
Uma Escolha Perigosa
Capítulo 2
Estávamos em alerta desde a última conversa com Jackson. O erro foi dos meus homens, logo, eu era o responsável. Deixei alguns dos meus homens observando o movimento em torno de sua mansão. Naquela noite desconfiei que havia algo errado quando um deles não respondeu no rádio.
Quando chegamos ao heliporto começamos a disparar a arma de dentro do carro, assim que pude ver Jackson arrasta-la até a porta do carro dele para se protegerem dos tiros.
Desci correndo do meu carro para ajudá-lo, o helicóptero dele estava voltando, então o ajudei a se levantar para seguirmos para fugirmos. Tinha muito sangue, achei que Jenna estivesse morta já.
Eram muitos tiros, tentava revidar enquanto ele corria com ela no colo. Em um momento quando me virei e Jackson estava ao chão, olhei tentando entender e vi que tinha levado um tiro na perna.
-Leva ela...-Hesitei alguns segundo. Não me importava com ela e sim com minha reputação -Cumpra sua parte do acordo! -Gritou.
-Ela está viva? -Pensei que talvez não tivesse percebido sua morte. -Merda...E você?
-O tiro pegou no ombro, salva ela...Depois a encontro em sua casa -Acenei com a cabeça.
Por mim a deixaria morrendo naquele heliporto, mas tinha feito um acordo com ele, ficaria com NY e a garota era dele. Só que para ele ficasse com sua parte do acordo, teria que salvá-la.
Lhe entreguei a arma e peguei-a no colo, corri enquanto ouvia os disparos e agora era ele quem me dava cobertura. Não consegui ver o que aconteceu. Apenas seguimos para minha casa. Chamamos o médico da família.
O moleque já estava lá, desesperado com toda a movimentação. Fiquei com a missão de contar tudo a ele.
-Não sei como você acabou parando nessa confusão, mas merece saber a verdade...-Seus olhos assustados me lembravam minha irmã quando mais nova. Não sou um monstro, pelo menos não com crianças. -Em NY sua irmã estava defendendo um mafioso, que estava envolvido com um cartel mexicano, por isso ela veio a Europa, para fugir deles...Não sei todos os detalhes...O Belline pediu minha ajuda, as coisas saíram do controle e acabaram encontrando vocês na mansão.
-Jenna não me contou nada...Disse que não podia...Por que todos vocês usam armas? -A ausência de medo em sua voz me surpreendeu.
-Claro...Sua irmã nunca te contou o que Jackson faz!?
-Não, com o outro nome ele tem uma empresa, não sei muito bem...-Estávamos sentados na varanda, observando o movimento. Um dos meus homens passou por nós com sua arma na cintura.
-John, nós somos criminosos, vendemos armas, drogas, quase tudo que fazemos é ilegal...-Agora uma feição confusa tomava conta de seu rosto -Tenho certeza que sua irmã não contou, porque não é o exemplo que quer para você...
-Não acho que ela se envolveria assim com vocês...Jenna é toda certinha...
-Bom, talvez tenha mudado, não a conheço...Terá que perguntar para ela...
-Isso se ela acordar...-Fiquei surpreso com o fato de estar mais triste do que com medo de nós.
-Ela vai...-Eu não sabia se Jenna iria acordar, mas mentir era um dos meus pontos fortes.
◆◆◆
John já estava há quatro dias na mansão, aquilo não era ambiente para ele, quando sua irmã estabilizou, o convenci a ir para Suíça. Apesar de gostar dele, não seria babá de ninguém. Prometi que assim que ela acordasse iria buscá-lo de volta ou levá-la até lá. Esse era o plano do Jackson, resolvi seguir, era o melhor a se fazer.
Achávamos que Jenna não ia acordar, havia perdido muito sangue, principalmente devido a perda do bebê. Tentamos descobrir sobre Jackson, mas nem seu pai sabia. Silvio ainda não havia se recuperado da morte da esposa e pediu que o deixássemos em paz.
