
Traída, Vingada, Amada Novamente
Capítulo 3
No dia seguinte, voltei ao escritório para buscar minhas coisas. Pedro insistiu que fosse fora do horário de expediente, para "evitar constrangimentos". A verdade é que ele não queria uma cena.
O andar estava silencioso e escuro, apenas as luzes de emergência acesas. Andei pelos corredores vazios, meus passos ecoando no chão polido. Era estranho ver o lugar assim, sem a agitação habitual. Parecia um cemitério de ambições.
Cheguei à minha antiga mesa. Uma caixa de papelão estava sobre ela, com meus pertences jogados de qualquer maneira lá dentro: canecas, porta-retratos, alguns livros de design. No topo de tudo, estava um prêmio emoldurado que eu havia ganhado no ano anterior, um prêmio que Pedro me entregou pessoalmente no palco.
"Você é o futuro desta empresa, Luna," ele disse naquele dia, sua mão no meu ombro, seu sorriso largo e carismático.
Peguei o quadro. O vidro estava trincado em um canto. A ironia era amarga. Eu o joguei de volta na caixa com um baque surdo. Não queria mais aquela lembrança. Não queria nada que me ligasse a ele ou a este lugar.
Enquanto vasculhava as gavetas para ter certeza de que não havia esquecido nada, encontrei um pequeno pendrive. Era um presente de João, com o logo de uma de nossas bandas favoritas.
"Para a melhor parceira de projetos do mundo," ele havia dito, me entregando o presente com um sorriso tímido.
Eu o segurei na palma da mão por um momento. Um símbolo de uma amizade que se provou oca. Joguei-o na caixa também.
Quando estava prestes a sair, ouvi risadas vindas da sala de reuniões no final do corredor. A porta de vidro estava entreaberta, e a luz lá de dentro derramava um feixe no chão escuro. A curiosidade me puxou.
Espiei pela fresta. Lá estavam eles: Pedro, Sofia e João. Estavam sentados ao redor da grande mesa, garrafas de cerveja e caixas de pizza espalhadas. Eles estavam comemorando.
"Eu não acredito que ela realmente achou que o João ia defendê-la," disse Sofia, sua voz cheia de desdém. Ela deu uma gargalhada alta, jogando a cabeça para trás.
João sorriu, um sorriso sem graça.
"Foi mal, cara. Mas você sabe como é. Pedro é o chefe."
Pedro deu um tapinha nas costas de João.
"Você fez a coisa certa, garoto. Lealdade é tudo. E a de Luna estava... mal direcionada."
Eles brindaram. O som do vidro batendo me fez recuar. Meu estômago se revirou. Eles não estavam apenas felizes por eu ter ido embora; eles estavam zombando da minha dor, celebrando minha queda sobre os restos do projeto que eu criei.
Eu me afastei da porta, meu corpo tremendo. Peguei minha caixa e caminhei em direção ao elevador, o mais rápido que pude. Eu não queria que eles me vissem. Não queria dar a eles a satisfação.
Enquanto esperava o elevador, uma jovem que eu não reconheci saiu de outra sala. Ela parecia ser uma nova estagiária. Ela me viu com a caixa e sorriu, um sorriso genuíno e inocente.
"Você está de mudança? Ah, você deve ser a Luna. Ouvi falar muito de você. Sou a Clara."
Ela estendeu a mão. Eu fiquei paralisada por um segundo, meu corpo tenso. Por um momento, a gentileza dela pareceu uma ameaça.
"Oi," eu disse, sem apertar a mão dela. "Eu... eu já estou de saída."
"Ah, que pena," ela disse, parecendo sinceramente desapontada. "Sofia me disse que você era incrível, mas que decidiu buscar outras oportunidades. Ela parecia tão triste por você estar indo."
As palavras dela me atingiram. Sofia já estava construindo sua narrativa, pintando a si mesma como a amiga leal e solidária. A manipulação era tão profunda, tão calculada.
O elevador chegou, e as portas se abriram com um som suave.
"Bem, boa sorte então," disse Clara, ainda sorrindo.
Eu entrei no elevador e apertei o botão do térreo. As portas se fecharam, cortando a imagem daquela garota ingênua. Eu me encostei na parede fria do elevador, a caixa pesada em meus braços.
Dentro da caixa, vi o canto de um dos meus cadernos de esboço. Nele, estava o primeiro rascunho do logotipo do projeto Vanguarda. Era uma flor de íris estilizada, um design do qual eu me orgulhava muito. Agora, olhar para ele me causava náusea. Era o símbolo da minha maior conquista profissional e, agora, da minha maior traição. Meu coração começou a bater mais rápido, e senti minhas mãos suarem. Aquele símbolo, antes uma fonte de orgulho, agora era um gatilho para a minha dor.
As portas do elevador se abriram no saguão. Saí do prédio sem olhar para trás, deixando para sempre o lugar que roubou meus sonhos e me ensinou a desconfiar.
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