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Capa do romance TEATRO GÓTICO

TEATRO GÓTICO

Esta coletânea de Jéssica Cardoso de Oliveira apresenta peças teatrais que unem o medievalismo ao fantástico. Entre o sombrio e o encantador, a obra explora contos de fadas e folclore em tramas de aventura, guerra e rebelião. Inspirada em clássicos como Dante e Shakespeare, a narrativa provoca reflexões morais e políticas. O leitor é convidado a enfrentar monstros, aliar-se a cavaleiros e buscar respostas em túmulos, mergulhando em uma jornada profunda de autodescoberta e mistério.
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Capítulo 3

CENA II: O CASAMENTO DE ARNOLFINI

PADRE: Aquele que se une matrimonialmente deve ter a graça consigo mesmo de se lembrar sempre destas seguintes palavras: “o casamento deve unir as riquezas do casal desde agora até o último dia de suas vidas”. O cônjuge deve honrar sempre o direito de ter a sua esposa desde agora e para todo o sempre. Portanto, a esposa deve também honrar o direito de ter o seu cônjuge da mesma forma [...]. Assim sendo é desejada a fertilidade para dar continuidade à geração de sua família. Com estas alianças, jurem união matrimonial um ao outro diante de nós, testemunhas do casamento e perante à Igreja. E como documento legal certificando a ocorrência desta cerimônia em particular, será pintado um retrato por Jan Van Eyck.

ARNOLFINI [começa o juramento segurando a mão da cônjuge]: Eu, Giovan Arnolfini, que recebo esta aliança. Faço este desposório por minha mulher. Prometo honrar a minha esposa desde agora e para todo o sempre, diante de tua testemunha.

GIOVANNA: Eu, Giovanna Cenami, que recebo esta aliança, faço o mesmo juramento ao meu esposo, que vale agora e para todo o sempre.

SERVO: E em nome de nosso Todo-Poderoso, Criador do Céu e da Terra, prometo servir ao casal Arnolfini como pagamento de minhas dívidas à senhora feudal tendo devoção às mesmas palavras já ditas. Amém.

[Escurece a cena, foco em Van Eyck, com seu monólogo. Este é feito apenas para o público de forma que este representa os seus pensamentos de forma poética].

VAN EYCK:

O ilusório torna suavemente o que é onírico em algo grotesco.

Páginas de contos de fadas cujas linhas são palavras vazias

Mantiveram a chama cálida da ilusão acesa,

Mas não por muito tempo...

Foi assim que o paraíso foi destruído: com a própria farsa.

Por isso rasgue o seu livro, pois ele não disfarçará mais nada.

Tudo poderia ser perfeito por se esconder em belas mentiras,

Mas a verdade jamais poderá ser obscurecida eternamente.

O real se transparece diante das cinzas.

Cinzas de asas de borboletas queimadas.

CENA III: O PAGADOR DE PECADOS

[Diálogo entre o servo e o padre]:

SERVO: Padre! Eu tenho devotado grande parte da minha vida para servir à Igreja, como forma de ser perdoado pelos meus erros, para ir aos céus livre destes pecados imundos... Porém onde está a cura para esta peste que tem causado à minha família este tenebroso sofrimento?

PADRE: Como se atreve a falar desta maneira com nossa Igreja? Por acaso ousas duvidar das palavras do livro sagrado? Muitas feiticeiras de Lúcifer foram condenadas à morte por trazerem a maldição a este Reino... Essas pestes só devem vir dessas mulheres que se entregam à tentação! Que entram no caminho do diabo e não seguem as ordens da Santa Igreja! Pois nossas leis nunca devem ser ignoradas! Tu deves pagar pelas tuas promessas, pois ninguém alcança as alturas em vão! Foi-lhes este atrevimento perdoado, mas dívidas devem ser pagas, antes que suas origens levem às trevas! Os céus possuem decretos para sua entrada, isso requer que indulgências sejam pagas e foste tu quem cometeu o pecado de roubo. Agora para receberes teu perdão misericordioso, deves servir a quem tomou o que não lhe pertencia!

SERVO: Eu lhe imploro, caro sacerdote! Suplico-lhe graça! [fica de joelhos e olhos baixos] Deixe-me prestar explicação sincera! Minha chorosa face lhe apresento...

PADRE: Então digas meu caro homem...

SERVO: Roubei o remédio da propriedade da senhora feudal, para salvar a vida de minha esposa, que estava prestes a cair na desgraça de uma doença terrível. Ela estava sofrendo muito, então não quis que ocorresse o mesmo que aconteceu com meus filhos. Sou de origem modesta e não tenho dinheiro para pagar pelo preço do remédio, então o roubei justamente para tentar salvá-la!

PADRE: Ó filho, tens apenas que seguir as minhas ordens e esta será tua promessa para receberes a benção dos céus. O passado carregado de culpa permanecerá em ti por toda a eternidade se não cumpri-las. Só assim te livrarás deste inferno nevoento. Estrondosos seriam os gritos em suas chamas, por isso todos o temem. Um corpo cujo coração nunca foi honesto, culpado pelos próprios pecados latejantes, após o juízo final seria castigado... Nesta vida, há de se pagar pelo que se faz... É apenas com o sofrimento que as portas do paraíso se abrirão!