Sempre fui um homem de palavra, mas para mim com quem fiz o acordo estava morto, e dessa forma não havia motivo para cumprir minha parte. Infelizmente, meu pai pensava de outra forma, e ainda tinha muito respeito pela família Belline. Mesmo não sendo mais o chefe, depois que descobriu um câncer no pulmão, ainda fazia questão de me lembrar que assumi aquela responsabilidade, e deveria cumprir.
Me fez prometer que a ajudaria até que pudesse decidir o que fazer. Enquanto estava naquela cama dormindo, nunca me incomodou, mas agora que acordou, viraria um problema para mim. Honestamente não sei se ela valia toda essa guerra, pelo menos não para mim.
Estava pensando nisso quando a vi acordar depois do sedativo que o Dr Galdino aplicou quando estava surtando.
A primeira impressão que tive dela, era de uma mulher fraca e sem graça. Depois se mostrou teimosa. Sabia que desafiaria cada ordem minha. Eu comandava uma máfia e nenhum dos meus homens nunca ousou falar comigo daquela forma.
Quem ela pensava que era? Poderia matá-la facilmente. Uma coisa era fato, Jenna não ia gostar de me conhecer, eu não tinha nada a ver com o namoradinho dela.
-Cumprirei minha parte do acordo, desde que não tenha que lidar pessoalmente com essa mulher...
Entrei na biblioteca onde estava meu pai, lendo um de seus livros.
-Você está acostumado a lidar com homens...-Falou soltando um riso de canto, e abaixou o livro. -Jenna seria um desafio para você...Duzentos homens não dá o trabalho de uma mulher...Saberia disso, se alguma vez tivesse um relacionamento.
-Acredite, se entrasse em um relacionamento, ela seria a última mulher que escolheria! -Meu peito espumava de raiva só de pensar em sua palavras me desafiando e na afronta que pairava em seu olhar.
Sentei-me à mesa próxima a janela, e me dei conta que realmente nunca discuti com nenhuma mulher, exceto minha mãe, quando era moleque.
-As mulheres que tem só te obedecem porque são pagas...-Senti que estava me provocando com um riso disfarçado. -Acho que você não leva jeito para lidar com uma de verdade.
-Tenho um exército que abaixa a cabeça enquanto falo...Não faço questão de ter alguém me desafiando o tempo todo, não preciso disso.
Eu estava acostumado a ser respeitado, não tinha tempo de discutir com ninguém. Meus homens me respeitavam e nunca precisei pedir, devido a história da minha família. Nunca tive precisei impor respeito a ninguém, até porque se percebesse que precisaria, essa pessoa estaria morta.
-Jackson fazia...E ele também tinha um exército que o obedecia. Filho, às vezes...É bom ter alguém que nos provoque, como um empurrão em direção à uma nova vista.
Meu pai sempre nos comparava, desde de moleques. Não tinha ciúmes disso, só nunca entendi essa admiração pela família Belline e por aquele cara.
-Eu não sou ele, acha que arriscaria nossa organização por causa de alguma mulher? Não sou moleque! -Respondi me levantando -E, mais uma vez, não preciso disso!
Saí andando e o deixei sozinho na biblioteca.
A pedido dele, aconselhado por minha mãe, contratamos um fisioterapeuta e um psicólogo para Jenna. Segundo minha mãe, perder um filho era doloroso, e toda a situação vivida só agravou ainda mais seu quadro.
Minha mãe, Camilla, não gostava de se intrometer nos negócios, sempre evitava, então quando ela dizia algo, meu pai respeitava. E por consequência eu também. Mesmo não estando mais no comando, foi ele quem nos fez chegar aonde chegamos, e antes dele meu avô. Não seria arrogante a ponto de confrontá-lo em tudo, escolhias minhas lutas, e essa era uma que não fazia diferença.
