árvore e comecei a atravessar a rua. Meus punhos estavam cerrados com tanta força que minhas unhas cravaram na minha pele.
Eu não era mais a chef de cozinha. Eu não era mais a agente secreta.
Eu era uma mãe. E eles tinham machucado a minha filha.
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