
Uma Escolha Perigosa
Capítulo 3
Todo esse tempo lá, e meu ódio por Antoni Santorin só aumentava. Sinceramente adorava sua família, todos me tratavam muito bem, mas o dono da casa era quem mais fazia sentir-me como uma invasora. Camilla, me lembrava Carmela, minha ex-sogra, Celina me lembrava meu irmão e o Tony lembrava uma versão mais amorosa do meu pai. Foi ele inclusive, junto com o psicólogo, que me contaram sobre a morte de meu pai e de Melanie.
O cartel os atacou um dia antes de chegarem em mim, e levaram a cabeça dele para Jackson. Melanie foi encontrada depois pela polícia de NY, não me falaram em qual estado, mas não imagino nada menos que cruel. Também me contaram que tiveram que contar a verdade a John, pois ele havia ouvido uma conversa deles no dia em que cheguei baleada.
Ligava para John sempre que podia, e pedi desculpas por esconder a verdade. Prometi que as coisas seriam diferentes quando estivesse melhor. Queria logo receber alta dos médicos e ir embora dali. Tudo me lembrava o que tinha acontecido, e ainda precisava encontrar Jackson. Aceitei o combinado de aguardar a alta dos médicos, e ao mesmo tempo torcia para ele me encontrar primeiro.
Para mim era ótimo quando Santorin ignorava minha existência dentro da casa, toda vez que trocávamos palavras, era exaustivo. O escolhi para descontar toda a raiva pela situação, e não parecia que isso o incomodava, na verdade parecia gostar.
A ordem de ir para o casamento me pegou um pouco de surpresa. Sabia que com certeza o médico e sua família o obrigou. Já tinha desabafado na terapia o quanto me sentia muito presa naquela casa. Queria sair um pouco e por isso não relutei tanto.
Sim, fiquei furiosa e queria mostrar para ele que não era qualquer uma. O vestido não era meu estilo, o escolhi por ser o mais caro e sensual que achei. Se fosse uma festa com pessoas que gostasse, jamais o usaria. Optaria por algo mais discreto, mas não ligava para aquelas pessoas, nem os conhecia, não tinha nada a provar.
Foi interessante vê-lo me secar enquanto descia a escada, sabia que não entraria no meu jogo, era esperto demais para isso. Mas algum homem na festa sim. E isso o deixaria desmoralizado, homens de ego frágil são muito previsíveis.
O casamento era ao ar livre, bem estilo italiano, cheio de flores, quase todos tinham pose de poderosos, exceto as crianças. E tinha alguns senhores como o pai de Antoni, pareciam felizes, como se não devessem nada para a polícia.
Passamos cumprimentando as pessoas com acenos, alguns convidados eram conhecidos dos Santorin, outros não. Como chegamos um pouco atrasados, só tinha cadeira no fundo, nos ajeitamos, com meu algoz na ponta, eu e sua mãe no meio e seu pai na outra ponta. Evitava a todo custo olhá-lo, mas pude notá-lo olhando minha perna com a fenda, ajeitei ambas tentando me livrar daquele sentimento de vergonha.
A música começou e nos levantamos virados para a entrada. Mal pude ficar em pé quando vi Jackson cruzar o arco de flores. Era ele, estava vivo, bem e se casando. Que merda estava acontecendo? Repetia essa pergunta em minha cabeça. Senti meu corpo pender para trás, e em seguida ser apoiada com a mão de Antoni passando em minha cintura.
-Esse é o homem que disse ser melhor do que eu? -Me dei conta que esse desgraçado sabia e me levou ali para isso mesmo. Cruel. Não imaginei que poderia ser tão baixo.
Eu estava petrificada, mal reparei na noiva entrando, apenas seguia o que todos estavam fazendo como um robô. Agradeci mentalmente quando pude me sentar.
Jackson não tinha me visto, não sei se queria que me visse, já me sentia humilhada demais.
-Vamos embora...Por favor -Pedi na esperança de que mostrasse um mínimo de empatia.
-E perder a festa? De jeito nenhum!
Deu um sorriso de canto. Era maldoso. Eu ainda estava chocada demais para discutir e sabia que quanto mais insistisse, mais seria esnobada. Camilla me encarou com pena.
