
Vínculo Vital Rompido
Capítulo 2
Heitor sentou-se no sofá em frente a mim, a xícara de café intocada sobre a mesa de centro. Ele parecia ter dificuldades para encontrar as palavras, o que era raro.
Finalmente, ele olhou para mim.
"Clara, eu quero que você tenha um filho para mim."
Eu fiquei em silêncio, sentindo o ar da sala ficar pesado. Nós éramos casados há cinco anos, mas não tínhamos filhos. Não porque não pudéssemos, mas porque ele não queria.
Ele continuou, sua voz baixa, mas firme.
"Vanessa não pode ter filhos. O médico confirmou. Ela ficou arrasada."
Vanessa. A amante dele. A mulher com quem ele passava a maior parte das noites.
Ele me pedia para gerar um filho para sua amante.
A exigência era tão absurda que eu não senti raiva, apenas um vazio gelado se espalhando pelo meu peito. A rachadura em nosso casamento não era mais uma rachadura, era um abismo.
"Então você quer que eu seja uma barriga de aluguel," eu disse, com a voz sem emoção.
"Não fale assim," ele franziu a testa, como se eu tivesse dito algo ofensivo. "É para nós. Para salvar nossa família. Vanessa e eu... nós já somos uma família. Este bebê nos unirá para sempre. E você, você fará parte disso."
Minha mente estava uma bagunça. Eu me senti presa, como sempre me sentia com ele. Havia um segredo profundo que me amarrava a Heitor, uma corrente invisível que sugava minha força vital dia após dia. Eu não podia simplesmente ir embora. Não era tão simples. Aceitar essa humilhação parecia, de alguma forma, o único caminho a seguir.
"Tudo bem," eu sussurrei. A palavra saiu da minha boca antes que eu pudesse detê-la.
O alívio no rosto de Heitor foi imediato e nauseante. Ele se levantou, veio até mim e me abraçou com uma ternura que não sentia há anos.
"Eu sabia que você entenderia, meu amor. Você sempre foi a mais compreensiva."
Seu abraço era quente, suas palavras eram doces, mas suas ações gritavam traição. Ele me soltou e começou a andar pela sala, já planejando o futuro.
"Vamos precisar de um contrato, claro. Advogados. Tudo certinho. E vamos precisar de mais espaço. Um quarto para o bebê."
Ele parou e olhou para o nosso antigo álbum de fotos, aquele com as fotos do nosso casamento, em uma prateleira.
"Podemos jogar fora essas coisas velhas. Abrir espaço para novas memórias."
Ouvir aquilo doeu, mas era uma dor familiar. Eu já estava anestesiada para a maioria das suas crueldades. Eu me levantei e caminhei em direção ao escritório, o lugar onde guardávamos nossos documentos importantes. Eu sabia o que ele queria que eu fizesse a seguir.
"Antes de tudo, precisamos assinar os papéis do divórcio," ele disse atrás de mim, confirmando minhas suspeitas. "É só uma formalidade. Para que eu possa me casar com a Vanessa e o bebê ter nosso sobrenome. Mas nós três seremos uma família."
Ele colocou os papéis na mesa. Minha mão tremia enquanto eu pegava a caneta. Tudo dentro de mim gritava para eu parar, para fugir. Mas eu não podia.
Quando a ponta da caneta tocou o papel, uma luz azul fraca brilhou na minha frente. Letras flutuantes apareceram no ar, visíveis apenas para mim.
[AVISO DO SISTEMA: O VÍNCULO VITAL ESTÁ LIGADO AO AMOR DO ANFITRIÃO. O DIVÓRCIO CORTARÁ O VÍNCULO.]
[CONSEQUÊNCIA: MORTE DA USUÁRIA EM 30 DIAS.]
Minha mão congelou. O ar fugiu dos meus pulmões. O zumbido no meu ouvido ficou mais alto que a voz de Heitor, que me apressava para assinar.
"Vamos, Clara, assine logo. Temos muito o que fazer."
Eu olhei para ele, o homem que um dia amei, e depois para o aviso mortal flutuando no ar.
Eu estava em uma armadilha sem saída.
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