
Verônica.
Capítulo 3
Jonathan teve que acordar cedo na manhã seguinte, mesmo tendo dormido pouco. Ele tinha que estar no hospital às 8:30, para iniciar seu trabalho. Mas ele também não conseguia tirar Verônica da cabeça. Ele lembrava da conversa que tiveram, do sorriso e da voz dela. Uma confusão o tomou durante muitas horas por pensar em tudo aquilo, além de fazê-lo se sentir culpado. Ele amava a sua esposa, mas também tinha curiosidade em conhecer mais da tatuada.
Ele tentou esquecer isso, fingiu que era só uma curiosidade normal por Verônica ser tão desinibida, pois pessoas assim atraíam olhares. Qualquer um naquela festa que não a conhecia devia ter sentido algo semelhante e era só isso.
Esse pensamento o aliviou um pouco e sua atenção se voltou para a ausência de Cátia. Ela tinha avisado aos filhos que tinha uma viagem urgente, mas não tinha dado satisfação ao marido. Jonathan suspirou, eles teriam uma discussão séria quando ela voltasse e ele sabia que isso acabaria em uma tempestade entre eles.
Ele já tinha acordado de mau humor, mas ele se esforçou para disfarçar isso diante dos seus clientes.
Jonathan chegou ao hospital às 8:15, e foi direto para o seu consultório. Seu trabalho era um dos mais importantes daquele prédio, pois ele era um renomado especialista em cardiologia. Tinha uma agenda cheia, e muitos pacientes para atender. Jonathan gostava do seu trabalho, e se sentia realizado em ajudar as pessoas, mas ele também se sentia cansado e sobrecarregado. Eram muitas responsabilidades estar onde ele estava e havia poucas diversões. Sua rotina se tornou monótona ao passar dos anos, com poucas surpresas. Assim como sua vida se tornara estável, mas pouco emocionante.
Naquele dia, ele atendeu o seu primeiro paciente, um senhor de 73 anos, que sofria de hipertensão. O examinou, e lhe receitou alguns medicamentos. O aconselhando a fazer exercícios, e a controlar o estresse. Logo o dispensou para chamar o próximo paciente.
Em sequência recebeu uma senhora de 65 anos, com problema cardíaco. Ele a examinou, e lhe indicou uma cirurgia, mas a tranquilizou dizendo que tudo ia dar certo. Deu-lhe o encaminhamento para o cirurgião, e chamou o próximo paciente.
Dessa vez, Jonathan recebeu um rapaz de 23 anos, que tinha um sopro no coração. Ele o examinou, e lhe acalmou dizendo que não era grave. Orientou o rapaz a seguir uma dieta balanceada e algumas atividades rotineiras, assim ele podia levar uma vida normal. Logo o liberou, e chamou o próximo paciente.
Jonathan continuou assim, atendendo um paciente atrás do outro, sem parar. Estava concentrado, e mantinha o profissionalismo constante. Sempre atento, e cuidadoso.
No intervalo do almoço, ele olhou as mensagens no seu celular e encontrou um texto longo da sua esposa dizendo que ele não tinha que ligar tanto, pois ela estava ocupada e logo falaria com ele. Jonathan suspirou, farto de ouvir as mesmas desculpas.
Ele viu a próxima mensagem do seu filho, que estava em pânico, pois tinha digitado em letras maiúsculas.
“PAI! PELO AMOR DE DEUS! PEGA O CELULAR DA VERÔNICA NO QUARTO DA BIA? A GENTE NÃO VAI TER TEMPO DE PASSAR EM CASA ANTES DA FACULDADE E ELA PRECISA DO CELULAR PARA TRABALHAR.”
“Filho, não precisa escrever em caps lock. Eu pego, tá?”
Jonathan respondeu ao filho e pegou suas coisas para sair dali e ir para o seu carro.