Fiquei em silêncio, pensando em tudo. Tomei um tiro por esse filho da puta, perdi um bebê. E ele simplesmente seguiu a vida? Em tão pouco tempo? Só tinha se passado alguns meses. Estava possuída de ódio por Antoni, e agora sentia ódio dos dois. Como pude ser tão burra?!
Eu evitava olhar, não queria testemunhar aquilo, olhava o tempo todo para baixo. Antoni me forçou a seguir para a festa. Havia um salão naquele terreno imenso. Assim que pisamos na porta, senti todos me olharem, havia esquecido daquele maldito vestido. Antoni segurava forte minha mão, acho que para garantir que não fugiria, o que era minha vontade.
Quando mirei no centro da festa, Jackson estava parado me encarando. Percebi que ficou tão chocado quanto eu, afinal sua mascara tinha caído. Virei a cara e apoiei minha outra mão no braço de Santorin. Deixei que me levasse aonde quer que fosse. Nada poderia ser pior.
Na mesa, além de nós e seus pais, havia um outro casal, que parecia ser conhecido da família. Camilla logo me apresentou, e aparentemente em algum momento já havia falado de mim para eles.
-Anne, essa é a garota que mencionei, nossa hóspede...– Falou piscando para mim -Jenna, esses são Rafi e Anne Montaleone, velhos amigos da família.
-Muito prazer -Respondi forçando um sorriso, e logo virei para o salão procurando por Jackson. Pude vê-lo saindo as pressas seguido de seu pai.
-Vocês formariam um belo casal -Congelei. Anne me pegou olhando para o noivo, pensaria que sou uma vagabunda. Me virei de volta para eles em pânico por ter sido descoberta.
-Ela quis dizer nós dois -Antoni sussurrou em meu ouvido. Ele sabia o que estava pensando e para onde estava olhando.
-Oh não...Ele está apenas me ajudando...-Menti! Na verdade, estava me destruindo, seu ódio me levou até aquele lugar. Fez de propósito e confesso que atingiu seu objetivo.
-Deveriam tentar, ou posso te apresentar ao meu filho Bruno -Anne piscou, e os quatro riram entre si. Mas Camilla pareceu desconfortável.
-Jenna, que tal pegarmos uma bebida? -Assenti.
Finalmente Antoni fez algo de útil me tirando dali. Sei que também não suportava a ideia de sermos um casal. Assim que nos afastamos um pouco, sussurrou em meu ouvido.
-Lembre-se de sempre se manter longe do filho dos Montaleone.
Fiquei confusa do porquê me falou isso.
-Por quê? Ele não deve ser pior do que você...-Provoquei.
-Como sempre, não poderia estar mais errada! Bruno não passa de um drogado...Sei de histórias dele, que me fariam parecer um príncipe.
-Impossível! -Devolvi.
Dei um passo maior à frente, não queria mais conversar. Seguimos até o outro lado do salão. Nunca me imaginei em um casamento desses. Observei cada detalhe, era tudo luxuoso, havia um bar com uma parede cheia de todas as garrafas que imaginei serem as mais caras, marcas que nem conhecia, mas a que queria não estava lá.
-Quero uma dose de whisky, puro -Antoni pediu ao garçom.
-Duas, por favor -Vi quando me olhou surpreso. -O que foi? Normalmente prefiro Tequila, mas não vi nenhuma garrafa...-Respondi.
-Só...Não me envergonhe, tenho uma reputação a zelar...-Era claro que pensava muito pouco de mim, e sinceramente não me importava. Pensei que merecia que ficasse bêbada e desse um vexame, sujando o lindo nome de sua família mafiosa. Bom, seus pais não mereciam isso.
-É o que você merece....Me trouxe aqui de propósito. -O garçom colocou as doses em cima da mesa, tomei a minha, enquanto me encarava, talvez não acreditasse que fosse beber mesmo. –Você quis me humilhar, e te garanto que não serei a única essa noite!
Minha ameaça era da boca para fora, estava tão humilhada que mal conseguia pensar. O que eu faria além de chorar? Me virei para deixá-lo sozinho e dei de cara com a noiva.
Ela era muito bonita, morena, sua pele escura brilhava, ofuscando qualquer outra pessoa no ambiente. Maquiagem e vestido perfeitos. Senti inveja, quem deveria estar se casando com Jackson era eu. Claro que nunca me pediu em casamento. Desgraçado. Me recompus, pois só de estar ali já era humilhação o suficiente, não ia piorar a situação.
