
TE PROMETO...
Capítulo 2
QUINZE DIAS ANTES
Verifico novamente o gráfico de gastos da empresa, para comparar ao gráfico do que havíamos feito antes das mudanças. Estamos com os gastos acima do que prevíamos e isso não é bom. Merda! Não podemos ultrapassar o orçamento dado ou todo o planejamento vai por água abaixo e não vou conseguir entrar na sociedade da empresa. Meu celular começa a tocar, mas não tenho tempo para falar agora. Preciso de alguma forma enxugar de algum lado dinheiro e cobrir esse buraco.
Olho mais uma vez meu relógio e já são quase 23h. Não percebi que passei mais do que devia da minha hora. Guardo minhas coisas e enfio um pouco de trabalho na pasta. Talvez, se estiver sem sono, possa continuar verificando essas planilhas. Tem alguma coisa errada com esses valores. Tenho medo que estejam superfaturando. Pego meu celular e vejo seis ligações da Elisa e duas mensagens. Clico para ver as mensagens.
DE: Elisa
PARA: Vitor
Vai demorar para vir jantar?
A última mensagem faz meia hora que me mandou.
DE: Elisa
PARA: Vitor
Estou indo dormir!
Respiro fundo e espero que entenda que estou em um projeto importante aqui na empresa. Se tudo der certo viro sócio e ficaremos financeiramente muito bem. Pego minhas chaves e finalmente estou pronto para ir pra casa. Se bem que daqui seis horas estarei voltando. Isso chega a ser estressante, mas vai valer a pena.
***********
Abro a porta do apartamento e está tudo escuro e em silêncio. Elisa deve estar dormindo. São quase meia noite e amanhã ela acorda cedo para trabalhar, assim como eu. Fecho a porta e coloco minha pasta sobre uma cadeira. Minha barriga ronca de fome. Acendo a luz e fico paralisado com o que vejo. A mesa de jantar está posta ainda e pelo que vejo, Elisa me esperava para uma noite romântica. Merda! Não acredito que perdi mais um jantar romântico esse mês. Respiro fundo e ando em direção à cozinha, querendo me dar um soco.
Ela vai entender. É por nós, pelo nosso futuro. Abro a geladeira e pego um suco. Estou cansado demais para comer e preciso de banho e uma cama. Tomo o suco o mais rápido que consigo para enganar o estômago e vou para o nosso quarto. Abro a porta do nosso quarto e a claridade da luz do corredor ilumina um pouco nossa cama. Elisa dorme enrolada nas cobertas e entro sem fazer barulho, apagando a luz do corredor e usando a luz do celular para iluminar meu caminho até o banheiro.
Assim que entro no banheiro e acendo a luz, vejo que ela deixou meu pijama separado para poder tomar um banho e dormir. Amo demais a minha mulher.
Ela sempre pensa em como cuidar de mim. Sigo para um banho rápido e meus pensamentos ainda estão na empresa, nas planilhas e nos gastos. Será que vou conseguir dormir com a cabeça cheia assim? Saio do chuveiro e me seco.
Coloco meu pijama e usando novamente a luz do celular, volto para o quarto. Me deito ao lado de Elisa, me enfio embaixo das cobertas e procuro seu corpo para abraça-lo. Assim que meus braços a encontram, seu corpo encolhe e foge de mim. Ela nunca fez isso antes. Deve estar dormindo profundamente e se assustou com meu toque. Puxo-a para mim e a abraço forte para mostrar que sou eu. Cheiro seu cabelo e isso acalma os meus pensamentos, me levando a um sono profundo.
**********
Meu despertador toca e tento desliga-lo. Aperto o botão e ele para de apitar. Relaxo o corpo e finalmente abro meus olhos. Não posso perder tempo! Preciso voltar logo pra empresa. Olho para o lado na cama e não vejo a minha mulher. Ela nunca acorda antes de mim. Será que aconteceu alguma coisa? Saio da cama e vou atrás dela, pelo apartamento.