Por mim estava tudo bem, desde que não tivesse que falar diretamente com ela. Quanto antes melhorar, mais rápido iria embora. Nos primeiros dias, após recobrar sua consciência, quase não a via, os médicos iam visitá-la no quarto.
◆◆◆
Minha irmã Celina, quando veio passar um final de semana longe do colégio, foi conhecê-la. Pela forma como a vi sair do quarto, deduzi que tinham se dado bem.
-Até você? -Perguntei enquanto fechava a porta do quarto.
-Ela parece uma boa pessoa...Você poderia ter uma pouco mais de empatia...-Cruzou os braços me encarando.
-Claro, tenho a polícia na minha cola, o cartel que pode nos atacar a qualquer momento e uma nova remessa de armas para enviar ao Estados Unidos, mas minha irmã acha que tenho que arrumar um tempo e bancar o ombro amigo de uma qualquer...-Debochei.
-Foi você quem fez o acordo, isso é sua responsabilidade...-Nesse momento entendi porque se davam tão bem, ambas não tinha noção do perigo.
-E me arrependi amargamente...E Celina espero que não fale assim com seu futuro marido, ele não terá a paciência que tenho...-O pavor tomou conta do seu rosto.
-Antoni...Por favor...-Virei as costas e saí, não ouviria suas lamentações. Ela tinha um papel a cumprir na família, como todo mundo. Assim que completasse dezoito anos arrumaríamos um marido do nosso meio. Ainda não havia escolhido, afinal era minha irmã, não a entregaria a qualquer um.
Desci para o escritório. Owen, meu braço direito estava trazendo informações. Quando entrei na sala, percebi que só faltava eu. Ele já estava sentado de frente a minha mesa, acompanhado de meu pai ao seu lado.
-Desculpe, estava falando com Celina...-Me acomodei na cadeira -Diga, quais as notícias?
-Ainda não há notícias do Belline...E o cartel está quieto, não parecem estar atrás de nós...Também estão bem enfraquecidos depois daquela noite!
-A garota está melhor...-Meu pai tomou a vez -Seu braço parece estar melhorando, acho que ficará aqui por alguns meses...
-Isso se não encontrarmos seu namorado antes...-Desafiei -Owen, continue procurando por Jackson, quero me livrar dela o quanto antes -Recebi seu aceno de volta. -E o cartel pode estar enfraquecido agora, mas não podemos subestimá-los, continue monitorando!
-A carga será entregue em dois dias, acompanharei a entrega enquanto monitoro o cartel em NY. -Owen pensava como eu, era proativo e metódico, acho que tem a ver com sua origem asiática. Ao contrário de mim que aprendi na marra.
-Essa é uma transação tranquila, leve dez homens, o restante quero monitorando a mansão...-Meu pai concordou com um aceno -Ficarei aqui caso tragam a briga até nós.
O dispensei com um aceno, e seguimos até a porta do escritório. Ambos seguiram até a porta principal. Me virei para retornar a sala e vi um vulto próximo a biblioteca seguido da porta se fechando.
Todos estavam paranoicos, inclusive eu. Coloquei a mão em minha cintura e andei até a porta. Poderia se minha irmã, ou minha mãe, ou ser alguém infiltrado, um possível ataque.
Abri a porta lentamente, evitando qualquer barulho. Pela fresta não dava para ver ninguém, mas havia alguém lá. Algo se mexia. Apontei a arma e abri o restante da porta de uma vez.
Um grito ecoou em meu ouvido. Era Jenna. Seu corpo recostou na parede de livros atônita.
-É você...O que está fazendo aqui? -Perguntei.
-Vim pegar um livro para passar o tempo...É alguma espécie de crime na sua organização?
-O que? -Apesar não conter mais traços de medo em seu rosto, ainda mantinha sua mão para o alto e a outra paralisada na tipoia.
