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Capa do romance Tentação

Tentação

Aíslan é um CEO arrogante de 38 anos que vive amargurado desde que ficou viúvo. Para ajudá-lo, seu amigo Henrique o envia para passar férias em Natal. Lá, ele conhece Catléia, uma escritora atraente que lida com o luto após perder o namorado em um incêndio. O encontro desses vizinhos transforma o verão em um turbilhão de conflitos intensos. Embora precisem de trégua, a teimosia mútua impede a paz, despertando sentimentos que nenhum dos dois esperava sentir.
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Capítulo 3

Após secar todo o chão por onde Skoob passou, Aislan tratou de

descarregar a bagagem do carro, alimentou o dog, guardou suas roupas e

pertences nos armários e aí se deparou com o presente deixado por

Henrique. Com um sorriso irônico ele coça a cabeça não acreditando no que

o amigo lhe comprou. Ao se ver livre de suas tarefas, Aislan decidiu

almoçar em um dos quiosques. A sua vontade era de almoçar a beira mar,

mas dirigir depois de uma manhã tensa e cansativa não estava mais em seus

planos. Skoob voltou a brincar com as crianças na lagoa, enquanto o saradão

se deliciava com uma bela porção de feijão verde, prato típico do estado e

nem preciso dizer, né? Foi amor à primeira vista e com direito a um:

“Garçom! Traga mais uma porção, por favor.”.

Tudo corre bem e por aquele momento Aislan aproveita para absorver a paz

que lhe invade, mesmo sofrendo com os 28° à sombra. A alegria das pessoas

ali presentes é contagiante. Crianças e seus familiares se divertem em

companhia do Skoob na lagoa. Alguns jovens escutam músicas e bebem no

outro extremo da lagoa. Nos quiosques, casais se entreolham apaixonados

durante o almoço. Em outras mesas, amigos contam piadas de bêbados, por

já estarem embriagados.

Mesmo com a alta temperatura o vento bate brando e suave, refrescante.

Literalmente, Aislan está em paz e satisfeito, surpreendendo a si mesmo.

Durante o voo ele refletiu em sobre realmente precisar daquela viagem, que

ela lhe faria bem, mas em momento algum imaginou que a transformação

aconteceria logo no primeiro dia. Após o almoço ele se permitiu tirar uma

soneca na rede armada na varanda da casa. Um repouso desejado... Um sono

tranquilo... Até que por volta das sete da noite, o seu sono é interrompido

por gritaria, latidos e miados...

— Finn! Finn! Volta aqui! Finn... — chamava em meio às lágrimas.

Só deu tempo de Aislan abrir os olhos e ver um corpo pequeno se perder em

meio à mata às margens da lagoa. Skoob não para de latir, assim como um

cão peludo que está ao lado da vizinha debutante da High School Music que

não para de gritar. Alguns quiosques já fecharam. Os visitantes já se

retiraram e a noite está linda, ou melhor, era para estar...

— Finn! Finn!... A culpa é sua! — grita ela desesperada.

Lá vem a Sharpay Evans com o sangue nos olhos em direção ao belo

adormecido que se levanta tentando entender o que está acontecendo. Bom!

Deixe que a vizinha explique.

— A culpa é toda sua! — ela o acusou mais uma vez.

— Desculpa senhorita, mas se não percebeu eu estava dormindo. Por

acaso cometi algum crime durante uma crise de sonambulismo? — fez

graça.

— O seu cachorro quase matou o meu gato e agora o Finn fugiu. Fugiu!

Você tem noção do que isso significa?

— Significa que o seu gato simplesmente se assustou, mas relaxa. Assim

que eu colocar o Skoob para dentro de casa o seu gato vai voltar e tudo

ficará bem. Agora a senhorita pode parar de gritar?

— Eu não estou gritando e tudo só ficará bem quando o meu gato estiver

em meus braços.

— Se quer um corpo em seus braços eu posso resolver esse problema.

— Como é que é? Estou vendo que eu serei obrigada a ir embora mais

cedo do que planejei. Seu atrevido...

— Sinta-se a vontade!

— Você é um ogro! Não! Não! Até o Shrek é mais gentil e educado do que

você. Escroto!

E assim vai a vizinha de volta às margens do rio a procura do seu gato.

Nosso ogro apenas ri. Ri da situação, ri da conversa e ri principalmente da

imponência. "Só que não". Da vizinha irritante e histérica. Aislan prefere

não colocar mais lenha na fogueira e chama Skoob que ainda está na

competição de quem late mais com a cadela da raça Bernese à beira da

lagoa. Cadela e não o cachorro da vizinha que ele vira hora antes.

— Era só o que me faltava... Uma cadela... Que você não esteja no cio,

mocinha... Skoob! Vamos! Pra dentro. Agora, rapaz. Vamos, vamos!

Skoob obedece e adentra a casa enquanto a cadela se cala, mas o segue até a

varanda abanando o rabo. Aislan até que a acha bonitinha e se atreve a

acaricia-la, mas não por muito tempo. A vizinha está possessa e não admite

que um idiota daqueles, toque em sua doce cachorrinha.

— Luna! Já pra casa. Não vê que você está se contaminando?

— Haha! Boa noite pra você também.

Ela não responde e sai irritada, parando na varanda a morena balança os

ombros e sacode os cabelos pretos.

Aislan procura não se exaltar. A cadela se afasta e ele entra fechando a

porta. Mesmo já tendo anoitecido o calor prevalece. Nenhum sinal de vento.

