
Vínculo Vital Rompido
Capítulo 3
O sistema era a minha maldição. Anos atrás, eu salvei Heitor de um acidente de carro quase fatal. Eu não sei como, mas naquele momento, um "sistema" se ativou, ligando minha força vital ao amor dele por mim. A interface me explicou tudo em um instante aterrorizante: enquanto ele me amasse, eu viveria. Se o amor dele acabasse, minha vida também acabaria. Nos primeiros anos, eu era saudável e feliz. Mas à medida que o amor dele se desvanecia, minha saúde se deteriorava. Eu vivia com uma fadiga constante, uma palidez que nenhuma maquiagem conseguia esconder. O divórcio seria o golpe final, a prova definitiva de que o amor dele não existia mais.
Eu não assinei os papéis naquele dia. Disse a Heitor que precisava de um tempo para pensar, uma desculpa fraca que ele aceitou com impaciência.
Dois dias depois, a prova da pressa dele apareceu no meu feed de notícias. Heitor havia postado uma foto com Vanessa em um restaurante caro. Ela exibia um anel de noivado. A legenda era uma facada.
"Para o meu verdadeiro amor, Vanessa. Nosso futuro começa agora. Mal posso esperar para construir nossa família."
O post estava cheio de comentários de parabéns de amigos em comum que claramente já sabiam de tudo. A humilhação foi pública e avassaladora. Ele nem sequer esperou o divórcio para anunciar seu novo noivado. A raiva borbulhou dentro de mim, uma emoção rara nos últimos anos de apatia.
Minha mente voltou no tempo, para quando nos conhecemos. Ele era diferente. Ele me trazia sopa quando eu ficava doente, segurava minha mão durante filmes de terror e me ligava só para dizer que estava com saudades. Naquela época, seu amor era tão forte que eu me sentia invencível. Onde estava aquele homem? Ele se perdeu em algum lugar ao longo do caminho, substituído por esse estranho egoísta e cruel. A lembrança daquele amor perdido era mais dolorosa do que a traição atual.
Apesar de tudo, eu tinha responsabilidades. No dia seguinte, fui visitar os pais de Heitor. Eles não sabiam sobre Vanessa ou o divórcio. Para eles, eu ainda era a nora perfeita. Levei seus doces favoritos da padaria do bairro.
"Clara, querida! Que bom ver você," disse a mãe de Heitor, Sônia, me abraçando na porta. "Você está tão pálida. Heitor não está cuidando de você direito?"
"Estou bem, Sônia. Só um pouco cansada do trabalho," menti.
Nós nos sentamos na sala de estar, e o pai de Heitor, Roberto, se juntou a nós. Eles sempre foram gentis comigo, mais pais para mim do que meus próprios pais, que faleceram há muito tempo.
"Heitor nos disse que vocês estão pensando em se mudar para uma casa maior," disse Roberto. "Já era hora. Este apartamento está ficando pequeno para um futuro neto."
Meu coração apertou.
Sônia percebeu meu silêncio. "Falando em Heitor, ele mencionou uma colega de trabalho nova... Vanessa, eu acho? Ele parece passar muito tempo com ela."
Havia um tom de desaprovação em sua voz.
"Ela não me parece o tipo certo para ele," Sônia continuou, tomando um gole de seu chá. "Uma vez a vi no escritório dele. Muita maquiagem, roupas chamativas. Você, Clara, você é família. Você é a nossa única nora."
Naquele exato momento, Heitor entrou pela porta. Ele parou abruptamente ao me ver sentada no sofá com seus pais. O pânico brilhou em seus olhos por um segundo antes de ele compor uma máscara de normalidade.
"Clara! Querida, o que você está fazendo aqui? Achei que estivesse descansando."
"Sua esposa veio nos visitar, filho. Coisa que você raramente faz," disse Roberto, com um tom severo.
Heitor ficou visivelmente desconfortável. Ele se sentou na beirada da poltrona, evitando meu olhar. Ele tentou puxar conversa, falar sobre trabalho, sobre o tempo, mas a tensão na sala era palpável. Ele estava mentindo, fingindo, e todos, exceto seus pais, sabiam disso. Sua hipocrisia era tão clara quanto o dia, um espetáculo patético de um homem tentando manter mundos separados que estavam prestes a colidir.
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