-Me desculpe...Virei muito rápido -Me adiantei.
-Imagine, eu que cheguei de supetão...-Respondeu com um olhar gentil, e logo se direcionou para ele. –Então...Antoni Santorin finalmente achou uma mulher para colocá-lo na linha?
Ela parecia ser uma pessoa simpática.
-Aaah não, não sou esse tipo de homem. Me conhece muito bem Flora -Piscou.
-Ele não teria tanto bom gosto...–Me intrometi.
-Jackson parece ser um ótimo partido, você não acha Jenna? – Seu olhar cruel me cortava de dentro para fora.
-Sim...-Tentando não gaguejar –Ele parece ser um ótimo homem!
Se saísse mais alguma coisa da minha boca, começaria a chorar.
-Vamos descobrir...Só falei com ele duas vezes, na segunda nem conversamos muito, se é que me entendem -Piscou para Antoni e pareceram ter intimidade, provavelmente já tinham transado. Mas também entendi o que disse, fiquei em pedaços. Jackson dormiu com ela, sei que estava no casamento dele, mas ouvir que estava transando com outra mulher, me deu vontade de vomitar. Antoni riu erguendo seu copo e bebendo, não sei se era o mesmo ou se já tinha pedido outro. Provavelmente comemorando como aquilo me atingiu. -Meu pai parece convencido de que será bom para os negócios...
Flora continuou falando, me lembrei que nesse meio era comum casamento para formar alianças, o que não justificava tal traição dele. Fiquei ainda mais furiosa. Como pode me trocar por seja lá o que pretendia ganhar?! Ou será que nunca me amou de verdade e já tinha superado?!
-Tenho certeza de que será um ótimo marido! O azar é de quem perdeu...-O objetivo dele era óbvio, me fazer chorar, e estava me segurando para não dar esse gostinho.
-Não sei, acho que vivia como você, de galho em galho –Ela respondeu rindo.
-Deve ter amadurecido...-Falei e logo me direcionei para Antoni. -Talvez você também consiga algum dia...
Finalizei com a mão em seu ombro, que me devolveu um olhar acompanhado de um riso contido. -Flora –Virou a encarando –Sabia que Jenna canta muito bem? Deveria ouvi-la cantar.
Filho da puta! Todo esse tempo lá e não desconfiei que havia prestado atenção nas tardes que passava cantando com sua mãe. Nunca o vi na casa nesses momentos.
-Sério? Você precisa cantar para nós...
Flora estava animada, Antoni satisfeito, e eu? Em pedaços, queria sair correndo dali.
-Não, eu não ando praticando, e ele está exagerando -Tentei me desvencilhar.
-Qual é Jenna, acho que você deveria cantar para os noivos! Como um presente...
Precisávamos parar de brigar. Não importa o que fizesse ou falasse, faria dez vezes pior. Ele ganhou.
-Verdade, vou falar com a banda e chamar o Jackson...–Ela saiu sem nem me deixar responder que não. Aposto que me expulsaria ou me mataria se soubesse quem eu realmente era.
Me virei e apoiei no balcão do bar com a cabeça baixa, meus olhos se encheram de lágrimas, meu coração acelerou, meu peito ia explodir. Minhas pernas procuravam sustento. Eu não poderia, não conseguiria fazer isso, só conseguia pensar o quanto o amava e em quantos pedaços meu coração estava partido naquele momento.
-Oi, você é a Jenna? Sou o Rafael, Flora me pediu para te levar até o palco...-Era voz de um menino. Parou atrás de mim e pareceu esperar que me virasse.
-É ela mesma...-Antoni respondeu e colocou a mão em meu braço tentando me virar. Levantei a cabeça e virei um pouco. O encarei por alguns segundos com algumas lágrimas escorrendo. Engoli seco, enquanto me olhava surpreso. Seu sorriso sumiu. Sequei meus olhos disfarçadamente e virei de volta.
-Sou eu...Claro, vamos lá – Falei gaguejando.
Segui em direção ao palco, minhas pernas pareciam que iam falhar a qualquer momento. Pude ver Flora voltando de mãos dadas com Jackson. Virei o rosto o mais rápido possível, não conseguiria fazer aquilo olhando para eles.
