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Capa do romance TEATRO GÓTICO

TEATRO GÓTICO

Esta coletânea de Jéssica Cardoso de Oliveira apresenta peças teatrais que unem o medievalismo ao fantástico. Entre o sombrio e o encantador, a obra explora contos de fadas e folclore em tramas de aventura, guerra e rebelião. Inspirada em clássicos como Dante e Shakespeare, a narrativa provoca reflexões morais e políticas. O leitor é convidado a enfrentar monstros, aliar-se a cavaleiros e buscar respostas em túmulos, mergulhando em uma jornada profunda de autodescoberta e mistério.
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Capítulo 2

PERSONAGENS:

JAN VAN EYCK / SIBILA I

BEATA / SIBILA II

BRUXA / GIOVANNA

PADRE

ARNOLFINI

SERVO

BUFÃO

VASSALO

CAVALEIRO

PRIMEIRA PARTE

ARNOLFINI:

Meus senhores que visitam estas redondezas

Não se esqueçam de comprar belos tecidos, para bem exibirem as suas belas riquezas

São lãs, linhos, as mais finas sedas, brocados bordados

Comprem já para um traje especial, para ficarem bem adornados

É mais que um tecido, é uma obra excepcional

Artigos de luxo! Com muita vanglória!

Para que se conformar?

Alcançaremos muitas vendas, essa é nossa vitória!

Tecidos que os protegem contra o frio mais ameaçador

Olhe bem para este veludo, como é macio e aquecedor!

Venham, venham!

Quem quiser pode aproveitar!

Fiquem à vontade, vejam o que eu tenho a lhes apresentar

Vindos de toda a Borgonha

Temos as alternativas em preto, as mais encantadoras

Conquistem já os seus triunfos com as propostas mais incentivadoras

Temos de tudo até do Reino das Jequitinhonhas

Com estampas de flores e até de animais com bicos de cegonhas

Podem se vislumbrar, por que eu não lhes venderia?

Temos em várias cores, você não imaginaria?

Mercadorias que valem muito e pelas quais se paga pouco

Hoje em dia, basta contribuir

Não há segredinhos

Este aqui faz amansar até o cavalo louco!!

CENA I: FEITICEIRA EM CHAMAS

[Diálogo entre a Bruxa, o Padre e Arnolfini]:

[Ouvem-se gritos da bruxa e do povo. A julgada como bruxa é condenada à morte está prestes a ser queimada na fogueira, enquanto o povo grita como forma de manifestação contra o mal. Ela está desesperada, pois quer se livrar da morte. O padre da Igreja Católica inicia um discurso enquanto todos ficam em silêncio, apontando suas armas para a mulher. Ouvem-se gritos do povo, enquanto ela implora para não ser incendiada].

PADRE: Eis uma alma dilacerada que cometeu o pecado mais terrível: o de se relacionar com a Besta! Feiticeiras luciferianas faltam à graça e trazem maldição ao Reino Sagrado! São hereges! Estas não são dignas de existência e devem padecer diante das chamas! É injusto deixar que uma criatura pecaminosa viva enquanto o povo luta para conquistar seu espaço nos céus!

BRUXA: Hipócritas! Como podem me acusar de forma tão venenosa? – [fala interferindo o discurso e o povo aponta as lanças para ela que teme ser machucada].

PADRE: Lembrem-se que Adão e Eva comeram do fruto proibido e mereceram ser expulsos do Jardim do Éden! Neste mundo, o Satanás traz a sua falsa luz através da imagem da mulher pecaminosa que a mantém acesa. Não podemos nos entregar a ela, pois esta nos leva ao longo túnel do sofrimento, da tristeza, do aborrecimento e do desespero! Para o fundo das trevas! Temos que condená-la, abafá-la e martirizá-la antes que ela nos leve ao caminho da perdição eterna!

BRUXA: Arnolfini! Revele diante de todos quem tu és! Tu me abandonaste e me julgaste como indigna! Tu sabes o que fizeste e carregarás este peso de tua culpa até o último dia de tua existência!

ARNOLFINI: Não venhas esconder o que é o teu ser através desta falsa inocência, feiticeira de Lúcifer! Confesses o teu pecado, tu tens consciência do mal que causaste a mim e a este povo! Tuas facetas não enganarão mais ninguém! Neste momento é inútil te esconderes nas sombras de tuas próprias mentiras!

BRUXA: Calúnia! Acusas o outro com testemunho falso! O teu passado tu jamais poderás queimar e as chamas da tua culpa permanecerão acesas durante toda a tua existência na Terra até que chegue o teu julgamento final!

ARNOLFINI: Então queres me acusar para livrar-te da tua culpa?! Se for isto o que queres, então faças! Mas acabe com esta farsa, pois tu jamais conseguirás desfazer o que fizeste e não há como te vitimares! Cries as palavras mais defensoras que puderes, mas nada limpará a tua sujeira!

PADRE [fala interrompendo a discussão]: Diante dos céus, dou continuidade a esta cerimônia e sacrificamos o corpo que merece ser punido para nos livrarmos desta maldição terrena! Afastemos estes demônios que nos rodeiam, escurecendo o céu com o negro pecado, escondendo a luz divina. Olhemos para o alto e sintamos a mão de Deus, vinda dos céus iluminando com seus raios de esplendor. É disso que precisamos, não destes falsos anjos caídos que nos envolvem em pecados humanos, brilhando com suas asas negras, infestando nossos lares com o mal e amaldiçoando nossa Igreja. Que nos livremos destas malditas criaturas enviadas do inferno para causar tormento! E cuidemos, pois estão por toda a parte, surgindo de buracos profundos e escuros no chão, roubando nossas coragens para enfrentá-los e se alimentando de nossos medos. Afastemos as serpentes que enroscam pernas humanas nuas e envenenam com o pecado!

[Ouvem-se gritos da bruxa e do povo]

VAN EYCK:

Um fruto proibido é oferecido pela serpente do mal

Que nos ilude para tirar o proveito.

Para controlar a mente tola

E tornar o homem submisso

Ela é uma que vive querendo se esconder dentro de nós, vinda do inferno cheio de lodo e gases ferventes...

O mal quer a destruição contínua

Ele vem como um fogo que deixa nossas brenhas cinzentas

Que amaldiçoa a nossa água, deixando-a cheia de impurezas

Ele leva-nos à escuridão com seu veneno mortal.

Serpente do Éden,

Com olhos vermelhos, se rasteja pelas portas dos templos

Chave falsa para a entrada no paraíso

Aquela que quer o homem tentado

Volte para as trevas, sucumba em carne seca!

Suplicamos a luz verdadeira!

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