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Capa do romance Um contrato de Natal

Um contrato de Natal

Bento Cavalcanti precisa provar que é um homem de família para assumir a presidência do grupo empresarial. O prazo final é o Natal em Gramado, e sua solução é contratar uma noiva falsa. Clarice Luz, a decoradora do hotel, aceita a proposta financeira por duas semanas de farsa. Contudo, a convivência na Serra Gaúcha revela uma paixão inesperada. Entre o frio e o luxo, o desejo entre o CEO e a jovem cresce, transformando o acordo em um sentimento real e incontrolável.
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Capítulo 2

O escritório de Bento Cavalcanti ficava na cobertura do hotel, um espaço que parecia ter sido projetado para intimidar qualquer mortal. Paredes de vidro do chão ao teto ofereciam uma visão panorâmica de Gramado, que àquela hora da tarde já começava a acender suas luzes de Natal. Por dentro, o ambiente era o oposto da cidade: minimalista, em tons de cinza chumbo, couro preto e aço escovado. Não havia uma única guirlanda, nenhuma árvore, apenas o silêncio cortante de quem não tinha tempo para sentimentalismos.

Clarice estava parada diante da imensa mesa de carvalho negro. Ela ainda vestia seu macacão jeans, mas tinha tentado limpar o glitter do rosto com um lenço umedecido - sem muito sucesso, já que agora parecia que uma galáxia inteira brilhava em suas bochechas.

Bento não olhou para ela de imediato. Ele estava concentrado em alguns documentos, uma caneta-tinteiro de ouro deslizando com precisão pelo papel. O silêncio se estendeu deliberadamente. Era uma tática de poder, Clarice sabia disso. Ele queria que ela se sentisse pequena, deslocada.

- Pode se sentar, senhorita Luz - ele disse finalmente, sem erguer os olhos.

- Prefiro ficar em pé, Sr. Cavalcanti. A última vez que aceitei seu apoio, quase causei um desastre na recepção - ela rebateu, com a voz firme, embora suas mãos estivessem escondidas nos bolsos para ocultar o leve tremor.

Bento finalmente levantou a cabeça. O olhar azul a atravessou como uma lâmina de gelo. Ele se recostou na cadeira de couro, observando-a com uma curiosidade nada discreta. Clarice era o caos personificado em seu mundo de ordem. E, por algum motivo que ele se recusava a admitir, o caos era fascinante.

- Estive analisando seu contrato - Bento começou, fechando a pasta. - O seu trabalho é... aceitável. Mas sua conduta profissional deixa a desejar. Você desafiou o proprietário do estabelecimento na frente dos funcionários e dos hóspedes.

- Eu não o desafiei. Eu apenas apontei que o senhor estava sendo desnecessariamente rude com o espírito da época - ela sorriu de lado, um sorriso desafiador. - E, tecnicamente, eu salvei a estrela do topo. Se ela quebrasse, o senhor teria um prejuízo de três mil reais em cristal tcheco.

Bento arqueou uma sobrancelha. Ele gostava de pessoas que sabiam o valor das coisas.

- Você é rápida com os números. E pelo que pesquisei, também está desesperada por eles.

O sorriso de Clarice vacilou. A menção ao desespero atingiu um nervo exposto. Ela precisava do cachê daquele hotel para pagar a cirurgia de catarata da avó e as dívidas acumuladas do pequeno ateliê de decoração que mantinha nos fundos de casa.

- Minha vida financeira não é da sua conta, Sr. Cavalcanti.

- Torna-se minha conta quando pretendo fazer uma proposta que vai além de pendurar bolas de vidro em árvores - ele se levantou. Bento era alto, e quando caminhava em direção a ela, parecia ocupar todo o oxigênio da sala. Ele parou a poucos centímetros dela, circulando-a como um predador. - Eu tenho um problema. Um conselho de administração composto por homens arcaicos que acreditam que um CEO solteiro e "implacável demais" não passa confiança para os acionistas conservadores.

Clarice franziu a testa, acompanhando o movimento dele com os olhos.

- E o que eu tenho a ver com seus problemas de imagem?

- Eles querem um homem de família. Alguém que tenha raízes, que mostre estabilidade emocional. O Natal é a data máxima dessa encenação. Em dez dias, haverá o Baile de Máscaras do Grand Cavalcanti. É o evento do ano. Preciso chegar lá com uma noiva.

Clarice soltou uma gargalhada genuína, o som ecoando pelo escritório estéril.