-Ainda está apontando a arma para mim...-Não tinha me dado conta, acho que a vontade de matá-la era mais forte do que meu bom senso, abaixei e guardei em meu coldre. -Foi o que pensei...
-Parece que já está bem, não me diga que já vai embora? -Provoquei.
-Sei que gostaria de te apertado esse gatilho...Não se preocupe, darei o fora daqui assim que possível...-Jenna andou em minha direção com um livro na mão, seu olhar para mim também continha ódio -Ah...E prefiro chorar com a cabeça dentro da privada, do que usar seu "ombro amigo".
Bem, pelo menos ela tem senso de humor.
-Não é educado ouvir a conversa alheia -Minha palavras foi ignorada por sua saída.
◆◆◆
Com o passar dos dias comecei a vê-la com mais frequência andando pela casa, às vezes sozinha ou com o fisioterapeuta e outras com o psicólogo. Até minha mãe a acompanhava, enquanto eu entrava e saía da mansão.
-Boa noite filho -A voz da minha mãe se aproximou do meu ouvido -Seu pai não está bem, preferiu jantar no quarto, seremos só nós três.
Jenna estava logo atrás dela, mas não esboçou nenhuma reação ao me ver. Ainda não tínhamos nos visto em nenhuma refeição.
-Que eu saiba é seu braço que está machucado, não deveria afetar sua educação, ou estou errado?
-Me desculpe, só quis poupá-lo da tortura que é estar na minha presença...-O sarcasmo era parte dela -Boa noite.
Esperava mais, a provoquei achando que me mandaria a merda, mas talvez pela presença da minha mãe ali, preferiu se conter.
-Antoni, acho que você poderia ser mais amistoso...É nossa hóspede...
-Não se preocupe Camilla...-Sua voz ficou diferente de segundos atrás.
-É mãe, não se preocupe! Jenna está acostumada a se enfiar em lugares piores...
-Tem razão...E...não podemos exigir...Algo que a pessoa não tem...A oferecer! -Havia algo diferente em sua voz, estava irregular. Seu olhar cravado na mesa, me fez perceber que algo estava errado. -Jenna? Você está bem? -Minha mãe perguntou preocupada.
Ela apenas sacudia a cabeça dizendo que sim, mas era óbvio que não estava.
-Preciso tomar...Um ar...-Seus talheres caíram na mesa enquanto se levantava cambaleando.
-Ok, ela não está bem...Mãe, liga pro Dr Galdino! -Ordenei e me levantei rapidamente em sua direção. -Jenna, o que está sentido? -Perguntei ao alcançá-la.
-Não me toca! -Sua respiração estava irregular, seus olhos estavam marejados. Ela se encostou na parede recusando meu apoio.
Meu peito inflava, só conseguia pensar que não poderia deixá-la morrer na minha casa. Seu corpo deslizou até o chão. Me abaixei acompanhando seu olhar assustado e desconfiado.
-Respira...-Olhei minha mãe falando no celular. -O médico já deve estar a caminho...
-Não...Consigo...Respirar -Ofegava entre uma palavra e outra.
-Dr Galdino está em outra cidade, só chega amanhã cedo...-Minha mãe estava preocupada, confusa, eu também estava. -Ele disse que deve ser um ataque de pânico...-Jenna sacudiu a cabeça confirmando -Tem calmante no quarto dela...
-Ok...-Encarei Jenna -Preciso levá-la até o quarto...Vamos? -Esperei acenar com a cabeça, a peguei em meus braços. Sentia seu coração acelerado bater contra meu peito enquanto subia as escadas.
A coloquei na cama, enquanto minha mãe procurava o remédio. Parecia desesperada para encontrar ar, seu peito enchia e esvaziava, as lágrimas escorriam em seu rosto. Só conseguia pensar repetidamente "Ela não pode morrer!". Se Jackson estivesse vivo, isso significaria uma guerra.
