
Vento Gelado da Vingança
Capítulo 3
No corredor, Laura me alcançou e segurou meu braço.
"Aonde você pensa que vai?" ela sibilou, a doçura falsa desaparecendo de sua voz.
Pedro estava logo atrás, com a mesma expressão arrogante.
"Solta," eu disse, minha voz baixa e firme.
Laura riu, um som desagradável. "Escuta aqui, Sofia. Fica longe do Pedro. E toma cuidado com o que você bebe por aí. Nunca se sabe o que podem colocar no seu copo."
Meu sangue gelou.
A ameaça era clara, uma referência direta e cruel à noite que arruinou minha primeira vida. A noite da festa de despedida antes do meu intercâmbio.
A memória veio com uma força avassaladora.
Eu estava tão feliz. Tinha conseguido a bolsa para uma das melhores universidades do mundo. Meus pais estavam orgulhosos, meus amigos comemoravam comigo. Laura, minha "melhor amiga", me preparou uma bebida especial, um coquetel colorido que ela disse ser para "celebrar meu sucesso".
Eu bebi tudo, confiando nela.
Vinte minutos depois, eu estava passando mal no banheiro, com cólicas terríveis. A dor era insuportável. Fui levada às pressas para o hospital. O diagnóstico: intoxicação alimentar grave. Fiquei internada por uma semana.
Quando saí, o prazo para aceitar a bolsa e enviar a documentação final já havia passado. A oportunidade se foi.
Na época, pensei que tinha sido azar, uma infeliz coincidência. Só anos depois, quando a vida de Pedro e Laura desmoronou e as verdades amargas vieram à tona em uma briga de bêbados, eu descobri. Não foi intoxicação alimentar. Laura, a mando de Pedro, colocou um laxante fortíssimo e outras substâncias na minha bebida.
Eles me sabotaram porque Pedro não suportava a ideia de eu ter sucesso sem ele. Ele queria que eu ficasse, dependente dele, à sua sombra. E Laura, consumida pela inveja, fez o trabalho sujo.
Agora, aqui estava ela, jogando isso na minha cara.
Meus dedos se fecharam em punho, as unhas cravando na palma da minha mão. A dor física me ajudou a focar, a conter a onda de fúria que ameaçava me consumir.
Eu olhei para ela, depois para Pedro.
Ele, o cérebro por trás de tudo. Egoísta, ambicioso, incapaz de ver alguém brilhar mais do que ele. E ela, sua ferramenta. Tão desesperada por atenção e status que se rebaixou a ser peão no jogo dele.
"Você acha que isso é uma ameaça, Laura?" eu perguntei, minha voz perigosamente calma.
Ela vacilou por um segundo, surpresa com a minha falta de reação.
"É um aviso," ela retrucou, tentando parecer confiante.
Eu soltei uma risada curta e sem humor.
"Avisos são para pessoas que têm algo a perder. Vocês já me tiraram tudo uma vez. Achar que podem fazer de novo com o mesmo truque idiota não é confiança, é estupidez."
Eu puxei meu braço do aperto dela com um movimento brusco e continuei andando, deixando os dois parados no corredor.
A raiva me deu energia. A vingança não era só sobre fazê-los pagar, era sobre garantir que eu vivesse a vida que eles me roubaram. O sucesso seria minha arma mais afiada.
Nos dias seguintes, ficou claro que Pedro e Laura estavam presos ao roteiro da vida passada.
Pedro, confiando na sua memória de que conseguiria entrar em uma boa faculdade de qualquer maneira, parou de estudar completamente.
Ele passava as tardes jogando basquete e as noites levando Laura para jantares e festas. Ele faltava às aulas da tarde e às vezes até matava a aula da manhã para encontrá-la.
O dinheiro para esse estilo de vida vinha de algum lugar, e eu suspeitava que ele já estivesse esvaziando a poupança que seus pais guardavam para a faculdade dele.
Vi Laura no shopping com sacolas de compras, exibindo um celular novo e tênis de edição limitada que Pedro comprou para ela. Ela estava vivendo o sonho de ser a namorada de um cara rico e popular, sem perceber que o castelo deles era construído sobre areia.
Logo, o comportamento deles começou a chamar a atenção.
Pedro, que costumava ser um aluno mediano, agora estava no fundo da classe. Suas notas despencaram. Ele foi pego dormindo na aula de história e tirou um zero em uma prova de matemática.
O coordenador do colégio o chamou para uma conversa. Depois, foi a vez dos pais dele serem chamados.
A notícia se espalhou como fogo. O nome de Pedro foi parar no mural de avisos da diretoria por faltar repetidamente ao período da tarde sem justificativa.
Ele também começou a andar com um grupo de garotos mais velhos, conhecidos por arrumar briga e fumar atrás do ginásio. Eles não eram estudantes sérios, eram o tipo de gente que estava apenas esperando o tempo passar para largar a escola.
Pedro achava que isso o fazia parecer descolado. Na verdade, ele só parecia desesperado.
Uma tarde, eu estava subindo as escadas para a biblioteca quando dei de cara com eles. Pedro, Laura e sua nova turma de "amigos" estavam bloqueando a passagem, rindo alto e fumando.
O cheiro de cigarro era forte.
Laura me viu primeiro.
"Olha só quem está aqui," ela disse, com um sorriso de deboche. "A futura ganhadora do Prêmio Nobel, indo se enfurnar nos livros."
Um dos garotos mais velhos me olhou de cima a baixo. "É essa a sua ex, Pedro? Sem graça. Você fez uma boa troca."
Pedro riu, mas o som foi oco. Ele deu um passo à frente, se colocando no meu caminho.
"Está com pressa, Sofia? Por que não relaxa um pouco com a gente? A vida é curta demais para passar o tempo todo com a cara nos livros."
Ele tentava parecer intimidador, o líder do bando.
Mas tudo que eu via era um menino assustado, repetindo os mesmos erros, cego pela própria arrogância.
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