-Acho que deveria ser algo romântico...-Novamente a voz de Rafael.
-Talvez alguma do Ed Sheeran...–Disse o vocalista da banda, nem me dei ao trabalho de prestar atenção neles. Além de tudo tinha que ser do meu cantor favorito?
Pensei sozinha. Me sentia sozinha, tomada pela dor da solidão.
-Você conhece alguma dele? -Me perguntou.
-Sim...Todas –Respondi sem empolgação alguma, não conseguiria escolher nenhuma. Pensei em pedir alguma de outro cantor, alguma que falasse sobre traição. Mas não seria apropriado para a noiva.
-Canta "Kiss Me"...
Rafael parecia saber que aquela era a música que dancei com Jackson no meu aniversário, o que seria impossível, pois nem nos conhecíamos.
Será que Jackson lembraria? Será que tudo aquilo foi mentira? O martírio em minha cabeça não dava descanso.
-Pode ser...–Me ajeitei e segui em direção ao centro do palco, dei uma olhada para o casal e logo desviei, sabia que iria chorar se ficasse os encarando.
Fechei os olhos e contei até 3, desejando que outra bomba nos atingisse. Seria o momento perfeito. Comecei a cantar. Eu queria chorar a cada verso da música e tentava não olhar diretamente para ele.
Decidi focar em Antoni, para não correr risco de chorar no palco, o odiava, era mais fácil focar nesse sentimento. Em alguns versos meus olhos desviavam automaticamente para aquele que um dia acreditei que nunca me machucaria. Não conseguia ignorá-lo completamente. Quando me dava conta de que Flora estava ao seu lado, virava de volta para meu algoz.
Antoni não parava de me encarar de volta, apesar de estar sério, sabia que estava feliz por me destruir e provavelmente torcendo para que começasse a chorar no palco e saísse correndo. Lá de cima, eu lutava de volta com minha voz, não daria esse prazer. Para nenhum deles.
Quando acabei a música, Flora estava de mãos dadas com meu ex-namorado. Pude notar que ele estava incrédulo me olhando, não conseguia decifrar o que se passava em sua cabeça.
Antoni andava em direção a escada do palco, o acompanhei indo até lá, enquanto todos aplaudiam. Quando me estendeu a mão para que pudesse descer, a segurei. E assim que pus os pés de volta ao salão e vi seu olhar de pena, comecei a chorar, não aguentava mais segura. Tinha que sair dali.
Soltei sua mão e saí depressa, apertando o passo e ao mesmo tempo tentando não correr. Não queria chamar atenção.
-Jenna? Espera...– A voz de Antoni me seguia, eu o odiava. Odiava tudo que estava acontecendo, odiava Jackson, odiava minha vida.
Encostei em um arbusto, acho que estava tendo uma crise de ansiedade, mal conseguia respirar. Puxava e soltava a respiração em meio às lágrimas. Sabia que estava hiperventilando.
Meu estômago doía, meu coração estava cheio de raiva, sentia que ia explodir a qualquer momento. Olhei para o céu por um momento e senti como se estivesse sozinha no mundo, e de fato estava. Sentimento horrível.
-Jenna...Calma, respira fundo...–Ele não desistiu de me seguir, e ainda teve a audácia de pôr a mão em minha cintura.
-Tira sua mão de mim...–Juntei todo meu ódio e gritei. Gritei bem alto, não aguentava mais me segurar. Vi os seguranças do lado de fora darem um passo em nossa direção, e ele acenar que estava tudo bem. E estava, para ele.
-Eu não tive a inten…-Não queria mais ouvir nada que visse dele, sua voz era detestável. Estava no meu limite.
-Cala a boca, por favor...-Interrompi -Você é cruel, o pior ser humano que já conheci e não quero nunca mais olhar na sua cara ou ouvir sua voz...-Virei as costas decidida a ir embora a pé, mesmo sem saber como.
-Para onde vai? Jenna? Eu sei que me odeia, mas...-Continuava falando enquanto me seguia.
-Eu não te odeio...Não mais...–Parei e me virei, ele parou bem de frente. Olhei fundo em seus olhos. -Agora...Te desprezo. Desprezo sua existência. Maldito dia que o conheci Antoni Santorin. Você é uma pessoa horrível! -Empurrei minhas mãos em seu peito, no intuito de afastá-lo. Quando na verdade meu maior desejo era agredi-lo.
