
Um Coração Despedaçado Renasce
Capítulo 2
Ricardo Alves falou ao telefone com o investidor, confirmando os detalhes finais do novo projeto.
"Sim, o plano de expansão está pronto, posso garantir que o retorno será excelente."
Ele sorria, um sorriso profissional e confiante. Por cinco anos, ele tinha sido o cérebro e a força por trás da "Costa Alimentos" , a empresa que carregava o sobrenome de sua esposa, Paula Costa. Ele construiu o sonho dela enquanto ela se tornava o rosto da marca.
Desligou o telefone e olhou o relógio na parede da cozinha. Sete da noite. O aniversário de casamento deles.
Ele se moveu pela cozinha com a precisão de um maestro. Os ingredientes para o jantar estavam perfeitamente alinhados: lagosta fresca, aspargos, o vinho favorito dela. Ele era um chef de talento, mas nos últimos anos, sua paixão havia sido canalizada unicamente para construir o império de Paula.
"Marcelo, a Paula já saiu da reunião?" Ricardo ligou para o assistente dela.
Houve uma pausa do outro lado da linha.
"Senhor Ricardo... a senhora Costa saiu há mais de duas horas."
"Ah, ótimo. Ela deve estar a caminho, então. Obrigado, Marcelo."
"Senhor Ricardo..." a voz de Marcelo hesitou, carregada de uma pena que Ricardo não compreendeu na hora. "O senhor Lucas Pereira esteve na empresa hoje. Eles saíram juntos."
Lucas Pereira. O nome ecoou na mente de Ricardo, um fantasma do passado de Paula, seu namorado de infância.
Ricardo sentiu um frio no estômago, mas forçou uma risada.
"Claro, um velho amigo. Ela deve estar colocando o papo em dia. Sem problemas."
Ele desligou, mas a certeza em sua voz era falsa.
As horas se arrastaram. Oito, nove, dez da noite. A comida esfriou sobre a mesa impecavelmente posta. Ricardo sentou-se no sofá, o silêncio da casa luxuosa tornando-se ensurdecedor. Cada farol que passava na rua trazia uma ponta de esperança, seguida por uma nova onda de decepção.
À meia-noite, ele se levantou. A comida, o vinho, as velas. Tudo parecia uma piada de mau gosto. Ele não sentia raiva, apenas um vazio gelado. Com movimentos metódicos, ele pegou o banquete intocado e despejou tudo na lata de lixo. A lagosta, os aspargos, o molho delicado que levara horas para preparar.
Depois, pegou a garrafa de vinho caro e derramou o líquido vermelho pelo ralo da pia. O som do vinho escorrendo era o único ruído no apartamento.
Ele não ligou para ela. Não mandou mensagem. Apenas sentou-se novamente no escuro, a compreensão da verdade se solidificando em seu peito. A espera tinha acabado.
Paula chegou às sete da manhã, com a mesma roupa do dia anterior. Ela não parecia culpada, apenas cansada e um pouco irritada, como se a presença dele fosse um incômodo.
"Ricardo, precisamos conversar." ela disse, jogando a bolsa no sofá.
Ele a olhou, seu rosto sem expressão.
"Eu reencontrei o Lucas." ela continuou, sem rodeios. "Percebi que ainda sinto algo por ele. Acho que devemos nos divorciar."
Ricardo não se moveu. Ele não gritou. Não a questionou. Ele apenas assentiu lentamente, uma calma assustadora em seus olhos.
"Tudo bem, Paula."
Ela pareceu surpresa com a falta de reação. Talvez esperasse uma cena, lágrimas, súplicas.
"É só isso? 'Tudo bem' ?"
"Sim." ele respondeu. "Se é isso que você quer."
Dentro dele, porém, um plano começava a se formar. Um divórcio não era o suficiente. Ele não queria apenas se separar dela. Ele queria desaparecer. Apagar cada vestígio de sua existência da vida que ele construiu para ela. E ele sabia exatamente como faria isso.
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