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Capa do romance Vasectomia e o Segredo de Sete Anos

Vasectomia e o Segredo de Sete Anos

Ricardo, um arquiteto de sucesso, vê seu mundo ruir ao descobrir a gravidez de Isabela. Como ele fez vasectomia há dez anos, o milagre é, na verdade, uma traição. Sua esposa mantinha uma vida dupla com Alejandro há sete anos, tendo até dois filhos com ele. Após ser humilhado e pressionado a ceder seu lugar ao amante, Ricardo abandona a passividade. Consumido pela dor, ele decide agir com frieza calculista para se vingar e retomar o controle de sua vida.
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Capítulo 2

A sala do médico tinha um cheiro estranho de incenso e ervas, uma mistura que Ricardo normalmente acharia relaxante, mas que hoje lhe revirava o estômago.

Ele segurava a mão de Isabela, sua esposa há dez anos, enquanto o Dr. Alencar, um velho amigo da família com uma abordagem holística da medicina, olhava para os exames com uma expressão indecifrável.

Isabela vinha se sentindo mal há semanas, enjoos matinais, tonturas, um cansaço que não passava.

"Ricardo, querido, deve ser só estresse", ela dizia, com a voz suave de sempre, "O projeto novo da empresa está me consumindo."

Ricardo acreditava, como sempre acreditou em tudo que ela dizia.

Ele era um arquiteto renomado, mas o verdadeiro império era o da família de Isabela, uma construtora que ele ajudou a erguer do quase nada para o topo do mercado.

"Bem, Isabela, Ricardo", começou o Dr. Alencar, finalmente levantando os olhos dos papéis, "Seus sintomas não são de estresse."

Ele fez uma pausa, e o silêncio na sala pareceu pesar uma tonelada.

Ricardo sentiu os dedos de Isabela apertarem os seus com força.

"Parabéns", disse o médico com um sorriso gentil, "Vocês serão pais. Isabela, você está grávida de quase oito semanas."

O mundo de Ricardo parou.

As palavras ecoaram em sua cabeça, mas não faziam sentido. Grávida. Pais. Impossível.

Ele olhou para Isabela, esperando que ela risse, que dissesse que era uma brincadeira, mas o rosto dela estava pálido, os olhos arregalados de um choque que parecia tão genuíno quanto o dele.

"Doutor... isso não é possível", Ricardo conseguiu gaguejar, a voz saindo falha. "Nós... eu... não posso ter filhos."

A memória o atingiu com a força de um soco no estômago.

Dez anos atrás, logo depois que se casaram, Isabela lhe contou, com lágrimas nos olhos, sobre um acidente de carro na adolescência. Uma lesão interna, disseram os médicos, a deixou infértil. A dor dela era palpável, a tristeza por nunca poder gerar um filho era a única sombra na felicidade deles.

E Ricardo, louco de amor, querendo tirar qualquer fardo dos ombros dela, tomou uma decisão.

"Se não podemos ter filhos juntos, então não terei filhos com mais ninguém", ele lhe disse na época. "Somos nós dois, e isso me basta."

Uma semana depois, ele fez uma vasectomia. Um ato de solidariedade, de amor eterno, ele pensava. Um sacrifício para que ela nunca se sentisse culpada, para que fossem verdadeiramente um casal "Dink" – dupla renda, sem filhos – por escolha mútua, e não por uma tragédia do passado.

Agora, essa memória se transformava em uma piada cruel.

"Ricardo, querido...", a voz de Isabela o trouxe de volta à realidade. Ela parecia atordoada, confusa. "Eu não entendo... como isso aconteceu?"

"Milagres acontecem", disse o Dr. Alencar, alheio à tempestade que se formava dentro de Ricardo. "A medicina não é uma ciência exata. O corpo tem suas próprias maneiras."

Milagre. A palavra soava como um insulto.

O caminho de volta para casa foi em um silêncio pesado. Isabela chorava baixinho no banco do passageiro, dizendo repetidamente que não entendia, que devia ser um erro.

Ricardo dirigia no piloto automático, a mente a mil por hora. A vasectomia. Ele tinha feito os exames de acompanhamento. A contagem era zero. Absolutamente zero. Não havia margem para erro, não havia "milagre" possível.

A única conclusão lógica era tão monstruosa que ele mal conseguia formulá-la em pensamento.

Chegaram em casa. Isabela subiu direto para o quarto, dizendo que precisava se deitar. Ricardo ficou na sala, o eco das palavras do médico ainda ressoando. Ele se sentou no sofá, o mesmo sofá onde planejaram o futuro, e se sentiu um completo estranho em sua própria vida.