-Jennaaaa -Reconheceria a voz de Jackson a milhas de distância.
-Agora ficou ótimo...–Falei sorrindo ainda entre lágrimas, e Antoni me encarava surpreso com minhas últimas palavras. O que ele esperava?
-Você não precisa falar com ele...-Se aproximou, enquanto ponderava o que faria. Seu corpo me escondia.
-Antoni? Preciso falar com ela...-Jackson continuava vindo em nossa direção.
-O que mais você quer? -Antoni respondeu nervoso se virando para ele, e me manteve em suas costas. Aproveitei sua estatura, para secar as lágrimas com o mínimo de dignidade que ainda tinha.
-Por que você a trouxe? Pedi que cuidasse dela, não que a levasse em festas...-Jackson esbravejava. –Jenna, me dá um minuto, por favor? -Pediu suavizando seu tom de voz.
-Acha que cuidei dela por consideração a você? Eu a trouxe aqui para que conhecesse quem você é de verdade...-Antoni respondeu a altura, por um momento pensei que fossem brigar, e deveria ter deixado se matarem, seria um favor ao mundo.
-Jackson, não temos nada para conversar...-Falei me colocando à frente. -Para mim está tudo muito claro. Enquanto eu estava passando por um inferno, você estava seguindo sua vida e nem teve a decência de me avisar. E Antoni? -Me virei de volta -Você não cuidou de mim, e sim seus pais. Não banque o bonzinho aqui. Fez de tudo para que me sentisse um lixo, desde que pisei em sua casa. Vocês dois são exatamente iguais. Odeio ambos igualmente.
Virei as costas novamente e tentei seguir andando, mesmo sem saber para onde ir.
-Acha que eu estava bem? Pensei que estivesse morta -Jackson se defendeu me segurando pela mão. Enquanto Antoni permaneceu imóvel. -Por que você acha que estou fazendo isso?
-Acho que você colocou o poder e seus negócios acima de mim, acima de nós...Não sei porque estou surpresa...-Respondi tentando conter o choro.
-Jenna...Tudo que faço desde o dia que te vi pela primeira vez, é por você –Ainda permanecia com esse papinho furado, o que me deixou ainda mais brava.
-Inclusive casando-se com outra? É um jeito muito estranho de amar. Sempre deixei claro que aquela guerra tinha que acabar. Só não imaginei que seria desse jeito...– Falei decepcionada.
-Eu juro que achei que você estava morta, acredite em mim...-Já tinha falado isso, mas eu também achei o mesmo dele.
-E como eu estava morta, em alguns dias pulou na cama com outra. -Uma bolha de ar saiu da minha boca -Precisou seguir sua vida, não é? Eu deveria ter feito o mesmo....Talvez transar com o Santorin, já que também achei que você estivesse morto -Antoni riu. Estava me cansando de conter as palavras.
-Não fala isso...Sabe que eu não suportaria...-Como se isso fosse pior que morrer.
-Não suportaria? Mas eu tenho que suportar? Você é fraco Jackson e é a minha maior decepção...Eu fiquei sozinha...–Estava a ponto de jogar tudo na cara dele.
-Jenna...-Antoni se intrometeu, aproximando-se. -Vamos embora!
Não queria ir embora com ele, mas precisava de carona, e não queria mais ficar ali lutando contra o impulso de me jogar nos braços do meu ex para beijá-lo ou agredi-lo. Já não tinha mais o controle das minhas emoções.
-Me leva daqui, por favor...–Pedi depois de ponderar por alguns segundos. Continuei olhando para Jackson.
-Precisamos conversar, Jenna...Por favor...-Tentou segurar minha mão, sacudi e estiquei-a em direção a Antoni.
-Vamos, por favor...-Por mais que eu quisesse, ignorei os pedidos dele. Estava magoada demais para conversar.
Antoni correspondeu segurando minha mão. Em algum momento já devia ter chamado o motorista, pois o carro já estava atrás de nós. Enquanto me andamos em direção ao carro, Jackson o segurou pelo braço.
-Não ouse tocar nela! –O tom era ameaçador, e depois olhou para mim e continuou. -Nós ainda não terminamos... Antoni não se intimidou e empurrou sua mão para longe.