SERVO: Mas Vossa Reverendíssima! Nesta vida, a infelicidade está raiando diante de todos, pois muitos estão sofrendo com a praga e à beira da morte. É minha alma que incendeia pedindo para afastar a obscuridade do medo que impede o meu viver. Peço-lhe perdão para meus atos errôneos. Sou um ser compassivo que carece de dignidade, antes que lágrimas continuem a ser derramadas pela dor que esta epidemia tem causado à minha família...

PADRE: Não se desespere homem! A doença é castigo divino! Mas já que insistes, ouvirei o que tens a dizer...

SERVO: O que está acontecendo padre, é um mal que vai afligir o povo se tiver continuidade! Logo serão nossos filhos que adoecerão na miséria... Já pagamos muito para ter o benefício dos feudos e pouco sobra para o nosso sustento! Nossas famílias entrarão em desespero quando a peste nos atingir... Não há como cuidarmos de nossa saúde e ela se alastra até matar! Nós servos, nascemos, crescemos e morremos e não conhecemos liberdade alguma... Tudo o que procuramos é um pouco de vida nos céus! Vivemos presos a terra e ela nos traz esta maldição, esta triste agonia! Muitos já caíram na mendicância, outros já estão no banditismo! A rapina tira de nós o pouco dinheiro que temos e ainda cresce cada vez mais todos os dias, nos deixando sem o pão na mesa conquistado pelo nosso suor. Nossas casas estão quase desabando... Outros já estão tomados pelos prantos, pela dor insuportável e nem posso mencionar o número de pessoas que perdem suas vidas... Tudo o que queremos é nos livrar do tenebroso sofrimento que nos atormenta, dia após dia, noite após noite...

PADRE: A Santa Igreja existe com a função de nos afastar de todos os males infernais e fazer o homem ter sua indulgência para conquistar seu espaço no Reino dos Céus. Portanto, para livrar-te do mal, deves obedecer nossas ordens, pois sabes que o diabo sempre segue nossos passos e estará sempre ao nosso redor. Temos que enfrentá-lo orando, adorando ao Senhor e pagando o dízimo. Toda essa peste é maldição dos hereges! Destes praticantes de feitiçaria! Por que será que muitos já foram condenados? Ah! Não quiseram seguir a palavra da Igreja, então caíram na própria desgraça. É isto o que se merece por se estar preso pelas correntes do pecado! Sendo assim, jamais poderemos quebrá-las tão facilmente... Ou façamos isto ou esta será a agonia sem fim até a morte. Tu tens esta escolha de nos seguir ou de te tornar um profano, mas sabes que jamais serás salvo! E dê-me licença homem, tenho que prestar atenção a alguns peregrinos...

SERVO: Se é o que estás dizendo padre, eu sigo com fé o seu conselho...

VAN EYCK [aparece lentamente enquanto o padre sai de cena]:

Pague suas promessas e deixe os seus medos aqui comigo

Deixe-me lhe fantasiar, deixe-me brincar com o seu imaginário.

Eu posso fazer você acreditar que possui a verdade em suas mãos

E embora eu nunca tenha existido para você, eu sempre fui o reflexo de você mesmo.

Seu espelho partido em pedaços

Pedindo mais, na melancolia das trevas.

Buscando a felicidade como todos e uma chance de acreditar no amor da vida

Um em cores de pétalas rosadas, que agora estão cinzentas.

Descanse no embalo das sombras em sintonia

Pois tudo ao redor são luz e trevas imortais que definem o destino

Escrito e pressentido pelos profetas

E silenciado em rolos de pergaminho.

Nas mais belas iluminuras,

Elas permanecerão intocáveis.

SERVO: Quem é você? O que queres? [diz assustado].

VAN EYCK: Não te assustes pobre homem. Não incomodarei o teu ser, sou o que pensares que eu seja. Mas não penses que sou um louco, mas talvez um trovador, quem sabe. Apenas guardes para si o que ouvires e não caia em tentação. Ela está ao teu redor...

Você pode viver o mesmo pesadelo de novo

Aparições sempre continuam vivas para te amedrontar

Adormecidas em sua própria mente

E enquanto você se sente fraco para enfrentá-las, elas cobrem sua atmosfera em névoa e neblina.

Fétidas serão as imagens que inundam os seus pensamentos de impurezas

O medo é o que domina a sua mente

Aprisionando-lhe por dentro, deixando a coragem escapar.

Você sempre permanecerá acorrentado se deixá-la fugir.

O tempo pode enferrujá-las, mas o fará se sentir perdido na imensidão do nada.

Rosas são cálidas

Pétalas sempre serão rosadas enquanto estiverem vivas

E quando se abrem, são como o ser buscando algo que nunca viu.

E então tudo parece mudar assim como este tempo que nunca existiu.

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