
Tentação Proibida
Capítulo 2
Wesley James Carter, detento da penitenciária Arthur Kill e verdadeiro bad
boy, sorriu ironicamente para o guarda que ao longo dos últimos dez minutos lhe
perguntava qual era o seu número de interno.
Dizer que o comportamento insolente e a expressão divertida de Carter
deixavam o homem gordo e careca agitado seria eufemismo. O cara estava
quase espumando pela boca.
Era sexta-feira e já fazia cinco minutos que o guarda havia batido o ponto de
saída.
Mais um motivo para Carter ser um babaca folgado.
O guarda passou a mão impaciente pela nuca roliça e seus olhos cansados se
estreitaram.
– Escute aqui – disse ele em um tom baixo e ameaçador, que sem dúvida
funcionava como uma faca na garganta dos outros detentos. – É muito simples.
Você me dá o seu número. Eu coloco neste formulário que tenho que preencher
para o seu conselheiro aqui na penitenciária e aí posso ir para casa.
Carter ergueu uma sobrancelha, desafiadora, e ficou olhando para aquele
panaca atarracado.
Sem se amedrontar, o guarda se recostou na cadeira giratória.
– Você não me dá o seu número e minha mulher fica furiosa. Ela fica furiosa
e eu vou ter que explicar que um delinquentezinho metido me fez ficar
esperando. Aí ela vai ficar mais furiosa ainda, berrando que o dinheiro dos nossos
impostos é que garante três refeições diárias e macacões para perdedores como
você. – Ele se sentou mais para a frente. – Então, última vez. Número.
Carter olhou com indiferença para o punho do guarda segurando o cassetete
acoplado ao cinto e deu um suspiro longo e entediado. Qualquer outro dia, ele
estaria pronto para fazer aquele idiota perder a cabeça; ele seria espancado com
um sorriso no rosto. Mas, hoje, ele não estava no clima.
– 081056 – respondeu Carter friamente, incapaz de resistir a uma piscadela.
Com uma carranca raivosa, o guarda anotou o número no formulário, aí
rodou a cadeira até uma assistente administrativa jovem e loura e lhe entregou o
papel. Aquele gordo arrogante era preguiçoso demais para levantar e dar seis
passos.
Carter esperou enquanto a loura digitava o número que praticamente tinha se
tornado seu nome adotivo nos últimos dezenove meses. Ele sabia quais acusações
apareceriam no monitor: arrombamento de carro, porte de arma, posse de
drogas, conduta desordeira e embriaguez, só para citar algumas. Ao contrário do
que pensavam, ele não se orgulhava da lista de crimes e delitos que podia encher
duas telas inteiras. Mesmo assim, aquilo dava a ele um senso de identidade, algo
que ele procurara desinteressadamente por quase todos os seus 27 anos de vida.
Ele ainda estava à procura e, até que encontrasse aquela coisa, a lista era tudo o
que ele tinha.
Tanto faz.
Ele esfregou a mão nos cabelos raspados. Estava cansado de pensar naquilo.
O barulho do papel sendo rasgado numa antiga impressora o trouxe de volta à
Terra.
– Bom, Sr. Carter. – O guarda suspirou. – Parece que sua estadia conosco vai
se estender por mais dezessete meses. Por ser pego com cocaína.
– Não era minha – disse ele secamente.
O guarda o fitou com uma expressão nada sincera de compaixão antes de
sorrir.
– Que peninha.
Carter não respondeu, ciente de que, dali a poucas semanas, entraria com o
pedido de liberdade condicional, e pegou logo o formulário.
Ladeado por outro guarda de cara fechada, Carter passou pela mesa e
atravessou um corredor longo e estreito em direção a uma porta branca, que ele
abriu com um tapa barulhento. O recinto era claustrofóbico e árido e fedia a
confissões. Apesar das muitas horas que ele tinha passado naquele lugar
desolador, ainda sentia o pulso acelerar e as mãos suarem.
Com as costas eretas e os ombros firmes, ele andou em direção à mesa de
madeira barata onde um homem grande como um gorila sorria enquanto Carter
se aproximava.
– Wes – Jack Parker, seu conselheiro, o cumprimentou. – Que bom ver você.
Por favor, sente.
Carter enfiou as mãos nos bolsos do macacão e desabou desajeitadamente na
cadeira. Jack era a única pessoa que o chamava pelo primeiro nome. Todos os
outros o chamavam de Carter. Jack tinha insistido naquilo, explicando que era a
única maneira de eles dois conseguirem construir um relacionamento de
confiança.
Carter tinha explicado que aquilo era um monte de merda.
– Tem cigarro?
Carter olhou com desdém para o guarda parado na porta do outro lado do
recinto.
– Claro.
Jackjogou uma carteira de Camel e uma caixa de fósforos na mesa.
