Capa do romance Toda sua

Toda sua

8.8 / 10.0
Eu sabia que um dia te encontraria vadia..., vagabunda! - Ahhh!!! - gritei alto quando ele agarrou meus cabelos, meu único pensamento era proteger minha barriga. - Então era aqui que estava esse tempo todo, maldita? - Me... solte... - Você está grávida, sua puta? - Pelo amor de Deus, me solte... Naquele momento algo escorreu pelas minhas pernas, meu marido veio correndo ao ouvir meu grito, ele se assustou ao me olhar e ver a arma apontada para meu ventre. Meu algoz o observou de uma maneira tão fria e cruel que se seu olhar pudesse matar alguém, meu marido já teria caído duro no chão. Os dois homens começaram a discutir e o pavor de que algo ruim acontecesse ao meu bebê me deixou paralisada. Eu mal conseguia respirar com medo de que minha barriga encostasse mais no cano da arma. O velho que estava me segurando olhava para meu marido com ódio e aos berros o acusou de traição. Meu marido tentava, através do olhar, me dizer que tudo iria dar certo, mas eu duvidava que aquilo fosse acontecer. O velho gritava tanto que eu não conseguia entender quase nada. - Você estava com ela esse tempo todo, garoto? Você mentiu para mim, caralho?! Onde a encontrou? Quando? De quem é esse bastardo? Meu marido deu um passo para mais perto e aquilo foi suficiente para meu algoz passar seu braço pelo meu pescoço e me empurrar mais para trás. Por azar, agarrei seu braço para o impedir de me sufocar, mas o aperto ficou pior quando ele viu minha aliança de casamento. - Que porra é essa, vadia? Você se casou?! - Solte minha esposa! - meu marido exigiu numa vã tentativa de me salvar. As contrações estavam começando a aparecer e temi que meu filho nascesse ali, no meio daquela disputa. - Sua esposa? Então é isso que você fez, seu maldito? Se casou com ela para tirar minha cadeira? Que traição mais vil! - Solte-a e poderemos conversar. - Dê mais um passo e acabo com a raça desse bastardo que ela carrega. Ou farei melhor, vou levá-la embora e o arrancarei com minhas próprias mãos, o que acha? Vejo meu marido tentar dar mais um passo. Eu conseguia sentir seu desespero, porquê era o que eu sentia também. - Nem mais um passo ou eu atiro! Uma dor atravessou minha barriga me fazendo uivar e mais líquido desceu por minhas coxas fazendo-me perder o foco da discussão. Os fatos se desenrolaram à minha frente em câmera lenta. Eu iria morrer e levar meu filho comigo, deixando o único homem que amei na vida sozinho. A dor daquela revelação foi tão forte quanto as contrações. Mesmo com dores horríveis consegui perceber que a pistola antes apontada para mim, naquele instante estava sendo apontada para meu marido e num último ato de coragem, empurrei meu algoz, que se desequilibrou e apertou o gatilho.