Em quinze minutos ele chegou em casa e foi direto para o quarto da filha. Ao abrir a porta, se deparou com uma bagunça. Havia roupas espalhadas pelo chão, livros jogados na cama, maquiagens abertas na penteadeira. Jonathan revirou os olhos ao lembrar que era uma guerra constante fazer Bia limpar aquele lugar, seria difícil encontrar qualquer coisa ali, mas, mesmo assim, procurou pelo celular de Verônica.
Ele o encontrou em cima da mesa de cabeceira, ao lado de uma foto da tatuada com os seus filhos. Todos pareciam felizes no dia.
Jonathan desviou sua atenção, pegou o celular e o guardou no bolso. Ele saiu do quarto, e fechou a porta jurando que jamais entraria ali de novo.
Desceu as escadas, e foi para a cozinha. Ele abriu a geladeira, pegou uma garrafa de água. Por fim voltou para seu carro e ligou o motor.
Seus filhos tinham emprego na escola perto do hospital. Bia e Fernando atuavam como assistentes na secretaria e Jonathan acabara de saber que Verônica era colega de trabalho deles.
Ele parou o carro na entrada da secretaria e avistou a garota tatuada batendo papo com duas mulheres na escadaria. Ela vestia uma calça bailarina que realçava suas curvas e uma cropped rosa lisa, estava sem os piercings que usava na noite anterior, provavelmente por exigência da escola. Seus cabelos negros estavam presos em um rabo de cavalo volumoso que dava um ar descontraído ao seu visual. Mas ela contrastou toda a elegância do look com seus tênis all star.
As duas mulheres se despediram da garota com um abraço e seguiram em direção a Jonathan para irem embora, fazendo Verônica fixar o olhar no homem alto que estava no topo das escadas.
— E aí, paizão! — Ela o cumprimentou e Jonathan esboçou um sorriso tímido descendo as escadas para encontrar a garota.
— Fernando me pediu para te entregar o seu celular — ele disse, se aproximando e tirando o telefone do bolso para dar à garota.
— Muito obrigada! Você é um anjo! — Ela pegou o aparelho e o abraçou, depois deu um beijo no celular. Seu batom rosa deixou uma marca na tela. — Eu saí correndo da casa de vocês e esqueci esse tesouro aqui. O passeio das crianças ia ser um desastre sem ele. Porque só eu tenho os contatos dos ônibus e tudo mais.
— Você é a responsável pelos passeios esse ano? — Jonathan perguntou, lembrando que Bia tinha se estressado com essa tarefa no ano passado.
— Na verdade, eu faço de tudo um pouco até a biblioteca ficar pronta.
— Interessante — ele sorriu, mas Verônica estava distraída demais lendo as mensagens perdidas no seu celular para perceber. — E como vão os preparativos para o passeio?
Ele perguntou, tentando puxar assunto. Aquela vontade de saber mais sobre ela o consumiu novamente.
— Hã? Ah, tudo bem, nenhum cancelamento pelo menos— ela respondeu, sem tirar os olhos do celular.
Um nervosismo a tomou naquele instante quando seus olhos leram a mensagem do seu ex-namorado querendo conversar com ela.
Tinham terminado há dois meses, e aparentemente ele ainda não tinha superado. Embora Verônica ainda gostasse dele, não o queria mais em sua vida.
— Que bom — Jonathan entrou em sua cabeça tirando-a daquela tensão.
O médico percebeu que ela não estava ligada no assunto deles e que seus olhos tinham tomado um ar de angústia.
— Bom, eu tenho que ir — Verônica respirou fundo, guardando o celular na bolsa. — Muito trabalho para fazer. Obrigada mesmo paizão. Você é meu herói.
Ela se ergueu na ponta dos pés e selou um beijo na bochecha do homem que ficou totalmente extasiado. Verônica adentrou a escola e Jonathan disparou para o seu carro, só recuperando o fôlego quando se fechou lá dentro.
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