
Um Novo Amanhecer Para Clara
Capítulo 2
Quando abri os olhos, o cheiro de desinfetante invadiu as minhas narinas, e uma dor aguda na parte inferior do meu abdómen lembrou-me que eu tinha acabado de perder o meu filho.
O meu marido, Pedro, estava sentado ao lado da cama, a descascar uma maçã com uma faca. Ele não me olhou.
A casca da maçã caiu numa longa espiral, ininterrupta. A sua concentração estava toda na fruta, não em mim, a sua esposa que acabara de passar por um aborto.
"Acordaste?" ele perguntou, sem levantar a cabeça. O seu tom era indiferente, como se estivesse a falar com uma estranha.
"Onde está a minha mãe?" A minha voz saiu rouca e fraca.
"Ela foi comprar comida," ele respondeu, cortando a maçã em pedaços pequenos e colocando-os num prato. "A minha mãe está a chegar. Ela quer ver-te."
A menção da minha sogra fez o meu coração apertar. Ela nunca gostou de mim. Desde o dia em que me casei com o Pedro, ela deixou claro que eu não era boa o suficiente para o seu filho.
Eu sabia que a sua visita não seria de conforto. Seria para me culpar.
"Eu não quero vê-la," disse eu, a minha voz a tremer ligeiramente. "Pedro, eu perdi o nosso bebé."
Finalmente, ele levantou os olhos. Havia irritação neles, não tristeza. "E o que queres que eu faça? Já aconteceu. Chorar não o vai trazer de volta. Tens de ser mais forte."
Ele colocou um pedaço de maçã na minha boca antes que eu pudesse protestar. O sabor doce e frio era nauseante.
Empurrei a mão dele para longe. "Eu não quero maçã. Eu quero saber o que aconteceu. Porque é que eu caí?"
Pedro suspirou, um som longo e exasperado. "Já te disse. Tropeçaste. Estavas a descer as escadas demasiado depressa. A culpa é tua por seres tão descuidada."
A culpa é minha. Claro.
Mas eu lembrava-me de outra coisa. Lembro-me da discussão. Lembro-me da minha cunhada, a irmã dele, a Sofia, a gritar comigo. Lembro-me de uma mão a empurrar-me.
"Não foi assim," sussurrei. "A Sofia... ela empurrou-me."
O rosto do Pedro escureceu. Ele levantou-se abruptamente, a cadeira a raspar ruidosamente no chão do hospital.
"Não comeces com isso, Clara. Não culpes a minha irmã. Ela já está suficientemente perturbada com o que aconteceu."
"Perturbada? Eu é que perdi o meu filho!" A minha voz subiu, cheia de uma dor que eu não conseguia conter.
"E ela sente-se culpada por isso, mesmo não sendo culpa dela! Porque é que tens de ser tão egoísta? Porque é que tens de tornar tudo sobre ti?"
Naquele momento, a porta do quarto abriu-se. Era a minha sogra, a Lúcia. O seu rosto era uma máscara de desaprovação fria. Atrás dela, encolhida, estava a Sofia, com os olhos vermelhos de tanto chorar.
Parecia que a vítima era ela.
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