
Um Dia, Duas Perdas
Capítulo 2
"Assine aqui."
A voz do médico era fria, sem qualquer emoção.
O papel que ele me entregou era um termo de consentimento para transfusão de sangue.
O nome do paciente era a minha mãe, Sofia.
Ao lado, o nome do responsável pela assinatura era o meu, Clara.
O meu marido, Pedro, estava ao meu lado, mas olhava para o outro lado, para a sua irmã mais nova, Laura, que estava deitada na cama ao lado, pálida.
"Eu não posso assinar," disse Pedro, com a voz firme. "A Laura também precisa de mim. Ela está com medo."
"Mas a minha mãe está em estado crítico," eu disse, a minha voz a tremer ligeiramente. "Ela perdeu muito sangue no acidente de carro. O médico disse que ela precisa de uma transfusão imediata."
"A Laura também estava no carro! Ela também está ferida!" Pedro retorquiu, a sua irritação a aumentar. "Porque é que a tua mãe é mais importante que a minha irmã?"
Olhei para a Laura. Ela tinha alguns arranhões no braço e parecia assustada, mas estava consciente e a falar.
A minha mãe, por outro lado, estava inconsciente, com a vida por um fio.
O médico olhou para nós com impaciência. "Quem vai assinar? O banco de sangue está com pouco stock do tipo O negativo. A decisão tem de ser tomada agora."
"Eu assino," disse eu, pegando na caneta com os dedos a tremer.
Mas antes que pudesse escrever o meu nome, Pedro agarrou-me no pulso. A sua força era surpreendente.
"Não," disse ele, com os dentes cerrados. "Se houver apenas uma bolsa de sangue, ela vai para a Laura."
Fiquei sem palavras. O homem que eu amava, o pai do meu filho por nascer, estava a escolher a sua irmã em detrimento da minha mãe moribunda.
"Pedro, por favor," supliquei. "A minha mãe..."
"A tua mãe tem-te a ti," ele interrompeu. "A Laura só me tem a mim. Os nossos pais já morreram, lembras-te? Eu sou a única família que ela tem."
Ele olhou para mim, os seus olhos frios e sem qualquer traço da ternura que um dia tiveram.
"Além disso, estás grávida. Não podes passar por este stress. Pensa no nosso bebé."
O bebé. Ele usou o nosso filho como uma arma contra mim.
As lágrimas que eu tinha estado a segurar finalmente caíram, a escorrer pela minha cara.
Senti a minha barriga de oito meses, um lembrete constante da vida que eu carregava e da família que pensei que estávamos a construir.
Naquele momento, essa família pareceu uma ilusão.
"Então é isso," murmurei, mais para mim mesma do que para ele. "Está a escolher."
Pedro não respondeu. A sua atenção já tinha voltado para a Laura, murmurando palavras de conforto para ela.
Com o coração partido, olhei para o médico. "Eu... eu não sei o que fazer."
O médico suspirou, um som de resignação. "Senhora, eu preciso de uma decisão."
A porta da sala de espera abriu-se e a minha sogra, a mãe do Pedro, entrou a correr, com o rosto cheio de pânico.
"Laura! Meu amor! O que aconteceu?"
Ela correu para a cama da Laura, ignorando-me completamente, como se eu fosse invisível.
"Mãe, a Laura está bem," disse Pedro. "Só precisa de uma transfusão de sangue, mas o hospital está com pouco stock."
A minha sogra virou-se para mim, os seus olhos a fuzilarem-me.
"Clara! A culpa é tua! Se não tivesses insistido em ir visitar a tua mãe, nada disto teria acontecido! A minha filha está a sofrer por tua causa!"
As suas palavras foram como bofetadas.
"Eu não obriguei ninguém a ir," respondi, a minha voz fraca. "A Laura ofereceu-se para me levar."
"Cala-te!" ela gritou. "Tu és a esposa! Devias cuidar da família do teu marido, não arrastá-los para os teus problemas familiares!"
Olhei para o Pedro, à espera que ele me defendesse.
Ele permaneceu em silêncio, o seu silêncio uma concordância tácita com as acusações da sua mãe.
Naquele momento, no corredor frio do hospital, com o cheiro a desinfetante no ar, eu percebi.
Eu não era família. Eu era uma estranha.
E a minha mãe ia morrer porque, para o meu marido, a vida dela não valia tanto como a da irmã dele.
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