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Capa do romance Vasectomia e o Segredo de Sete Anos

Vasectomia e o Segredo de Sete Anos

Ricardo, um arquiteto de sucesso, vê seu mundo ruir ao descobrir a gravidez de Isabela. Como ele fez vasectomia há dez anos, o milagre é, na verdade, uma traição. Sua esposa mantinha uma vida dupla com Alejandro há sete anos, tendo até dois filhos com ele. Após ser humilhado e pressionado a ceder seu lugar ao amante, Ricardo abandona a passividade. Consumido pela dor, ele decide agir com frieza calculista para se vingar e retomar o controle de sua vida.
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Capítulo 3

No dia seguinte, o sol brilhava como se zombasse da escuridão que tomara conta da vida de Ricardo. Ele não dormiu. Passou a noite inteira na sala, olhando para a tela do notebook, para as fotos da outra família de Isabela. Cada sorriso dela naquelas imagens era uma facada em seu peito.

Pela manhã, ele ouviu o chuveiro ligar no andar de cima. Pouco depois, o celular de Ricardo vibrou. Era uma notificação da rede social.

Isabela havia acabado de postar uma foto. Era uma selfie dela, com a mão repousando delicadamente sobre a barriga ainda lisa. A legenda dizia: "Às vezes, a vida nos surpreende com os milagres mais inesperados. Sentindo-me abençoada."

A hipocrisia era tão descarada que Ricardo sentiu o sangue ferver.

Ela estava construindo a narrativa. A esposa fiel, surpreendida por uma gravidez milagrosa. Milhares de curtidas e comentários de parabéns já inundavam a postagem. Amigos. Família. Todos engolindo a mentira.

Ele sentiu uma vontade avassaladora de comentar, de expor tudo ali mesmo, para o mundo inteiro ver. Mas seus dedos pairaram sobre o teclado, imóveis. Uma parte dele, a parte que ainda estava em choque, não conseguia acreditar que aquilo era real.

Ele precisava ouvir da boca dela.

Quando Isabela desceu, ela estava vestida para o trabalho, impecável como sempre. Ela lhe deu um sorriso hesitante.

"Bom dia, querido. Dormiu bem?"

Ricardo apenas a encarou. A pergunta era tão absurda que ele não conseguiu responder.

"Eu... eu ainda estou em choque, Ricardo", ela continuou, aproximando-se. "Mas talvez... talvez o Dr. Alencar tenha razão. Talvez seja um milagre."

Ele se levantou, o corpo rígido de raiva e dor. Ele queria gritar, queria quebrar alguma coisa. Em vez disso, ele pegou o celular.

"Preciso falar com você, Isabela."

"Agora não, querido. Tenho uma reunião importante na empresa", ela disse, já se virando para a porta. "Conversamos à noite, com calma. Podemos comemorar nosso milagre."

"Isabela."

A voz dele saiu baixa e perigosa. Ela parou.

"Não vou poder falar à noite", ele mentiu. "É agora ou nunca."

Ela suspirou, impaciente.

"Seja rápido, Ricardo. Estou atrasada."

Ele discou um número. O número do celular argentino de Alejandro Vargas, que ele encontrou no blog. Colocou no viva-voz.

O telefone chamou uma, duas, três vezes.

"Hola, mi amor?"

A voz do homem soou clara e íntima na sala silenciosa.

Isabela congelou. A cor sumiu de seu rosto. Ela se virou lentamente, os olhos fixos no celular na mão de Ricardo, como se fosse uma serpente prestes a atacar.

Ricardo não disse nada. Apenas esperou.

"Isa? Está aí? Aconteceu alguma coisa?", a voz no telefone continuou, com uma nota de preocupação. "As crianças estão perguntando de você."

O silêncio na sala era ensurdecedor. Isabela abriu a boca, mas nenhum som saiu. Ricardo viu o pânico tomar conta dos olhos dela. A máscara de esposa chocada e abençoada estava se rachando.

Ele desligou a chamada antes que o homem dissesse mais alguma coisa.

"Quem...", Isabela começou, a voz um sussurro trêmulo, "...quem era esse?"

Ricardo riu. Uma risada seca, sem humor, cheia de dor.

"Não se faça de idiota, Isabela. Você sabe muito bem quem era."

Ele andou até ela, o corpo tremendo de uma raiva contida. Ele parou a centímetros de seu rosto, falando baixo para que só ela pudesse ouvir.

"Sete anos, Isabela. Sete anos você tem uma vida dupla."

Ele viu a compreensão e o medo em seus olhos. Ela tentou recuar, mas ele não a deixou.

"Eu vi tudo. O blog. Mendoza. Alejandro. E as crianças... Mateo e Lucas."

Ele cuspiu os nomes como se fossem veneno.

"Eles têm seis anos, não é? Seis. O que significa que você engravidou deles um ano depois que eu fiz a porra da vasectomia. Por você!"

