
Traída Por Um Falso Herdeiro: A Saída da Esposa
Capítulo 2
A tinta nos papéis do divórcio mal havia secado quando entrei no hall da mansão.
O ar cheirava a cera de carnaúba e dinheiro antigo — forte, estéril e sufocante. Meu quadril era uma tela latejante de hematomas roxos e pretos, cuidadosamente escondidos sob a lã pesada do meu suéter.
Dante estava na sala de estar, comandando um pequeno exército de carregadores que transportavam caixas com logotipos da Hermès e da Chanel para a ala de hóspedes.
Mia estava empoleirada no sofá, saboreando uma tigela de morangos. Ela me ofereceu um sorriso sacarino no momento em que apareci.
"Ah, Serena", disse ela, com a boca manchada de vermelho. "Dante insistiu. Ele disse que as escadas do meu apartamento eram simplesmente perigosas demais para o herdeiro."
Dante se virou para me encarar.
A exaustão havia gravado sulcos profundos ao redor de seus olhos. Ser um Don significava administrar um império construído sobre sangue e dinheiro, mas ultimamente, ele parecia gastar todas as suas reservas gerenciando os humores voláteis de sua amante.
Seu olhar caiu sobre o envelope em minha mão.
"O que é isso?", ele perguntou.
Joguei-o sobre a mesa de centro. Ele deslizou pela superfície de mogno polido e parou bem na frente de Mia.
"Minha demissão", afirmei secamente.
A testa de Dante se franziu, uma tempestade se formando em seus olhos.
"Não comece com isso de novo, Serena. Nós conversamos sobre isso. Assim que a criança nascer, ela vai embora. É um acordo de negócios."
"Negócios." Deixei a palavra pairar no ar, sentindo seu amargor.
"Ficar na chuva por três dias do lado de fora do portão do meu pai, dez anos atrás, foi só negócio? Jurar pela sua vida que eu era sua única fraqueza... isso também foi negócio?"
"Assine", exigi.
Mia pegou os documentos, examinando-os com um brilho de triunfo nos olhos. Ela tirou uma caneta da bolsa e a estendeu para ele.
"Aqui", ela insistiu suavemente. "Talvez seja melhor assim, Dante. Ela está claramente instável. O estresse não faz bem para o bebê."
Dante deu um tapa na caneta, arrancando-a da mão dela.
"Chega!", ele rugiu.
Os carregadores congelaram no lugar. Dante caminhou em minha direção, sua sombra iminente me engolindo por inteiro.
"Você é minha esposa", ele rosnou, sua voz baixa e perigosa. "Você não pode se demitir. Você me pertence. Esse é o voto."
Ele agarrou meu braço, seus dedos cravando-se exatamente no lugar que ele havia machucado ontem. Eu não vacilei. Não pisquei. Apenas o encarei, vendo um estranho usando o rosto do meu marido.
"Preciso sair", eu disse.
"Onde?", ele exigiu.
"Para longe daqui."
Arranquei meu braço e me virei para a porta. Ele me seguiu, como sempre fazia quando sentia que seu controle estava escapando.
"Eu te levo", disse ele, seu tom não deixando espaço para discussão. "Você não vai a lugar nenhum sozinha."
Entramos em seu SUV blindado. O silêncio lá dentro era sufocante, pesado com palavras não ditas. Ele dirigia agressivamente, costurando o trânsito de São Paulo, seus nós dos dedos brancos contra o volante de couro.
Ele estava com raiva porque eu não estava cedendo. Ele estava acostumado a me ver quebrar.
Seu telefone tocou. Um toque específico, de prioridade.
Ele atendeu no primeiro toque.
"Mia?"
Sua voz suavizou instantaneamente, uma ternura que eu não ouvia há anos.
Observei a chuva riscar o vidro à prova de balas, borrando as luzes da cidade.
"O quê? Dor? Onde?"
Ele pisou no freio. O veículo pesado cantou pneu até parar.
Estávamos em um bairro desolado, a quarteirões de distância da segurança, cercados por muros pichados e janelas com tábuas.
"Tenho que voltar", disse ele, virando-se para mim com olhos selvagens. "Ela está com cólicas."
Eu olhei para ele, incrédula.
"Você está me expulsando?"
"Serena, é uma emergência. O herdeiro..."
"Saia", ele rosnou.
Não era um pedido.
Abri a porta. A chuva me atingiu como um tapa físico, fria e implacável. Pisei na calçada, a água gelada encharcando meus sapatos instantaneamente.
"Chame um carro", ele gritou, já engatando a marcha à ré.
Ele não esperou para ver se eu estava com meu celular. Ele não esperou para ver se eu estava segura.
Ele manobrou o carro enorme e acelerou, suas luzes traseiras desaparecendo na tempestade.
Eu não chamei um carro. Eu não tinha celular. Eu não tinha carteira.
Então eu andei.
Andei por horas. Andei até meus ossos tremerem e meus dentes baterem com tanta força que doíam.
Caminhei até a Prefeitura, apenas para encontrar as pesadas portas trancadas pela noite. Sem ter para onde ir, voltei.
Quando finalmente tropecei para dentro da mansão, eu estava queimando em febre. Minha cabeça girava em uma névoa estonteante, e minha garganta parecia estar cheia de cacos de vidro.
Arrastei-me escada acima até a suíte principal.
A porta do quarto do pânico — agora convertido na suíte de Mia — estava entreaberta.
Ouvi uma voz. A voz de Dante.
Suave. Amorosa.
Ele estava lendo "Boa Noite, Lua".
Encostei-me na parede, deslizando para o chão quando minhas pernas finalmente cederam.
Ouvi meu marido ler uma história de ninar para a barriga de outra mulher enquanto eu estava deitada no chão, tremendo em minhas roupas molhadas, queimando com uma febre que ele havia causado.
Fechei os olhos.
E deixei a escuridão me levar.
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