
Traída, Vingada, Amada Novamente
Capítulo 2
A tela do meu computador de repente ficou preta, e a voz de Pedro Almeida, meu chefe, soou fria e alta por todo o escritório.
"Luna Silva, você está demitida."
Suas palavras ecoaram no silêncio que se instalou. Todos os meus colegas pararam o que estavam fazendo e se viraram para me olhar. Seus rostos mostravam uma mistura de choque, pena e até um pouco de satisfação. Eu senti o calor subir pelo meu rosto, uma queimação de vergonha e raiva.
"O quê? Por quê?", consegui gaguejar, minha voz quase não saindo.
Pedro caminhou até minha mesa, seu rosto uma máscara de decepção calculada. Ele era meu mentor, o homem que eu admirava e em quem confiava cegamente por três anos.
"O projeto Vanguarda. Você falhou em entregar os resultados, e pior, tentou sabotar o trabalho de sua colega, Sofia. Nós não toleramos esse tipo de comportamento aqui."
Sabotar? Eu olhei para Sofia Costa, que estava de pé ao lado de Pedro, com lágrimas nos olhos. Ela parecia a vítima perfeita, pequena e frágil.
"Isso é mentira!", eu disse, minha voz ganhando força. "Esse projeto era meu! Sofia roubou minhas ideias, meus arquivos, e agora está me acusando?"
Sofia soluçou.
"Luna, eu não sei por que você está dizendo isso. Eu te considerava minha amiga. Eu só tentei ajudar."
Amiga. A palavra soou como veneno. Lembrei de todas as vezes que a ajudei, que compartilhei meus conceitos com ela, que a defendi quando ela cometeu erros.
Eu me virei para João Oliveira, meu colega de baia, o amigo com quem eu almoçava todos os dias. Eu procurei em seus olhos por qualquer sinal de apoio.
"João, diga a eles. Você me viu trabalhando nesse projeto por meses. Você sabe a verdade."
João desviou o olhar, encarando o chão. Ele parecia desconfortável, pequeno em sua cadeira.
"Luna... eu não quero me meter. Pedro já tomou a decisão."
Sua covardia me atingiu mais do que a traição de Pedro e Sofia. Ele sabia. Ele viu tudo, mas escolheu o silêncio para se proteger. Naquele momento, eu estava completamente sozinha, cercada por rostos que um dia chamei de amigos e colegas.
Pedro fez um gesto para os seguranças, que já se aproximavam.
"Por favor, acompanhem a senhorita Silva para fora. E certifiquem-se de que ela não leve nada que pertença à empresa."
A humilhação foi total. Fui escoltada para fora do prédio como uma criminosa, carregando apenas minha bolsa. Meus pertences pessoais, minhas anotações, até mesmo as fotos na minha mesa, tudo ficou para trás.
Do lado de fora, a chuva fina começou a cair, misturando-se com as lágrimas quentes que finalmente escorriam pelo meu rosto. A dor da traição era física, uma pontada aguda no meu peito. Eu me sentia vazia, destruída. Todo o meu esforço, minha dedicação, minha lealdade... tudo jogado fora por uma mentira.
Eu peguei meu celular com as mãos trêmulas e disquei o único número que me veio à mente.
"Pai?"
A voz de Rafael Mendes soou preocupada do outro lado da linha.
"Luna? O que aconteceu? Sua voz..."
"Eles me demitiram, pai. Eles me humilharam."
Eu desabei ali mesmo, na calçada molhada, e contei tudo a ele entre soluços. Ele me ouviu em silêncio, sem me interromper. Quando terminei, houve uma pausa.
"Eu estou indo te buscar. Me diga onde você está."
Enquanto esperava por ele, a chuva engrossou. Eu olhava para o prédio imponente da empresa, um lugar que eu chamei de segunda casa, e senti um frio que não vinha da chuva. A ingenuidade que eu carregava morreu naquela tarde. A lealdade que eu ofereci foi esmagada.
Naquela calçada, encharcada e tremendo, eu fiz uma promessa a mim mesma.
Esta vida, esta versão de mim que confiava demais e se diminuía para caber nos espaços dos outros, acabava aqui.
Quando o carro do meu pai parou ao meu lado, eu me levantei. Ele saiu, me envolveu em um abraço forte e protetor, e me guiou para dentro do veículo.
No calor do carro, olhando para a cidade borrada pela chuva, eu senti uma clareza assustadora. Eu tinha tentado construir minha própria carreira, longe do império da moda da minha família, para provar meu próprio valor. E eu tinha falhado, não por falta de talento, mas por excesso de confiança.
"Pai," eu disse, minha voz firme pela primeira vez naquele dia. "Lembra daquela proposta... do casamento arranjado com a família Santos?"
Meu pai me olhou, surpreso. Eu sempre fui contra essa ideia, um resquício de antigas alianças de negócios entre famílias poderosas.
"Lembro. Com o filho deles, Gabriel Santos, o CEO da TechNova."
"Eu aceito."
Ele não fez perguntas. Apenas assentiu, seu rosto mostrando uma mistura de alívio e preocupação.
"Tudo bem, filha. Vamos para casa."
Eu me encostei no banco de couro macio e fechei os olhos. Pedro, Sofia, João... eles pensaram que tinham me quebrado. Mal sabiam eles que apenas me libertaram. Uma nova vida estava começando agora. E nela, eu nunca mais seria a vítima.
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