
Uma nova oportunidade para te amar - História de Liz e Alex.
Capítulo 2
Seis anos atrás.
Ponto de vista de Alex Bittencout.
A água quente escorria pelas minhas costas, castigando os ombros como se pudesse lavar o que eu sentia. Mas não lavava. Nada limpava a sensação de exaustão e irritação que me corroía desde a discussão com meu pai na mansão. Fechei os olhos e deixei a testa encostar no azulejo gelado. — Você é um médico e herdeiro dos negócios da nossa família, porra! — A voz do meu pai ainda retumbava na minha cabeça, mesmo com o barulho constante do chuveiro.
Soltei um riso seco. Porra, eu era como se esse título pesasse mais que qualquer desejo ou escolha minha.
Eu havia mentido? Não. Fui honesto. Sim, transei com Elizabeth Welsch no escritório. Cometi um erro ao ficar com uma funcionária que era doze anos mais nova e meus pais queriam julgar, controlar, manipular.
— Elizabeth é adulta — retruquei, sem paciência para ouvir mais absurdos.
Ela já tinha completado dezoito anos, mas para eles, pouco importava a idade dela. Importava o sobrenome. O drama da família. O “momento complicado” que a família Welsch atravessava.
Meu pai estava mais preocupado com o que o senhor Gabriel Welsch seria “capaz de fazer” comigo. Mas acho que só queria me manter afastado do escândalo que envolvia aquela família.
Levei as mãos ao rosto e respirei fundo quando olhei para baixo.
“Ah, Liz!” Meu corpo reagia só de pensar em sua pele quente.
Foda-se! Tinha que dar um jeito de esquecer aquela garota.
O celular havia tocado naquela noite. Mas não atendi. As mensagens que ela mandava eram longas. Eu me recusava a ler. Antes de entrar no banho, decidi desligar o celular.
O meu pai me aconselhou a me distanciar e deixar que Liz terminasse a faculdade… e assim, eu fiz.
Empurrei o box e desliguei o chuveiro, com a pele ardendo, quase vermelha. Peguei a toalha e enrolei na cintura. O apartamento estava silencioso. Escuro, exceto pelas luzes suaves que vinham da cozinha.
Passei as mãos nos cabelos úmidos, tentando me recompor. Um jantar idiota me esperava em menos de uma hora. Aniversário de casamento dos meus pais. Eu não estava com disposição pra celebrar mais um ano da felicidade conjugal que eles fingiam sustentar?
— Não sabia que banho demorado era o segredo da sua beleza, cher Alex. — Uma voz suave, com aquele sotaque francês inconfundível, preencheu o ambiente.
Girei rápido, surpreso, com os músculos do peito ainda marcados pelas gotas d’água.
“Porra, Marcelly”.
A minha irmã adotiva estava parada no meio da sala, com um sorriso misterioso nos lábios. Usava um vestido colado ao corpo, daqueles que mais sugerem do que escondem.
— Você podia ter avisado que vinha — falei, franzindo o cenho, mas mantendo o tom controlado.
Ela ergueu uma sobrancelha com elegância e deu um passo à frente.
Suspirei, olhando para a porta fechada atrás dela.
— Você não devia estar na casa dos nossos pais?
— Queria fazer uma surpresa. — respondeu, dando de ombros. Depois, inclinou a cabeça. — E parece que consegui, non?
Soltei um sorriso enviesado, sem responder. Virei e fui andando até o quarto com a toalha presa na cintura.
— Vai mesmo nesse jantar? — ela perguntou atrás de mim, os saltos batendo de leve no chão.
— Não queria — admiti.
— Então por que vai?
Parei perto do guarda-roupa, com a mão na maçaneta de madeira escura. Olhei por cima do ombro.
— Porque não quero dar mais um motivo pra eles me chamarem de irresponsável.
Ela fez um biquinho pensativo, e por um momento, seus olhos me estudaram.
Soltei o ar entre os dentes e abri o armário, pegando uma camisa escura. Comecei a vestir a peça, mas parei ao perceber que ela me devorava com os olhos.
Marcelly escorava o corpo no batente da porta do quarto, uma mão pousada no quadril, a outra brincando com a alça do vestido.
— Está tudo bem, Alex? — murmurou.
— Não. — respondi, sincero, vestindo a camisa sem abotoá-la.
Ela apenas deu mais um passo e entrou no quarto.
— Marcelly…
— Shh… — ela murmurou, com a voz rouca e arrastada, típica de quem domina o que diz com suavidade perigosa.
A alça fina do vestido deslizou por seu ombro, depois o outro. O tecido preto caiu aos poucos, revelando sua pele clara e delicada. O vestido escorregou pelas curvas como se o corpo dela repelisse a roupa.
Eu não me mexi. Nem avancei, nem recuei.
Ficamos nos encarando por um segundo que pareceu durar minutos.
— Isso é loucura — murmurei.
Ela sorriu, cruzando o quarto como se o chão fosse dela.
— A vida é feita de loucuras, cher. — disse ela, parando perto o suficiente para eu sentir o perfume francês e penetrante que ela usava.
Crescemos juntos. Ela tinha sido adotada por meus pais quando éramos crianças. Na adolescência, decidiu morar com os avós biológicos na França. Depois de alguns anos sem vê-la, Marcelly estava completamente nua diante de mim, sem culpa no olhar. E eu… sem força para fingir que não sentia algo.
Passei a mão pelos cabelos, tentando organizar qualquer linha de pensamento, mas ela tocou meu braço. Os dedos pequenos, frios, percorreram meu antebraço até a mão.
— Você tem certeza disso? — perguntei, mantendo o olhar fixo no dela.
Ela assentiu lentamente, seus olhos não piscavam.
Fechei os olhos. Embora a minha mente ainda estivesse focada em Liz, a discussão com os meus pais ainda queimava em minha memória.
Abri as minhas pálpebras quando a campainha do meu apartamento tocou e, de súbito, eu me afastei.
— Preciso atender a porta…
— Não, cher, deixa que vejo que veio nos incomodar… — havia uma leve indignação na voz enquanto ela colocava o vestido. — Fique assim, não vou demorar. — Saiu do quarto.
“Porra, tenho que esquecer a Liz de uma vez por todas”… fiquei tentando me convencer enquanto colovava calça antes de Marcelly voltar.
— Ah, não, vamos continuar. — A mão dela tocou em meu cinto, impedindo-me de fechar a fivela.
Marcelly encostou os lábios no meu pescoço e sussurrou:
— Deixa eu cuidar de você…
Engoli em seco e fiz um esforço hercúleo, resistindo a tentação.
— Não quero me atrasar, — tomei distância de Marcelly enquanto falava, — o meu pai está pegando muito no meu pé.
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