As cortinas nem se mexem obrigando Aislan a abrir uma por uma e sair

ligando os ventiladores de teto por toda a casa. Um arrepio lhe percorre o

corpo e surge a impressão de que ele está sendo observado. Um estalo vindo

do telhado o assusta. Seu cachorro dorme no sofá da sala de TV e parece não

ter ouvido nada. A sensação de estar sendo observado preocupa Aislan e ele

anda pela casa olhando para o teto esperando ouvir algum barulho

novamente. Nessa, ele bate o joelho em uma das cadeiras e seu grito de dor

acorda Skoob e também a Luna que começa a latir na casa ao lado. Na casa

ao lado onde a vizinha está na janela da cozinha rindo dele. Furioso, Aislan

apaga a luz, pega uma cerveja e vai mancando para a sala. Ao passar por um

dos quartos ele vê o vulto da vizinha caminhando também. Ele chega à sala e

ela adentra a sala da casa dela que também está com todas as janelas

abertas.

— Qual é dessa mulher? Parece uma assombração... Mas que se dane. Eu

não vou fechar cortina por causa dela e muito menos passar nervoso. Um

joguinho de futebol pra relaxar, cerveja gelada e tá tudo certo — diz ele

enquanto se estica no outro sofá frente à TV e de costas para a janela.

A cerveja acaba, ele se levanta, vai ao banheiro, volta à cozinha e pega mais

uma cerveja. As luzes da cozinha da casa ao lado estão apagadas. As do

quarto também, assim como as da sala onde só se vê o brilho da tela de um

notebook onde a vizinha digita algo e logo o encara. Aislan disfarça e volta a

se deitar. A cerveja acaba, bate a fome e nosso amigo retorna a cozinha para

preparar um lanchinho leve. Água na chaleira posta para ferver e mais uma

cerveja gelada e refrescante. Ainda com a porta da geladeira aberta ele

retira dois tomates e uma cebola e os coloca na pia. Um gole na cerveja, uma

procura rápida pela tábua de carne no armário abaixo da cozinha. O levantar

e outro susto. A vizinha lhe observando outra vez, descaradamente. Ela está

sentada por trás da bancada tomando o que parece uma sopa.

— Agora deu! Além de estranha é maluca. Quem toma sopa num calor

desses? — resmunga.

Aislan! Para de implicar! Deve ser sopa fria, você mesmo toma de vez em

quando... — pensou consigo mesmo, — E não é nada anormal, mas

anormal é ela ficar ali prestando atenção em tudo o que faço. Quer

saber? Deixa ela ver.

E assim ele tenta dar continuidade aos seus afazeres sem se irritar. A água

ferve. No armário ao lado da geladeira ela pega os pacotinhos de quino-a e

castanhas. Com uma xícara ele mede porções da quino-a e os coloca na

panela jogando em seguida a água fervente. Enquanto cozinha, ele pica os

legumes e as castanhas e entre um gesto e outro olha de relance para a

vizinha que ainda está ali, disfarçando com manuseios do celular.

— Acha que eu sou bobo é? Essa mulherzinha está me irritando.

Skoob desperta e, confuso, senta perto da pia não entendendo o que o dono

está a dizer.

— Skoob, essa mulher é maluquinha. Evita chegar perto dela está bem?

Bom garoto.

As quino-as estão cozidas. Aislan coloca a panela por cima de um pano

molhado sobre a pia para que esfriem mais rápido. Ouvem-se batidas e

passos no telhado. Um som baixo e abafado. Aislan se assusta e novamente

saí andando pela casa olhando para o teto. Skoob late e o som para.

— Mas que merda é essa? Fica quieto, Skoob. Shiii!

Ao percorrer toda a casa e não ouvindo mais os barulhos ele retorna à

cozinha.

— Que merda será essa hein Skoob? Pássaros? Só pode. A Manu também

não têm juízo algum. Onde já se viu em plena década de 2020, alguém

construir uma casa com telhado? Isso é tão brega e ultrapassado e ainda

construiu a casa idêntica a da vizinha. Não estou vendo nenhum

condomínio fechado por aqui. Gente maluca.

Se a esposa de Henrique o ouvisse falar assim iria relevar esse comentário

por conta do stress que ele está passando. Não tendo mais paciência para

esperar e já ficando puto com a vizinha que não saí da maldita bancada,

Aislan pega a forma de gelo no freezer e despeja na pia colocando a panela

com as quino-as sobre as pedras. Ele está irritado, quer logo sair dali. Com

a colher de pau ele mexe as quino-as e evita olhar para fora. Cinco minutos

se passam, a raiva o consome e com pressa ele despeja os legumes

reservados sobre as quino-as ainda mornas e tempera de qualquer jeito.

— Ufa! Enfim estão prontas. Quer um bocadinho, Skoob?

O balançar da cabeça para um lado e para o outro meia dúzia de vezes

respondeu a pergunta. Não, o Skoob não quer ração de humano. Pegando uma

colher na gaveta, Aislan olha pra fora. A vizinha não está mais lá.

— Ela saiu, Skoob. Deve ter voltado para a sala. Quer saber? Cansei.

Esses ventiladores quebram o galho. Vou fechar as janelas. Chega de

palhaçada.

Assim ele faz. Com a panela na mão sai fechando todas as janelas. Chegando

à janela da sala, ele comprova a sua suposição. A vizinha está lá, atenta aos

seus movimentos bruscos, por sinal.

Janelas e cortinas fechadas e a paz reina naquele lugar. Jogo de futebol na

TV, lá fora as músicas são encerradas, os quiosques são fechados. Os

bêbados voltam tagarelando para suas casas e o silêncio se faz presente.

Aislan abaixa o volume da TV e aprecia o único som do lugar. O som vindo

da lagoa e da natureza.

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