Toda sua Capítulo 1

ão me lembrava de muita coisa, em um minuto eu estava deitada na mesa de exame com Papito em cima de mim e no outro, estava sendo arrastada daquela sala por um dos homens de Otávio. Minha perna esquerda doía demais e mesmo com um pano amarrado, algo escorria. O resto do meu corpo estava amortecido por tudo que aconteceu nas últimas horas, eu não sabia se estava delirando ou se Papito realmente me bateu daquele jeito. Durante os anos que vivi na casa de campo, ele sempre foi bom, mesmo quando perdia a paciência o próprio parecia se controlar, mas ali naquele ambiente cheio de homens estranhos, ele parecia ser outra pessoa. Lá no fundo eu sabia que não estava bem, meu corpo parecia flutuar e não conseguia ficar com meus olhos abertos. Não sabia quanto tempo se passou, mas vejo Otávio parado ao meu lado dizendo algo que mais parecia ser uma pergunta, entretanto, minha mente estava lenta e o sono me venceu de novo. Acordei e daquela vez pude olhar ao meu redor com mais atenção. Vi Otávio mexendo na minha perna e aquilo doía. Ele balbuciou algo, me pegou no colo e eu apaguei de novo só por alguns minutos. Tentei brigar com aquela lentidão do meu corpo em obedecer, mas Otávio me prendeu em algo que não soube identificar: — Fique calma, Aurora, o efeito da droga está demorando a passar, mas vejo que já consegue me ouvir. Vou te tirar da cidade, não é seguro para você aqui. — Hummm... — tentei falar, mas as palavras não saíram, minha língua estava grudada no céu da boca. Pelo que consegui observar, estávamos em um carro. — Aurora, tente descansar, você está segura. Deixei o sono me levar mais uma vez. Sonhei com Papito, ele me dizia coisas que não entendia… “— O que está fazendo? — Calma princesa. É o exame. Lembra que eu falei que iria prepará-la? Então, estou apenas ajudando o médico, tenha calma. — Eu não quero isso, Frederico. — Mas é preciso, Aurora. Pense em seu pai.” De repente escutei tiros e não sabia se ainda estava sonhando ou se era realidade. Uma mão forte agarrou meu ombro e me chacoalhou. — Aurora... AURORAAA..., acorde..., estamos sendo atacados! Abri os olhos e vi que Otávio dirigia e atirava ao mesmo tempo. Estava sentada no banco do passageiro e ele gritava que estávamos sendo perseguidos. Pensei em Papito e não sabia se ficava feliz ou com medo dele estar atrás de mim para me obrigar a fazer aquelas coisas. Não tive muito tempo para pensar, pois Otávio parou de atirar e segurou o volante. Com a outra mão, ele soltou meu cinto e forçou minha cabeça para baixo, como se quisesse tirar meu corpo da linha de tiro. Em poucos segundos, o pior aconteceu, Otávio gritou SEGURE-SE, ao mesmo tempo em que escutei vários tiros sendo disparados. Mesmo com a cabeça quase colada entre os joelhos, arrisquei olhar para o lado, Otávio tinha voltado a dirigir com uma mão e com a outra, a atirar. Estava assustada com a troca de tiros, mas algo nos atingiu, o barulho de vidro se quebrando foi muito alto e senti o veículo balançar de um lado para outro fazendo com que Otávio perdesse o controle e depois não consegui ver mais nada quando o carro começou a rodar. Sentia frio, muito frio. Minha cabeça latejava e meu corpo queimava. Abri os olhos gradualmente e me olhei, estava toda suja de lama. Com cuidado, consegui me sentar. Olhei para os lados e vi uma mata e um pouco mais à frente, luzes. A distância não parecia ser tão grande, mas fraca como estava não sabia se conseguiria andar até lá. Com dificuldade, me arrastei para longe da água e agarrando um pedaço de tronco de árvore que encontrei, me levantei. Com o corpo tremendo de frio, vou andando devagar até achar uma árvore grande. Me sentei entre duas raízes e me cobri com folhas secas na tentativa de me aquecer, em algum momento devo ter apagado mais uma vez. Quando acordei e tomei consciência das dores, percebi que tudo que aconteceu foi real e não um sonho ruim. Fiquei em silêncio, esperando que alguém aparecesse ou a morte me levasse. Não sabia por quanto tempo fiquei naquele lugar, tremendo e com dores horríveis, mas me assustei ao escutar barulhos. Olhei para a escuridão e vi luzes ao longe e tive esperança de encontrar ajuda. Com dificuldade, me apoiei no pedaço de madeira e me ergui, comecei a caminhar lentamente em direção às luzes. Fui parando para respirar às vezes e me obrigando a dar um passo atrás do outro. O dia amanheceu, mas as luzes continuam acesas. Ao chegar mais perto, vi várias mulheres agarrando-se com homens enquanto outras estavam com seringas nas mãos. Abaixei a cabeça e fui passando devagar no meio daquelas pessoas estranhas, uma delas tinha um cordão grosso e brilhante no pescoço e me olhou por vários minutos, era um homem. Ele pegou algo e colocou no ouvido, mas alguém gritou o que eu supunha ser o seu nome e então o sujeito colocou aquilo no bolso, me encarou uma última vez e foi embora. Fui andando por ruas e mais ruas, mesmo com o dia claro, elas eram escuras e cheiravam mal. Vi vários homens saindo de uma casa e mais outros entrando. Com medo, segui para uma rua mais afastada e ao virar, percebi que ela não tinha saída, mas estava cansada demais para voltar e procurar por outro lugar.

 Ali cheirava muito mal, havia ratos e baratas andando pelas paredes. Meu corpo já não aguentava mais, minhas pernas estavam fracas e só não caí porquê ainda estava me apoiando no pedaço de madeira. No canto mais afastado daquele beco, vi umas caixas e andei naquela direção. Quando cheguei, peguei algumas e as rasguei, usando minhas últimas forças para fazer uma cama de papel e me deitar. Minha roupa estava colada ao corpo e os tremores estavam mais fortes. Exausta, fechei meus olhos e rezei para que meu pai, lá do céu, mandasse alguém para me ajudar. Não sabia dizer a que horas voltei a sonhar com Papito e daquela vez eu estava no meu quarto na casa de campo. “— Princesa, agora vamos conversar um pouco sobre o que vamos fazer na noite de núpcias. — Núpcias? — Sim. Quando um homem se casa com uma mulher a primeira noite do casal é chamada de noite de núpcias onde a esposa entrega o corpo para o marido para selar a união deles. — É aí que faremos como nos filmes? — Sim, mas antes tem toda uma preparação, princesa. Você terá que tirar toda minha roupa e eu vou tirar a sua...” — Aurora, eu não mandei que você mudasse de posição. — Estou cansada, Papito, minhas pernas estão doendo. — Então pegue o divã e o coloque no lugar da poltrona...” Acordei assustada e vi um cachorro perto de mim. Ele me olhou e saiu como se não tivesse visto nada. Olhei para baixo e vi ratos andando por cima das caixas, mas estava tão cansada que não consegui espantá-los. Minhas pálpebras pesaram, e eu sabia que se os fechasse, veria Papito de novo e eu não queria, mas foi impossível ficar com os olhos abertos, meu corpo desligou sem minha permissão.

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