-Ela não vai morrer...-Minha mãe me encarou enquanto lhe entregava um remédio. Fui arrebatado pela surpresa de que aquelas palavras de fato saíram da minha boca sem perceber. O choque tomou meu corpo, sentei na poltrona como da primeira vez que a vi acordar. Estava paralisado. -Ela vai dormir por um tempo...Preciso ver seu pai, fique aqui.
Não consegui dizer não. Meu corpo queria sair correndo de lá, mas parecia não ter força suficiente para se mexer.
Acho que horas se passaram sem eu perceber. Quando acordei, Jenna me encarava da cama. O medo e confusão que antes pairava em seu rosto já não estavam lá. Agora havia apenas curiosidade.
-Você não cansa de chamar atenção?! -Perguntei indo em sua direção. -Deixou minha mãe desesperada...
-Só ela? Você pareceu bem preocupado...-Com certeza ela deve ter me escutado desesperado, era uma possibilidade que pensei.
-Não me confunda com seu namorado...Só não quero ter que enterrar um cadáver no meu quintal! -Rebati.
-Não se preocupe, você nunca será um terço do homem que ele é! -Odiava essa mulher e tudo que ela fazia eu sentir.
-Me escute muito bem! -Pressionei meu antebraço em sua clavícula, empurrando seu corpo contra a cabeceira da cama. -Acho melhor você se recuperar bem rápido e dar o fora da minha casa...
-Por que não me deixa ir? Não estou pedindo para ficar aqui...
-Se tivesse certeza que seu namorado está morto, eu mesmo a ajudaria a encontrá-lo no inferno! Mas enquanto isso...Tenho um acordo a cumprir. Se recomponha e pare de me dar trabalho!
Confesso, não é assim que trato as mulheres, mas algo em Jenna me fazia reagir daquela forma. Não consigo explicar. Ela ficou paralisada, talvez tenha entendido o recado. A deixei sozinha no quarto sem olhar para trás.
◆◆◆
Óbvio que ela também me odiaria, era melhor assim. Seu olhar me desprezava, principalmente quando me via com alguma mulher em casa. Provavelmente me julgava pela forma que a tratei naquele dia e imaginava que tratava as outras mulheres da mesma forma. A verdade era que estava começando a gostar de como nos odiávamos.
Quando minha irmã veio passar o feriado de Páscoa com a gente, fez questão de comprar ingredientes para fazer ovos de chocolate suíço para Jenna. Segundo Celina, sua família descendia do Brasil, e lá existe a tradição de ovos feitos de chocolate.
Não fiquei impressionado pelo fato dela saber muitas coisas sobre sua vida, elas pareciam se dar muito bem. Também não fiz objeção, eu mesmo a levei para fazer as compras. Jenna e eu poderíamos não ter qualquer afeto um pelo outro, mas nunca fui mesquinho, dinheiro não me faltava, não seria dessa vez.
Durante o final de semana, as duas passaram bastante tempo na cozinha. Fiquei curioso e me atrevi a olhá-las, pareciam se divertir com a tradição.
-Tem certeza de que já fez isso? -Ouvi a voz de minha irmã.
-Sim...Fiz uma vez com meu irmão, não lembrava que dava tanto trabalho...Mas podemos...
Jenna parou de falar no instante em que me viu parado próximo ao balcão. Ainda usava uma tipoia no braço, mas não parecia sentir dor.
-Antoni, estamos fazendo ovos de Páscoa para todo mundo -Vi minha mãe estava com um avental todo sujo de chocolate. As duas cozinheiras da casa tentavam manter a cozinha limpa.
-Tentando mãe, estamos tentando. -Celina falou dando risada
Eu olhava para Jenna, esperando que me lançasse algum olhar, mas parecia focada em frente a geladeira aberta, olhando um plástico em formato de ovo com o que deduzi ser chocolate branco dentro.
-Acho que gastaríamos menos se fizessem os ovos tradicionais decorados -Provoquei.