-Não se preocupe...Não farei nada, a não ser que ela peça...-Não tinha nenhum interesse nele e sei que também não tinha em mim, era pura provocação. Mas ver o ódio e preocupação nos olhos de Jackson, foi satisfatório.
Assim que entrei no carro, soltei sua mão, e permanecemos calados. Voltei para meus pensamentos. Não queria mais brigar com ninguém. E ele tinha acabado de me ajudar, não que apagasse o que tinha acontecido, mas só estava cansada, deles e de tudo.
Decidi naquele momento que iria embora de vez, essa noite foi a gota d'água. Estava lá até aquele momento por Jackson. Quando descemos do carro, precisava pedir uma última coisa.
-Antoni, quero ir embora...E gostaria que seu motorista pudesse me levar até o aeroporto mais próximo, se permitir? Perguntei com uma voz séria, mas calma, estava pedindo um favor para o homem que esculachei minutos atrás.
-Sabe que não está presa em minha casa e pode ir embora quando quiser...Mas para onde vai? E com que dinheiro? -Não entendi sua preocupação repentina, acho que realmente se sentiu mal pelo que fez comigo.
-Quero ficar perto do meu irmão, é tudo que tenho. Também tenho um dinheiro, que era para ter usado no tratamento dele...Enfim, acabei não precisando...Posso me manter até arrumar um emprego.
Não queria dar explicações, ao mesmo tempo não ia ser com grosseria que conseguiria sua ajuda. -Jenna...Quando disse que não fiz nada por você...-Parecia querer se explicar.
-Antoni...O que quis dizer foi que não fez por caridade e sim por obrigação. Agradeço tudo que fizeram por mim, independente do motivo. Mas agora preciso seguir minha vida, não posso viver encostada na casa dos outros -Assentiu como se tivesse entendido.
-Ok...Como preferir...Pedirei ao meu motorista para levá-la amanhã cedo até o aeroporto.
-Obrigada...-Respondi e segui para dentro da mansão. Ele ficou para trás, mas preferi não olhar, apenas continuei andando em direção ao quarto.
◆◆◆
Acho que consegui dormir apenas porque sabia que iria embora daquele lugar. Precisava deixar tudo para trás. Quando acordei, ainda me sentia abalada pelo encontro da noite passada, pelas coisas que Antoni fez comigo na festa, e tudo que passei desde a noite do ataque. Tudo veio à tona.
Tomei um banho gelado na intenção de me recompor. Depois comecei a arrumar minhas coisas. Não demorou muito e escutei alguém bater a porta.
-Quem é?
-Sou eu, Antoni. -Sua voz estava suave, diferente de tudo.
-Pode entrar -Respondi.
-Tem certeza de que vai mesmo embora? -Perguntou assim que me viu arrumando as malas.
-Pode deixar para comemorar quando eu sair...-Falei tentando aliviar a pressão.
-Eu não faria isso...-Respondeu sério. Olhei curiosa pois não tinha entendido, até então fazia questão que me sentisse uma intrusa. Contava os dias para me ver longe. Ele deu uma tossida e continuou. –O motorista irá te levar ao aeroporto em vinte minutos...E quero que leve esse cartão com você...por segurança é melhor não movimentar suas contas. -Segurava um cartão preto. Peguei por alguns segundos, pois sabia que correria risco de ser encontrada caso movimentasse minha conta. -É ilimitado...Então fique à vontade. -Completou.
-Antoni, já estou levando todas as roupas que me deram. Se não fosse sua família, seria praticamente uma mendiga...Agradeço, mas não posso aceitar. -Coloquei o cartão de volta em sua mão.
-Se não aceitar, não a deixarei sair dessa casa. Ai sim será uma prisioneira...Sabe do que sou capaz...-Disse chegando mais perto e me olhando em tom de ameaça. Sabia que faria isso facilmente. Também fiquei com medo de me encontrarem, principalmente agora não teria mais ninguém para me proteger.
-Ok...Mas assim que começar a trabalhar, vou te pagar tudo de volta -Afirmei guardando o cartão.
-Jenna...Preciso perguntar mais uma vez...Tem certeza disso?
Ele estava diferente, parecia que toda aquela raiva que tinha de mim havia sumido. Talvez fosse sentir falta de ter alguém para torturar, ou se sentia culpado pelo que fez comigo durante a festa. De qualquer modo, não me importava mais.