A desconfiança, uma semente feia e venenosa, começou a brotar.

Ele pegou o notebook. As mãos tremiam tanto que ele mal conseguia digitar. O que ele estava procurando? Ele não sabia. Apenas um instinto, uma necessidade desesperada de encontrar uma resposta que não fosse a traição.

Ele entrou no perfil de Isabela nas redes sociais. As mesmas fotos de sempre: viagens luxuosas, jantares de gala, inaugurações de projetos. A imagem do casal perfeito, bem-sucedido e feliz. Tudo uma mentira.

Uma foto recente lhe chamou a atenção. Isabela em uma "viagem de negócios" para a Argentina, há três meses. Ela estava linda, sorrindo em frente a um restaurante famoso em Buenos Aires. A legenda dizia: "Trabalhando duro, mas com saudades de casa".

Ele se lembrou daquela semana. Ele ficou trabalhando até tarde no escritório, comendo comida congelada, sentindo falta dela.

Um nome marcado na foto, um perfil que ele não conhecia. "Alejandro Vargas". Curiosidade mórbida o fez clicar.

O perfil era privado.

Ricardo sentiu um calafrio. Ele abriu uma aba anônima e pesquisou o nome. Nada. Mas então ele tentou algo diferente. Pesquisou o nome de Isabela junto com "Alejandro Vargas".

E então, ele encontrou.

Um blog. Um blog de família, de uma cidade pequena no interior da Argentina. O título era "Nossa Vida em Mendoza".

A primeira foto que carregou fez o ar sumir de seus pulmões.

Era Isabela. Sorrindo. Um sorriso diferente, mais relaxado, mais genuíno do que qualquer sorriso que ele via há anos. Ao lado dela, um homem alto, de aparência distinta, a abraçava pela cintura. E no colo de cada um, uma criança.

Dois meninos. Gêmeos.

Ricardo deu zoom. Os meninos deviam ter uns cinco, talvez seis anos. Eram a cara de Isabela. Os mesmos olhos, o mesmo formato do rosto.

Ele rolou a página, o coração batendo descontroladamente contra as costelas. Postagens e mais postagens. Sete anos de postagens.

A primeira era de sete anos atrás. Uma foto de Isabela e o tal Alejandro, brindando com vinho. A legenda: "O começo da nossa para sempre. Te amo, mi amor."

Sete anos.

Eles estavam juntos há sete anos.

Ele continuou rolando, passando por fotos de aniversário dos meninos, primeiro dia de aula, viagens de férias para a praia. Uma vida inteira. Uma vida paralela da qual ele não tinha a menor ideia.

Ele encontrou uma postagem de seis anos atrás. Isabela, visivelmente grávida, deitada em uma cama de hospital, segurando dois bebês recém-nascidos. A legenda de Alejandro dizia: "O dia em que minha vida ficou completa. Bem-vindos ao mundo, Mateo e Lucas. E obrigado, meu amor, Isabela, por me dar a maior felicidade do mundo."

Seis anos. Os meninos tinham seis anos. E ela estava grávida deles há quase sete anos.

A matemática era simples e brutal.

Ela começou essa outra vida três anos depois de se casar com Ricardo.

Três anos depois de ele ter feito a vasectomia por ela.

O enjoo voltou, mais forte. Ricardo correu para o banheiro e vomitou. Vomitou a comida, a água, a bile, e os dez anos de amor e mentiras que engoliu.

Apoiado na parede fria do banheiro, ele olhou seu reflexo no espelho. Um tolo. Um completo e absoluto idiota.

A gravidez.

A gravidez atual.

Não era um milagre. Era o terceiro filho dela. O terceiro filho dela com outro homem.

Ele se lembrou das "viagens de negócios" cada vez mais frequentes. As chamadas perdidas. As desculpas esfarrapadas. Tudo se encaixou, formando uma imagem grotesca de engano.

A mulher que ele amava, a mulher por quem ele sacrificou a chance de ser pai, não só o traiu, mas construiu uma família inteira nas costas dele.

A dor era tão intensa, tão física, que ele pensou que seu coração ia parar de bater ali mesmo. Mas não parou. Em vez disso, algo mais tomou conta. Um frio. Uma clareza gelada e terrível.

A Isabela que ele amava não existia. Talvez nunca tenha existido.

E ele precisava confrontar a estranha que dormia no quarto ao lado.

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