-Tem desse aqui na geladeira...Você mesmo pode decorar o seu, quando não estiver muito ocupado estrangulando mulheres por aí!
Jenna apontava um ovo de galinha em minha direção, como se me oferecesse. Não esperava que fosse falar sobre isso, achei que a tivesse assustado o suficiente para não me provocar. Claro que não deixaria por isso mesmo.
-Estrangulando? -Minha mãe ainda não sabia o que tinha acontecido.
-Verdade, isso ocupa muito do meu tempo...Acredite, as mulheres vivem me implorando por isso...-Falei ignorando todo resto que acontecia naquela cozinha.
-Considerando que recebem por isso, dirão qualquer coisa! – Respondeu virando de costas. Tenho que admitir, ela não se intimidava, era um páreo duro.
-Me parece que está com inveja...Jackson nunca fez isso? Não me diga que estavam se guardando para o casamento...É uma pena que não vá acontecer -Não deixaria por menos.
-Antoni! -Era a voz insatisfeita da minha mãe me repreendendo e assim que a olhei para responder, senti algo acertar minha testa, e uma gosma escorrer por meu rosto.
Jenna me acertou com um ovo de galinha, eu nem tinha reparado que ainda o segurava. Não previ isso. Fiquei extremamente irritado. A alcancei empurrando-a contra a pia, minha mão em seu pescoço nos separava.
-Acho que não fui muito claro em nossa última conversa...-Vi o medo dilatar seus olhos, sua respiração irregular era satisfatória. As vozes ao fundo me pediam para parar.
-Vá em frente! -Sua voz firme tentava disfarçar o que seu olhar entregava de graça.
Celina se colocou entre nós.
-Vocês dois poderiam pelo menos fingir que se suportam, para não estragar o clima de Páscoa. Minha irmã tinha razão, não a suportava e não conseguia disfarçar. O sentimento era recíproco. Me recompus, pois não sabia do que seria capaz se continuássemos com aquela discussão. Provavelmente um assassinato.
-Tem razão irmãzinha...-Encarei Jenna -Preciso trabalhar para arcar com mais esse prejuízo...
Virei as costas para sair e pude ouvir o que parecia um rosnado, deduzi que fosse dela, mas segui porta a fora.
Na manhã de domingo, após o almoço, meu pai me obrigou a ir até a sala de estar. Tinha alguns Ovos de Páscoa, eu já tinha pesquisado na internet como eram, pareciam estar embrulhados em papel de presente.
Tive que admitir a mim mesmo que os ovos eram uma delícia, alguns estavam visualmente um pouco estranhos, mas o sabor era ótimo. Realmente fizeram ovos para todos os funcionários, o que devia ser ideia da minha mãe. E sei que só ganhei um, também por causa dela.
No final da tarde, estava com meu pai no escritório, quando ouvi uma cantoria, era minha mãe, tocando piano com Jenna e Celina cantando, na verdade minha irmã não cantava bem, mas a voz da minha inimiga era doce e forte ao mesmo tempo, fiquei impressionado quando vi algum talento nela. Talvez fosse a única coisa que tivesse de bom.
◆◆◆
As próximas semanas tudo havia voltado ao normal, Celina estava na escola. Eu voltei a viajar bastante, naquele momento não tinha nenhum sinal do cartel, meu pai e eu já havíamos desistido de falar com Silvio sobre Jackson. Então já estava totalmente focado nos negócios da minha família.
Nada havia mudado entre mim e Jenna, continuávamos nos ignorando. Todos se davam bem com ela, até nossos empregados, não entendia o motivo. Não achava que era uma má pessoa, apenas não queria dar abertura para que pensasse que poderia se meter nos meus assuntos, ou que tentasse me convencer a ajudá-la.