- O senhor quer contratar uma noiva? Está assistindo muitos filmes de comédia romântica, Sr. Cavalcanti.

- Eu não assisto filmes. Eu resolvo problemas - ele parou na frente dela, a expressão mortalmente séria. - Quero que você interprete esse papel. Você tem o que falta em mim: essa... vivacidade irritante, essa aparência de quem realmente gosta de pessoas e de feriados. Você é bonita, sabe falar e, claramente, não tem medo de mim.

Clarice cruzou os braços sobre o peito, sentindo o calor que emanava do corpo dele. Estar perto de Bento era como estar perto de uma lareira acesa: perigoso se você chegasse perto demais, mas irresistivelmente atraente no frio.

- E por que eu aceitaria algo tão absurdo?

- Por duzentos mil reais - ele disparou.

O ar sumiu dos pulmões de Clarice. Com esse dinheiro, ela não apenas operaria a avó, como compraria a pequena loja que sempre sonhou em abrir no centro de Gramado.

- Duzentos mil? - ela sussurrou.

- Cinquenta por cento agora, cinquenta por cento na manhã de Natal, quando o contrato terminar. Você morará aqui, na suíte presidencial adjacente à minha. Terá roupas novas, joias, e terá que frequentar todos os jantares e eventos ao meu lado. E o mais importante: terá que convencer a todos, especialmente à minha mãe e ao conselho, de que estamos perdidamente apaixonados.

Clarice sentiu um frio na espinha que não tinha nada a ver com o clima de Gramado.

- Apaixonados? Como eu vou convencer alguém de que amo um homem que tem um iceberg no lugar do coração?

Bento deu um passo ainda mais próximo. Ele inclinou o rosto, a respiração quente atingindo a orelha de Clarice, fazendo os pelos do braço dela se arrepiarem instantaneamente.

- Você é uma artista, Clarice. Invente uma história. Ou melhor... use o que sentiu quando eu te segurei nos braços hoje cedo. Aquele choque elétrico? As pessoas chamam isso de química. Só precisamos fingir que ela é intencional.

Clarice engoliu em seco. O cheiro dele a estava deixando tonta novamente. Era uma mistura de poder e um desejo latente que ela não conseguia ignorar. Ela olhou para os lábios dele, bem desenhados e firmes, e por um segundo, imaginou como seria ser beijada por aquele homem. Seria como gelo ou como fogo?

- Existem regras? - ela perguntou, a voz saindo mais rouca do que pretendia.

- Várias. A primeira: nada de intimidade real diante de câmeras, apenas o necessário para a farsa. Toques sutis, olhares, mãos na cintura. Segunda: você nunca, sob hipótese alguma, admite que isso é um negócio. Terceira... - ele fez uma pausa, os olhos descendo para a boca dela. - Você terá que lidar com o fato de que, para o mundo, você é minha.

Clarice sentiu o desafio no tom dele. Era um jogo de xadrez, e Bento achava que já tinha dado o xeque-mate. Mas ele não conhecia a força de uma mulher que já tinha enfrentado tempestades reais para manter o sorriso no rosto.

- Eu aceito - ela disse, estendendo a mão. - Mas com uma condição.

Bento apertou a mão dela. A pele dele era quente e a pressão era firme, enviando uma descarga elétrica que percorreu o braço de Clarice até o centro do seu peito.

- Qual?

- O senhor vai ter que montar uma árvore de Natal comigo. Com as próprias mãos. Sem secretários, sem gerentes. Só o senhor, eu e o espírito natalino que o senhor tanto despreza.

Bento soltou um suspiro impaciente, mas não soltou a mão dela. Pelo contrário, puxou-a um pouco mais para perto, reduzindo o espaço pessoal a quase nada.

- Você é uma negociadora difícil, Clarice Luz.

- O senhor ainda não viu nada, Sr. Cavalcanti.

Aquele aperto de mão selou o destino dos dois. Pelas próximas duas semanas, o homem mais poderoso da hotelaria brasileira e a decoradora sonhadora viveriam uma mentira que, a cada segundo de proximidade, parecia se tornar a verdade mais perigosa de suas vidas.

Bento a observou sair da sala. O balançar dos quadris dela no macacão jeans era um convite ao pecado que ele não tinha planejado aceitar. Ele caminhou até a janela e tocou os próprios lábios. O Natal, que ele sempre considerou uma perda de tempo, acabara de se tornar a estação mais interessante do ano.

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