Os dedos longos e pálidos de Carter lutaram contra a embalagem. Fazia dois
dias desde seu último cigarro. Ele estava desesperado. Dois fósforos quebrados e
uma série de palavrões depois, ele finalmente inalou a fumaça densa e
inebriante. Fechou os olhos, prendeu a respiração e, por uma fração de segundo,
tudo estava certo no mundo.
– Melhor? – perguntou Jackcom um sorriso sagaz.
Soprando a fumaça por cima da mesa, Carter confirmou com a cabeça.
E ficou impressionado ao ver que Jack resistiu ao desejo de abanar a fumaça
para longe. Ambos sabiam que, se fizesse aquilo, encorajaria Carter a fazer de
novo; ele se apegava a qualquer sinal de fraqueza ou irritação com a tenacidade
de um terrier.
Era um mecanismo de defesa, aparentemente.
Eles haviam discutido isso em uma de suas primeiras sessões. O mecanismo
era tão bem executado que Carter parecia forte, dominante e – a maioria dos
funcionários e detentos da Arthur Kill haveria de concordar – intimidador pra
caramba.
Jack pegou um arquivo de quase 20 centímetros de espessura em sua maleta
e abriu, folheando os inúmeros relatórios, declarações da justiça e depoimentos
que, ao longo dos anos, descreviam Carter como uma “ameaça à sociedade”, de
“personalidade forte” e um “indivíduo inteligente que não possuía a
autoconfiança para reafirmar e canalizar isso de maneira correta”.
Mais uma vez, tanto fazia.
Carter estava cansado de ouvir quanto potencial tinha. Sim, ele era inteligente
e muito leal às pessoas de quem gostava, mas, até onde podia se lembrar,
simplesmente parecia não conseguir encontrar o caminho certo. Durante toda a
vida, ele tinha estado à deriva, nunca se sentindo bem-vindo ou confortável em
um lugar por muito tempo, lidando com sua merda de família e amigos que não
conseguiam ficar longe de encrenca por mais que cinco minutos.
Ao menos na prisão, a porra toda era simples. Problemas da vida real eram
como mitos urbanos contados por aqueles que vinham fazer visitas de vez em
quando. Não que Carter recebesse muitas visitas.
Jack foi até a última página do arquivo e escreveu a data no topo da folha em
branco, então apertou o botão do pequeno gravador digital que estava entre eles e
começou a gravar.
– Sessão 64, Wesley Carter, detento número 081056 – disse Jack com voz
monótona. – Como você está hoje?
– De boa – respondeu Carter, apagando o cigarro enquanto acendia outro.
– Ótimo. – Jack fez uma anotação curta no papel à sua frente. – Então, ontem
eu compareci a uma reunião relativa à sua participação em alguns cursos aqui na
penitenciária.
Carter revirou os olhos. Jackignorou.
– Sei que você tem opiniões formadas sobre esse assunto, mas é importante
que faça atividades que sirvam como um desafio para você enquanto estiver
aqui.
Carter jogou a cabeça para trás e franziu a testa para o teto. Desafio? O lugar
todo era a porcaria de um desafio. Era um desafio superar cada dia sem perder a
cabeça com alguns dos idiotas daquele lugar.
– Há algumas opções – continuou Jack. – Literatura inglesa, filosofia,
sociologia. Eu expliquei ao Sr. Ward e aos especialistas em educação que, apesar
de você ter tido problemas com seus ex-tutores, você não é mais o mesmo garoto
que largou a escola aos 17 anos. Certo?
Carter deu uma olhada cética para ele.
Jack colocou as pontas dos dedos debaixo do queixo.
– O que você gostaria de estudar?
– Tanto faz. – Carter deu de ombros. – Eu só queria que me deixassem na
minha, porra.
– Tudo faz parte das condições para ter uma chance de liberdade condicional
antecipada. Você precisa mostrar progresso na sua reabilitação. E, se frequentar
alguns cursos enquanto está aqui pode ajudar nisso, então você tem que entrar na
dança.
Carter sabia que ele tinha razão e aquilo o deixava furioso. Desde os 15 anos,
ele passava de um advogado para outro, de um oficial de condicional e de um
conselheiro para o seguinte, sem ideia de como ou se um dia faria algo mais
significativo com sua vida. E Carter não fazia a mínima ideia do que fosse
“significativo”.
Mesmo assim, depois de dezenove meses em Arthur Kill, ele estava
começando a pensar que
passar o resto de seus dias preso não era uma perspectiva tão atraente quanto
tinha pensado a princípio.
Quando era um adolescente teimoso, arrogante e agressivo, ele curtia ter tal
reputação. Agora, a animação e o entusiasmo haviam minguado. Tribunais,
centros de detenção e prisões não eram mais novidade e ele estava ficando
entediado com a justiça como um todo. Se não mudasse as próprias merdas,
passaria dos 30 tentando imaginar o que tinha acontecido com sua vida.
Jack pigarreou.
– Você teve alguma visita recentemente?