Principalmente depois que pediu ajuda ao meu pai, em vão, pois ninguém tinha novidades. Então mesmo que quiséssemos ajudar, não saberíamos por onde começar, e seria um risco nos expor novamente contra o cartel. Depois de algumas semana em alerta, cheguei à conclusão que, seja lá o que meu homem entregou ao cartel, não foi sobre os Santorin, deve ter sido apenas sobre Belline.
Fui reparando a evolução de Jenna dia a dia, estava mais sorridente, exceto quando me via. Também movimentava bem melhor o braço direito, sem precisar da tipoia. O fisioterapeuta disse que já estava 99% recuperada. Mas o psicólogo queria a manter em observação por mais algumas semanas, apesar de estar confiante.
Estava lendo o relatório deles, quando meu pai entrou no escritório entregando uma carta, parecia um convite. Era da família Esposito, outra máfia de tráfico de armas, eram gigantes, todos gostariam de ter negócios com eles, já havíamos trabalhado com eles anos atrás.
Antigamente ainda como chefe, meu pai insistia que me casasse com uma de suas filhas. Mas nunca tive a intenção de casar, não queria nenhuma mulher estranha morando na minha casa. Sabia que em algum momento teria que fazer isso, mesmo contra minha vontade, já que a maioria dos casamentos do nosso meio são acordos. Era como uma obrigação, para mim era um motivo melhor do que amor. De qualquer forma adiaria isso o quanto pudesse. Celina faria isso antes.
Abri o envelope, e era um convite de casamento, como desconfiei. Quando li os nomes do casal, confesso que fui pego de surpresa.
Jackson Belline estava vivo, e iria se casar.
-A conta do psicólogo vai ficar mais cara -Não consegui disfarçar o riso em meu rosto, imaginando ser a pessoa a contar isso para ela.
-Do que está falando? -Tomou o papel das minhas mãos e demorou alguns segundos lendo.
-Filho, se quer tanto que ela vá embora, é melhor não se intrometer...Só deixe-a ir em paz!
Parecia que meu pai não me conhecia. É claro que eu contaria, não sei por que, mas gostava de sentir o ódio dela. E ainda precisava me vingar por sua insolência na Páscoa.
O ignorei e segui em direção ao jardim, sabia que estaria lá. Sempre descia no final da tarde para ler algum livro, e sempre era algum sobre crime ou romance. Não sei que momento aprendi tanta coisa sobre ela. Tudo contra minha vontade.
Estava ansioso. Jenna estava disposta a me enfrentar para procurá-lo, enquanto ele estava se casando com outra. Seria prazeroso ver sua cara de decepção.
-Não chegue muito perto, pois o livro pode te dar alergia...-Ela não me poupava, por que a pouparia?
-Na verdade, vim checar quando você dará o fora da minha casa!
Tinha vontade de machucá-la! Não fisicamente, ou talvez algumas vezes, quando a pegava pelo pescoço, havia uma guerra dentro de mim. Sabia que nosso ódio mútuo poderia estar passando dos limites.
-Logo, não tenho a intenção de ficar muito tempo convivendo com você. Não estou tão desesperada assim...
Depois de tudo que estávamos fazendo, ainda era uma ingrata, só queria feri-la mais do que simplesmente dizer que seu amado estava vivo e se casando com outra. Decidi que melhor do que contar, seria mostrar.
-Não se preocupe, não faço questão da sua presença...Será um alívio quando a ver saindo por aquela porta...-Não pareceu mais se importar com minhas palavras - De qualquer forma, vim aqui para dizer que iremos a um casamento na próxima semana. Uma família que respeito muito, está casando uma de suas filhas...E seu psicólogo acha que precisa sair um pouco -Menti.
-Com você? Nem nos meus piores pesadelos! -Se levantou me encarando -Não irei te acompanhar, ainda não cheguei nesse nível.
Sua reação já era prevista. Tentou virar as costas para mim. Peguei-a pelo braço e a segurei falando baixo no ouvido.
