
Vento Gelado da Vingança
Capítulo 2
A última sensação foi a do vento gelado batendo no meu rosto.
Depois, um impacto violento e a escuridão total.
Eu, Sofia, tinha morrido.
Empurrada do terraço de um prédio de luxo pela minha ex-melhor amiga, Laura.
Ao lado dela, meu ex-namorado, Pedro, assistia a tudo com um desprezo que me gelou até os ossos, mesmo enquanto eu caía para a morte.
Tudo por vingança. Anos atrás, eles me traíram, armaram para que eu perdesse uma bolsa de estudos no exterior que mudaria minha vida. Enquanto eu lutava para sobreviver, eles subiam na vida.
Mas o destino tem um jeito estranho de acertar as contas. Anos depois, eu era uma profissional de sucesso. Pedro, um empresário falido. Laura, uma socialite decadente que vivia de aparências. O desprezo dele, a inveja dela... culminaram na minha morte.
Mas então, eu abri os olhos.
A luz do sol entrava pela janela do meu antigo quarto, o cheiro de bolo de fubá da minha mãe vinha da cozinha.
Eu estava na minha cama, vestindo meu pijama de flanela.
Um arrepio percorreu meu corpo.
Peguei o celular na mesinha de cabeceira. A tela acendeu. A data era de três meses antes do dia em que eu deveria ter viajado para o intercâmbio. Três meses antes da sabotagem que destruiu minha primeira vida.
Eu renasci.
Uma risada baixa, quase um soluço, escapou dos meus lábios. Eu tinha voltado. Com todas as memórias, toda a dor, e todo o conhecimento do futuro.
Desta vez, as coisas seriam diferentes.
A vingança não era mais um sonho distante, era um plano. E eu sabia exatamente por onde começar.
Na escola, o ar já estava pesado.
Assim que entrei no pátio, vi a cena que confirmou minhas suspeitas.
Pedro e Laura estavam encostados no muro, se beijando de um jeito exagerado, quase teatral. Não era o beijo discreto de um casal novo, era uma performance para uma plateia.
Laura usava um vestido novo e caro, e nos braços dela, uma bolsa de grife que eu sabia que a família dela não podia pagar. Pedro a segurava pela cintura, mas seus olhos não estavam nela.
Seus olhos estavam em mim.
Eles não continham o carinho de um ex-namorado. Havia um brilho frio, um desprezo familiar, o mesmo que ele tinha no terraço.
Meu estômago gelou.
Ele também renasceu.
A compreensão me atingiu como um soco. Não era só eu. Ele também voltou, com as memórias de seu fracasso, de sua falência. E ele estava aqui para tentar de novo, para garantir que seu caminho para o sucesso fosse construído sobre os meus destroços, mais uma vez.
Laura se afastou dele, rindo alto.
"Amor, você é o melhor! Olha isso, meninas!" ela gritou para um grupo de garotas que passava, mostrando a bolsa nova. "Pedro me deu. Ele disse que eu mereço tudo de bom."
Pedro sorriu, um sorriso forçado que não alcançava seus olhos. Ele parecia um ator em um palco, desempenhando um papel.
Notei a rigidez em seus ombros, a maneira como sua mão apertava a cintura de Laura com um pouco de força demais. Ele estava ansioso, inseguro. Ele precisava dessa validação, precisava mostrar a todos que estava no controle, que tinha a garota popular, que era um vencedor.
Laura, por sua vez, parecia cega a tudo isso. Ela estava absorta em seu próprio show, desfilando com a bolsa como se fosse um troféu. Sua inveja e futilidade eram as mesmas, talvez até piores agora que ela também tinha as memórias de uma vida de decadência. Ela queria tudo o que eu tive e o que eu teria, e achava que Pedro era o atalho para isso.
Pobres tolos.
Eu desviei o olhar deles e caminhei para a sala de aula.
O desprezo e a raiva queimavam dentro de mim, mas eu os empurrei para o fundo. Emoções eram um luxo que eu não podia me permitir. Na minha vida passada, eu chorei, gritei, me desesperei. E isso só me levou a um túmulo sem nome.
Desta vez, eu usaria a lógica. A estratégia.
Sentei na minha carteira, no fundo da sala, e abri meu caderno. As fórmulas de física, os conceitos de química... tudo estava lá, fresco na minha mente. A dedicação de anos de estudo na minha vida passada não tinha desaparecido. Na verdade, parecia mais nítida, mais clara.
Enquanto a professora explicava a matéria no quadro, eu já estava resolvendo os exercícios do final do capítulo. Meu cérebro funcionava a todo vapor. Eu não era mais uma estudante esforçada, eu era uma veterana com anos de conhecimento avançado. Esta era a minha vantagem. Enquanto Pedro e Laura estavam ocupados com seu teatro patético, eu estava construindo meu arsenal.
O sinal para o intervalo tocou.
Eu estava organizando minhas anotações para a próxima aula quando uma sombra pairou sobre minha mesa.
Era Laura. Pedro estava logo atrás, com os braços cruzados e um sorriso de escárnio no rosto.
"Sofia, querida," Laura disse com uma voz doce e falsa, "você não cansa de estudar tanto? A vida é mais do que só livros, sabia?"
Antes que eu pudesse responder, ela esbarrou "acidentalmente" na minha pilha de papéis. Minhas anotações, resumos e fichas voaram pelo chão.
"Ops!" ela exclamou, cobrindo a boca com a mão. "Me desculpe. Sou tão desastrada."
A sala inteira ficou em silêncio. Todos os olhos se voltaram para nós. Era uma humilhação pública, um teste. Eles queriam que eu explodisse, que eu chorasse, que eu fizesse uma cena. Era isso que a antiga Sofia faria.
Mas eu não era mais ela.
Eu lentamente levantei meu olhar do chão para o rosto dela.
Não havia raiva nos meus olhos. Não havia dor. Havia apenas um vazio frio.
Sem dizer uma única palavra, eu me levantei.
Não me abaixei para pegar os papéis. Apenas contornei a mesa e saí da sala, passando por eles como se não existissem.
Senti o olhar deles queimando nas minhas costas. Ouvi os sussurros dos outros alunos.
Que olhassem. Que sussurrassem.
O jogo deles era barulhento e sujo. O meu seria silencioso e letal.
A guerra havia apenas começado.
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