– Paul veio na semana passada. Max vai vir na segunda.
– Wes – suspirou Jack, tirando os óculos –, você precisa tomar cuidado com o
Max... Ele não é bom para você.
Indignado, Carter bateu a mão na mesa.
– Você acha que tem o direito de falar uma merda dessas?
Carter sabia que Jack considerava Max O’Hare uma doença, infectando todo
mundo à sua volta com seus problemas com drogas, seu longo histórico criminal
e sua habilidade de afundar os amigos na merda – o fato de Carter estar em
Arthur Kill era um desses casos. Mas Carter devia muito a Max.
Estar na prisão era simplesmente quitar uma dívida, e ele faria de novo sem
pestanejar.
– Não – abrandou Jack. – Não é isso que acho, de jeito nenhum...
– Então, ótimo – interrompeu Carter. – Porque você não tem a menor ideia do
que o Max passou, do que ele ainda passa. Amenor ideia!
Ele deu uma tragada longa no cigarro, encarando Jack por cima da brasa.
– Sei que ele é seu melhor amigo – disse Jack após um momento de silêncio
tenso.
– Sim – concordou Carter com um aceno firme de cabeça. – Ele é.
E pelo que Carter tinha ouvido dos caras que tinham vindo visitá-lo, Max
precisava dele agora mais do que nunca.
Mesmo quando Kat Lane estava dormindo, o mundo à sua volta era sombrio
e opressor, enchendo seus sonhos de medo. Suas mãos pequenas agarraram os
lençóis, torcendo-os em desespero. Seus olhos fechados se estreitaram e seus pés
começaram a se mexer enquanto dormia, à medida que ela se percebia
correndo, apavorada, por uma viela escura.
Um gemido saiu de sua garganta, enquanto via as imagens ininterruptas
daquela noite quase dezesseis anos atrás.
– Por favor – choramingou ela no escuro.
Mas ninguém viria para salvá-la dos cinco homens sem rosto que a
perseguiam. Ela se ergueu com um grito, suando e sem ar. Seus olhos
percorreram o quarto escuro antes de perceberem onde estavam; ela os fechou e
colocou as mãos no rosto. Com a garganta dolorida, suspirou, secou as lágrimas e
tentou se acalmar, respirando longa e lentamente.
Tinha acordado assim todos os dias nas últimas duas semanas, e a dor que a
atingia cada vez que ela abria os olhos era familiar demais. Ela balançou a
cabeça, exausta.
Amédica advertira que não parasse de tomar os comprimidos para dormir de
uma vez só, mas que diminuísse a dose gradativamente. Kat tinha ignorado o
conselho dela, determinada a conseguir passar uma noite sem o auxílio de
remédios. Parecia que sua determinação tinha se esgotado. Ela bateu com o
punho no colchão, frustrada, e então acendeu o abajur na mesa de cabeceira.
Mas a luz não amenizou o medo e o completo desamparo que os pesadelos
traziam.
Com um suspiro de derrota, ela se levantou e foi até o banheiro, piscando por
causa das luzes ofuscantes. Deu uma olhada em seu reflexo no espelho e franziu
a testa. Jesus, ela aparentava ter muito mais que 24 anos. Seu rosto parecia
cansado; os olhos verdes, entorpecidos e sem vida. Ela passou os dedos pelas
olheiras em torno deles, depois correu a mão pelo cabelo. Em vez do ruivo
volumoso de costume, estava fraco e seco, pouco abaixo dos ombros.
Sua mãe falara que ela havia perdido peso, mas Kat tinha ignorado aquelas
palavras. Ela sempre tinha que fazer algum comentário.
Kat não era nem um pouco magricela – sempre foi mais curvilínea do que
pele e osso –, mas suas calças jeans tamanho 38 realmente andavam mais largas
nos últimos tempos.
Ela abriu o armário e pegou um frasco de comprimidos. Ansiava pela noite
em que não precisaria depender de remédios para dormir. Não que os
comprimidos ajudassem muito; eles apenas entorpeciam uma dor que nunca
desapareceria. Depois de tomar duas pílulas azuis, ela se arrastou pelo piso de
madeira de volta para a cama.
Kat tinha percebido havia muito tempo que não existia sono profundo o
suficiente para escapar dos pesadelos. Estavam enraizados, eram parte dela;
nunca conseguiria se livrar deles. Sabia que nenhuma pílula ou terapia jamais
apagaria a escuridão e a dor dentro de si. Ela havia se tornado uma mulher
impetuosa e de personalidade forte. Era uma maneira segura de manter outras
pessoas a distância, escondendo seu desespero e seu medo por trás da sagacidade
e de uma língua afiada.
Ela afundou nos travesseiros de penas. Será que algum dia tudo aquilo ficaria
mais fácil?
Kat não sabia. Só conseguia se concentrar no fato de que o nascer do sol
significaria um novo dia, mais um para se distanciar de seu passado.
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