-Ei, não se ache...Posso levar a mulher que quiser...Acha mesmo que é minha primeira opção? Acha que quero sua companhia? Pode ficar tranquila que está bem longe de ser o meu tipo...-Desdenhei.
Ouvi um gemido contido, parecia sentir dor mas não entregaria tão fácil. Percebi que peguei seu braço machucado e aliviei um pouco a força que estava aplicando.
-Você é um nojento...E está me machucando...-Soltei-a e quase pedi desculpas, mas fui interrompido quando se virou de frente para mim -Por que não paga uma de suas acompanhantes? Elas são o seu tipo...Combinam com você...
-Com certeza seriam uma companhia muito mais agradável. Mas não te devo explicações...Aqui sou eu quem manda, achei que tivesse sido claro da última vez. -Seu olhar afrontoso não titubeava. -Vai comigo e isso não é um pedido, é uma ordem! Está na minha casa e enquanto estiver aqui fará exatamente o que eu disser!
Pude vê-la se controlando para não me atacar.
-Eu vou! Deve ser difícil para você...Tenho pena...Ter que pagar ou obrigar uma mulher a te acompanhar. Nunca vai saber o que é alguém querer estar com você por livre e espontânea vontade.
Fiquei surpreso, pois achei que me daria mais trabalho para convencê-la. Saiu andando sem me dar chances de abrir a boca, pensei em puxá-la de volta e continuar a discussão. Mas já teria o troco e eu mal poderia esperar.
A semana passou rápido ou foi minha ansiedade. Meu pai tentou me convencer a desistir, algumas vezes quase brigamos por isso, mas fui firme e o proibi de contar a alguém.
Jenna continuava sem olhar na minha cara, então pedi que minha mãe a levasse para comprar um vestido, não poderia chegar com alguém vestida de qualquer forma. Pude ver pelo aplicativo do banco que não poupou gastos, acho que era para me provocar. Deve ter sido o vestido mais caro da Itália. Mas não deixou minha mãe ver o modelo, no entanto, segundo ela, a vendedora garantiu que era lindo.
No dia do casamento fui o primeiro a ficar pronto, estava na sala aguardando todos se arrumarem, meu pais também iam ao casamento e chegaram na sala um pouco depois. Ficamos sentados esperando por ela. Já estava ficando impaciente, quando meu pai apontou para a escada.
-Ela está maravilhosa...-Encarei para minha mãe que não tirava os olhos da escada. Levantei e me virei.
Realmente, Jenna estava linda, era um vestido amarelo, mas não igual a gema daquele ovo que jogou em mim. Tinha um tom mais suave, o tecido de seda, e com uma fenda quase até a virilha. Um decote reto, que era possível ver o formato perfeito dos seus seios.
Em seguida, só conseguia olhar para suas pernas enquanto descia a escada. Quando me dei conta, me deparei ao pé da escada oferecendo meu braço de apoio. Claro que passou reto, me esnobando. Era uma pena que a odiasse tanto, senão poderia facilmente a levar para minha cama.
-Vamos? -Falou diretamente aos meus pais -Peço desculpas pela demora...Minha última festa não acabou muito bem, estou um pouco nervosa...
-Não se preocupe querida, vai ficar tudo bem...-Tive certeza que meu pai não contou a minha mãe sobre o noivo, senão tentaria me impedir de levá-la.
Enquanto falava com meus pais andando em direção a porta, a observava pelas costas, seu cabelo estava todo para trás, mas não era muito comprido, uns dois palmos abaixo, conseguia enxergar sua bunda marcada pelo vestido, impossível não notar.
Entendi que era exatamente isso que ela queria, me provocar. Provavelmente porque falei que não fazia meu tipo, devo ter mexido com seu ego. Não ia me deixar levar, não faria esse jogo. Seguimos para o carro em total silêncio, meus pais foram em outro, pois costumavam voltar cedo, e sabiam que nunca tenho hora para ir embora.
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