
Um Novo Amanhecer Para Clara
Capítulo 3
Lúcia marchou até à minha cama, o seu olhar a varrer-me de cima a baixo com desprezo.
"Então, finalmente acordaste," disse ela, a sua voz gélida. "Pensei que ias ficar a dormir o dia todo para evitar as tuas responsabilidades."
A Sofia escondeu-se atrás da mãe, a soluçar baixinho.
"Mãe," disse o Pedro, num tom de aviso suave.
Mas a Lúcia ignorou-o. O seu foco estava inteiramente em mim.
"Ouve, Clara. Eu sei que estás a sofrer, mas não tens o direito de arrastar a minha filha para a tua miséria. A Sofia nunca te faria mal. Ela ama aquele bebé tanto quanto tu."
Eu ri, um som amargo e oco que me arranhou a garganta. "Ama? Ela chamou-lhe um erro. Ela disse que eu estava a arruinar a vida do Pedro."
"E não estavas?" Lúcia retorquiu instantaneamente. "Desde que te casaste com o meu filho, só trouxeste problemas. E agora isto. Perdes o meu primeiro neto por causa do teu próprio descuido e ainda tens a audácia de culpar os outros."
Cada palavra dela era um golpe. Olhei para o Pedro, à procura de apoio, de uma defesa.
Ele apenas olhou para o chão, recusando-se a encontrar o meu olhar. O seu silêncio era uma traição mais profunda do que qualquer acusação.
"Eu não fui descuidada," insisti eu, as lágrimas a brotarem nos meus olhos. "Ela empurrou-me. Nós estávamos a discutir no topo das escadas..."
"Chega!" O Pedro finalmente falou, a sua voz um trovão no quarto silencioso. "Eu não vou ouvir mais estas mentiras. A Sofia nunca faria isso. Pede desculpa à minha irmã, Clara. Agora."
Pedir desculpa? Eles queriam que eu pedisse desculpa?
Olhei para o rosto choroso da Sofia, para o rosto triunfante da Lúcia, e para o rosto zangado e fechado do meu marido.
Eu estava sozinha. Completamente sozinha nesta sala cheia da sua família.
"Não," disse eu, a minha voz surpreendentemente firme. "Eu não vou pedir desculpa por algo que eu não fiz."
A Sofia começou a chorar mais alto, um lamento dramático. "Eu não queria! Juro que não queria! Foi um acidente! Eu só... eu só a toquei no braço!"
Um toque. Ela chamava àquilo um toque.
"Pedro, por favor, acredita em mim," implorei, virando-me para o meu marido uma última vez.
Ele olhou para mim, e pela primeira vez, vi algo além da raiva. Vi uma frieza calculada. Ele tinha feito a sua escolha.
"A minha mãe tem razão," disse ele calmamente. "Tens sido um problema. Talvez... talvez isto tenha sido para o melhor."
Para o melhor.
Perder o meu filho foi para o melhor.
O meu coração, que eu pensava já estar partido, partiu-se em mais mil pedaços. O ar saiu dos meus pulmões. O quarto começou a girar.
Eles não estavam ali para me confortar. Eles estavam ali para se certificarem de que a sua versão da história era a única que importava. A versão em que eu era a vilã descuidada, e a Sofia era a vítima inocente.
Naquele momento, algo dentro de mim morreu. A esperança, o amor, a fé que eu tinha no homem com quem me casei. Tudo se transformou em cinzas.
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