A voz dele finalmente se quebrou, a dor superando a raiva.

"E essa gravidez agora... esse seu 'milagre'. É o terceiro, não é? O terceiro filho dele."

Ele recuou, sentindo-se fisicamente doente. Ele olhou para a mulher à sua frente, a mulher com quem dividiu a cama por uma década, e não a reconheceu.

"Como você pôde?", ele sussurrou, a pergunta carregada com o peso de dez anos de engano. "Tudo o que eu fiz por você, pela sua família, pela sua empresa... Eu dediquei minha vida a você."

Ele se lembrou das noites em claro, desenhando projetos que salvariam a construtora da falência. Lembrou-se de vender o apartamento que herdou dos pais para injetar dinheiro na empresa. Lembrou-se de abrir mão de seus próprios sonhos para apoiar os dela. Tudo por ela. E para quê? Para ser o idiota que financiava a vida dupla da esposa.

Ele esperava lágrimas, negações desesperadas, um pedido de perdão.

Mas Isabela, depois do choque inicial, recompôs-se. A expressão dela endureceu. O medo deu lugar a uma frieza calculista que ele nunca tinha visto antes.

Ela caminhou até o bar, serviu-se de um copo d'água e o bebeu em um gole só. Quando se virou para ele, era outra pessoa.

"Você não entenderia, Ricardo."

A calma dela era mais assustadora do que qualquer grito seria.

"O quê? O que eu não entenderia? Que você me traiu da forma mais cruel possível?"

"Não foi uma traição", ela disse, a voz firme. "Foi um sacrifício."

Ricardo ficou boquiaberto.

"Sacrifício?", ele repetiu, incrédulo.

"Sim. Um sacrifício pela empresa. Pela nossa vida. Por tudo o que construímos."

Ela começou a andar pela sala, como se estivesse em uma reunião de negócios, explicando uma estratégia complexa.

"Alejandro não é um qualquer. Ele é o CEO da CorpLatam, uma das maiores corporações da América do Sul. A parceria com ele foi o que salvou a empresa da falência há sete anos. Foi o que nos tornou o que somos hoje."

Ela o olhou, como se esperasse que ele entendesse, que ele a parabenizasse por sua astúcia.

"E essa parceria... exigia um compromisso maior. Um compromisso pessoal."

"Um compromisso pessoal?", Ricardo explodiu. "Você teve filhos com ele, Isabela! Você construiu uma família com ele!"

"Era necessário!", ela gritou de volta, a calma finalmente se quebrando. "Ele queria uma família, um herdeiro! Era a única maneira de garantir a lealdade dele, de garantir que os contratos continuassem vindo! Você acha que eu gostei? Acha que foi fácil viver essa vida dupla, mentindo para todo mundo?"

A vitimização dela era tão surreal, tão distorcida, que Ricardo sentiu a cabeça girar.

"Você está me dizendo que você se casou com outro homem e teve filhos com ele... por negócios?"

"Eu fiz o que precisei fazer!", ela afirmou, o queixo erguido. "E deu certo. Olhe para nós, Ricardo. Moramos nesta casa, temos os carros que queremos, viajamos para onde quisermos. Tudo isso foi graças ao meu sacrifício!"

O absurdo da situação o atingiu em cheio. Ela não estava arrependida. Ela estava orgulhosa. Ela realmente acreditava que suas ações eram justificáveis, nobres até.

Ele olhou para ela, para a mulher que ele um dia amou, e sentiu apenas nojo.

"Eu quero o divórcio, Isabela."

As palavras saíram firmes e claras.

Ela parou de andar. O rosto dela se contorceu em uma careta de desprezo.

"Divórcio? Não seja ridículo, Ricardo. Você não vai a lugar nenhum."

"Ah, eu vou. Eu não passo mais um segundo debaixo do mesmo teto que você."

Ela riu, uma risada fria e debochada.

"E você vai para onde, querido? Você se esqueceu quem você é? Você é o 'genro agregado'. Você mora na minha casa, trabalha na empresa da minha família. Tudo o que você tem é por minha causa."

A humilhação nas palavras dela foi intencional, projetada para machucar. E machucou. Mas também acendeu uma nova chama dentro dele. Uma chama de determinação.

"Eu posso ter entrado nisso como um 'genro agregado', Isabela", ele disse, a voz baixa e controlada, "mas eu não vou sair como um idiota. Acabou."

Ele se virou e caminhou em direção à porta.

"Você vai se arrepender disso, Ricardo!", ela gritou atrás dele. "Você não é nada sem mim!"

Ele não olhou para trás. Ao fechar a porta daquela casa, ele sentiu como se estivesse fechando a porta para dez anos de sua vida. Uma vida construída sobre uma fundação de mentiras. E ele sabia, com uma certeza desesperadora, que a demolição seria dolorosa.

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