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Capa do romance Um Dia, Duas Perdas

Um Dia, Duas Perdas

Grávida de oito meses, Clara vive um pesadelo no hospital. Com apenas uma bolsa de sangue disponível, seu marido Pedro escolhe salvar a irmã, Laura, deixando a mãe de Clara morrer. O trauma causa um parto prematuro e a perda do bebê. Abandonada pela família dele e traída pelo silêncio do esposo, Clara decide se divorciar. Agora, ela busca a verdade sombria por trás do acidente, jurando vingança contra aqueles que destruíram sua vida e seu futuro de forma cruel.
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Capítulo 2

"Assine aqui."

A voz do médico era fria, sem qualquer emoção.

O papel que ele me entregou era um termo de consentimento para transfusão de sangue.

O nome do paciente era a minha mãe, Sofia.

Ao lado, o nome do responsável pela assinatura era o meu, Clara.

O meu marido, Pedro, estava ao meu lado, mas olhava para o outro lado, para a sua irmã mais nova, Laura, que estava deitada na cama ao lado, pálida.

"Eu não posso assinar," disse Pedro, com a voz firme. "A Laura também precisa de mim. Ela está com medo."

"Mas a minha mãe está em estado crítico," eu disse, a minha voz a tremer ligeiramente. "Ela perdeu muito sangue no acidente de carro. O médico disse que ela precisa de uma transfusão imediata."

"A Laura também estava no carro! Ela também está ferida!" Pedro retorquiu, a sua irritação a aumentar. "Porque é que a tua mãe é mais importante que a minha irmã?"

Olhei para a Laura. Ela tinha alguns arranhões no braço e parecia assustada, mas estava consciente e a falar.

A minha mãe, por outro lado, estava inconsciente, com a vida por um fio.

O médico olhou para nós com impaciência. "Quem vai assinar? O banco de sangue está com pouco stock do tipo O negativo. A decisão tem de ser tomada agora."

"Eu assino," disse eu, pegando na caneta com os dedos a tremer.

Mas antes que pudesse escrever o meu nome, Pedro agarrou-me no pulso. A sua força era surpreendente.

"Não," disse ele, com os dentes cerrados. "Se houver apenas uma bolsa de sangue, ela vai para a Laura."

Fiquei sem palavras. O homem que eu amava, o pai do meu filho por nascer, estava a escolher a sua irmã em detrimento da minha mãe moribunda.

"Pedro, por favor," supliquei. "A minha mãe..."

"A tua mãe tem-te a ti," ele interrompeu. "A Laura só me tem a mim. Os nossos pais já morreram, lembras-te? Eu sou a única família que ela tem."

Ele olhou para mim, os seus olhos frios e sem qualquer traço da ternura que um dia tiveram.

"Além disso, estás grávida. Não podes passar por este stress. Pensa no nosso bebé."

O bebé. Ele usou o nosso filho como uma arma contra mim.

As lágrimas que eu tinha estado a segurar finalmente caíram, a escorrer pela minha cara.

Senti a minha barriga de oito meses, um lembrete constante da vida que eu carregava e da família que pensei que estávamos a construir.

Naquele momento, essa família pareceu uma ilusão.

"Então é isso," murmurei, mais para mim mesma do que para ele. "Está a escolher."

Pedro não respondeu. A sua atenção já tinha voltado para a Laura, murmurando palavras de conforto para ela.

Com o coração partido, olhei para o médico. "Eu... eu não sei o que fazer."

O médico suspirou, um som de resignação. "Senhora, eu preciso de uma decisão."

A porta da sala de espera abriu-se e a minha sogra, a mãe do Pedro, entrou a correr, com o rosto cheio de pânico.

"Laura! Meu amor! O que aconteceu?"

Ela correu para a cama da Laura, ignorando-me completamente, como se eu fosse invisível.

"Mãe, a Laura está bem," disse Pedro. "Só precisa de uma transfusão de sangue, mas o hospital está com pouco stock."

A minha sogra virou-se para mim, os seus olhos a fuzilarem-me.

"Clara! A culpa é tua! Se não tivesses insistido em ir visitar a tua mãe, nada disto teria acontecido! A minha filha está a sofrer por tua causa!"

As suas palavras foram como bofetadas.

"Eu não obriguei ninguém a ir," respondi, a minha voz fraca. "A Laura ofereceu-se para me levar."

"Cala-te!" ela gritou. "Tu és a esposa! Devias cuidar da família do teu marido, não arrastá-los para os teus problemas familiares!"

Olhei para o Pedro, à espera que ele me defendesse.

Ele permaneceu em silêncio, o seu silêncio uma concordância tácita com as acusações da sua mãe.

Naquele momento, no corredor frio do hospital, com o cheiro a desinfetante no ar, eu percebi.

Eu não era família. Eu era uma estranha.

E a minha mãe ia morrer porque, para o meu marido, a vida dela não valia tanto como a da irmã dele.

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