- Elisa!
Chamo e nada. Chego na sala e meu corpo trava vendo algumas malas perto da porta.
- Elisa!
Ando rápido até a cozinha e paro de andar ao vê-la sentada em uma cadeira, na pequena mesinha que temos. Seus olhos estão focados em sua xícara de café fumegante.
- O que são aquelas malas?
Pergunto um pouco perdido e sua cabeça se ergue. Seu nariz está vermelho e seus olhos, rosto, inundados de lágrimas.
- Estou indo embora!
Sussurra tão baixo que acho que entendi errado.
- O que?
Uma de suas mãos solta a xícara e limpa suas lágrimas.
- Estou te deixando!
- Não! Como assim me deixando?
Pergunto agora nervoso e minhas mãos passam pelo meu cabelo e rosto.
- Está me deixando por que não vim jantar ontem?
Um soluço escapa de sua boca.
- Eu nem sabia do jantar! Não pode ficar brava comigo quando planeja uma surpresa e eu sem saber dela, fico até mais tarde na empresa.
Seus olhos se fecham e seu choro só aumenta.
- Me desculpa! Eu não sabia do jantar!
Ela não me olha e apenas chora calada.
- Elisa...
Me aproximo e me ajoelho ao seu lado.
- Não pode me deixar. Sei que estou longe ultimamente, mas é por nós.
- Não é por nós, é por você.
Diz virando a cabeça e me olhando.
- Está tão focado nessa sociedade, achando que depois vamos ficar felizes e bem, que esqueceu da gente, de mim.
- Não me esqueci da gente. Apenas não me avisou que estava fazendo esse jantar. Você precisa me avisar quando quer que eu venha mais cedo para uma surpresa.
- Surpresa!?
Grita furiosa e levanta da mesa.
- A data de aniversário do nosso casamento é uma surpresa pra você?
Merda! Não me lembrei da data. Inferno!
- O dia em que comemoramos três anos de casados é uma surpresa pra você?
- Elisa!
- Não!
Grita tão alto que recuo assustado, quando tentava me aproximar.
- Há dois meses atrás você esqueceu o meu aniversário...
Não sei o que dizer. Na verdade não existem palavras como defesa agora.
- Juro que tentei pensar que foi cansaço, sua correria e engoli a dor de ter sido esquecida.
Ela volta a chorar compulsivamente.
- Mas parece que você não só me esqueceu...
Sua voz é de dor e decepção.
- Você esqueceu de nós... nos tornou um nada na sua vida.
- Não fala isso!
- Falo! Nosso casamento não existe mais para você. Simplesmente deixamos de fazer parte da sua vida.
- Eu te amo! Não me deixa!
Corro até ela e abraço seu corpo com todas as forças que tenho.
- Eu vou prestar mais atenção em nós. Vou dar mais atenção a você.
- Tarde demais, Vitor! Foi mais de um ano tentando te fazer perceber que nosso casamento estava morrendo. Tentei com todas as minhas forças segurar a corda que nos mantinha juntos.
Começo a chorar contra o seu pescoço, não acreditando que estou perdendo a mulher da minha vida. A pessoa que mais amo no mundo.
- Estou soltando a corda que nos mantinha presos um ao outro.
Me empurra e me olha com tristeza.
- Está livre para seguir seu sonho! Está livre para se enfiar no seu trabalho, na sua sociedade, no que te faz feliz.
- Não!
Avanço em sua boca e tento beija-la, mas seus lábios não correspondem. Elisa não quer meu beijo e isso é um soco em meu coração.
- Não me deixa!
Peço de olhos fechados, ao soltar seus lábios e colar nossas testas.
- Você me deixou primeiro...
Se afasta de mim e ergue a mão, colocando sua chave sobre o balcão.
- Só estou agora recolhendo o resto que sobrou de mim, para tentar remendar e encontrar novamente a felicidade.
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