-Sim, já fiquei muito tempo longe do meu irmão, sinto falta dele, é minha única família, e precisa de mim também. Sou a irmã mais velha, deveria estar pensando nele em primeiro lugar...-Lembrei-me de Celina. Achei que aquele único momento em que estava sendo legal comigo, seria bom tentar ajudá-la. -Falando em irmão...Sei que não é da minha conta, mas devia prestar mais atenção à sua irmã.
-O que tem ela? -Me perguntou preocupado.
-Precisa prestar atenção...Só posso dizer que não deve usá-la como mercadoria nos seus negócios. Ela não é como a Flora! -Finalizei.
Ele me faria contar tudo, mas graças ao destino fomos interrompidos por seus pais, agradeci internamente. Tony e Camilla estavam visivelmente tristes com minha despedida, aproveitei e os agradeci por tudo que fizeram.
Fechei minha mala e segui para fora. Olhei para trás e os vi me fitarem da porta. Não vi Antoni. Provavelmente deve ter ido a adega estourar uma champanhe. Nós dois queríamos isso.
No aeroporto achei uma passagem para o horário da noite, então tive que ficar esperando. Mesmo com um cartão ilimitado, não teria coragem de pagar pela primeira classe e nem área VIP. Mas precisei comprar um celular, pois tinha que me comunicar com a escola.
Passei o dia cochilando entre os bancos do aeroporto, e pensando sobre tudo. Quase contei a ele sobre o segredo que Celina me confidenciou. Por sorte fomos interrompidos. O que ela me falou devia ficar entre nós, confiou em mim e quase dei com a língua nos dentes.
A viagem foi tranquila, peguei um táxi no aeroporto e pedi que me levasse ao hotel mais próximo. A Suíça era linda, as coisas parecia perfeitamente no local certo e limpo. Tudo muito bem cuidado.
Fiquei alguns dias no hotel, fiz amizade com algumas pessoas, que me ajudaram a alugar um apartamento. Com três meses de aluguel adiantado, graças ao cartão que Antoni me deu. Era um apartamento pequeno e simples, mas muito bem cuidado.
Falando nele, sentia falta da sua casa e de sua família. Me aproximei muito de Celina e Camilla. Era difícil estar sozinha, fisicamente. Até senti falta de suas provocações, a solidão estava me deixando louca. A dor que sentia pela decepção com Jackson tinha tomado conta de mim. Nos primeiros dias chorava todas as noites.
Foi difícil arrumar emprego recém-chegada no país, como ainda não podia advogar, pois precisaria de autorização, e para dar entrada na documentação levaria um tempo, então o foco era me empregar primeiro, em qualquer área.
Depois de quase um mês, consegui emprego em uma cafeteria. Atendia e servia café e até que era legal, a maioria das pessoas eram muito educadas, parecia ser cultural. Como salário era pago em dinheiro, não precisava fazer movimentações bancárias.
Assim que comecei a trabalhar, liguei para a escola e combinei de visitá-lo. O internato era bem rígido, como perdi o prazo para agendar minha visita, só consegui no final de semana seguinte, mais ou menos uns quinze dias. Por sorte seria minha folga. Mesmo que não fosse, tentaria trocar com alguém.
Como trabalhava muito, de final de semana, as vezes de manhã, outras vezes a tarde, resolvi que assim que passasse na experiência, iria dar entrada na documentação para poder advogar. Deixaria para me preocupar com as consequências de aparecer em qualquer documento oficial futuramente.
Decidi isso quando estava indo embora depois de mais um dia normal. O café era perto do apartamento, então costumava ir a pé mesmo. Era gostoso andar pelas ruas, apesar de ser mais frio que o normal, gostava do vento gelado em meu rosto. Me trazia paz.
Cheguei no corredor do apartamento, procurando as chaves em minha bolsa. Quando achei a coloquei na porta, e tentei girar para abrir, mas não girava. Tentei duas vezes até perceber que já estava aberta.
Fiquei confusa. Talvez tivesse esquecido de trancar, mas tinha o costume de sempre conferir se estava trancada, fazia todo dia antes de ir trabalhar. Desconfiei que tivesse alguém no meu Apartamento.
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